Resposta curta: uma amarração, por definição, pretende que outra pessoa ame, volte ou obedeça sem o ter escolhido. É isso que a torna eticamente problemática, quer se acredite na magia quer não.
Quase todas as tradições, religiosas e esotéricas, desaconselham tentar forçar a vontade de alguém.
O problema está na intenção
Não há provas de que um ritual consiga mudar a vontade de outra pessoa. Mas a pergunta ética não depende disso. O que conta é a intenção: quem encomenda uma amarração quer que o outro deixe de decidir por si.
Numa relação saudável, a outra pessoa pode dizer sim e pode dizer não. Esse é o centro do consentimento: só vale se for livre, informado e possível de retirar.
O que dizem as tradições
O cristianismo
Para a Igreja Católica, a liberdade é parte da dignidade humana. O Catecismo diz que toda a pessoa «tem o direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável» (§1738).
O mesmo Catecismo condena as práticas de magia que pretendem obter «um poder sobrenatural sobre o próximo» (§2117).
A bruxaria moderna
Na Wicca, a principal regra ética é o Wiccan Rede: «se não fizer mal a ninguém, faz o que quiseres». Foi registado publicamente por Doreen Valiente em 1964. Muitos praticantes interpretam-no como uma proibição de feitiços que manipulem outras pessoas, incluindo feitiços de amor dirigidos a alguém concreto.
➜ Wicca
A tradição portuguesa
A Inquisição perseguiu em Portugal as cartas de tocar e outros feitiços amorosos, em parte porque os via como tentativas de forçar a vontade alheia. Hoje não se trata de crime religioso, mas a questão moral mantém-se.
«Mas eu só quero que ele volte»
É o pedido mais comum, e nasce muitas vezes de sofrimento verdadeiro. Vale a pena fazer três perguntas:
- Se a pessoa voltasse só por causa de um feitiço, seria amor?
- Eu aceitaria que alguém fizesse o mesmo comigo?
- O que estou a evitar sentir (luto, rejeição, solidão)?
A resposta sincera a estas perguntas costuma ajudar mais do que qualquer ritual.
Alternativas que respeitam os dois
- Falar diretamente com a pessoa, sem pressão, e aceitar a resposta.
- Cuidar de si: apoio de amigos, de um psicólogo, tempo para o luto.
- Rezar ou meditar pela sua própria serenidade e pelo bem do outro, sem pedir que ele faça algo contra a vontade.
Uma nota importante
Insistir, vigiar, ameaçar ou controlar uma pessoa que não quer a relação não é romance. Pode ser perseguição ou violência, e a lei portuguesa pune-as. Se é vítima de uma situação destas, pode pedir ajuda à APAV (116 006) ou ligar 112 em caso de perigo.
Continue a ler
➜ Como funciona uma amarração: a crença explicada
➜ A amarração dura para sempre?
➜ A bruxaria volta contra quem a faz?
Fontes
- Catecismo da Igreja Católica, §1730–1738 (A liberdade do homem) — vatican.va
- Catecismo da Igreja Católica, §2115–2117 (Adivinhação e magia) — vatican.va
- Wikipedia, «Wiccan Rede» — en.wikipedia.org
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: Feiticeiras, Adivinhos e Curandeiros em Portugal no Século XVI, Companhia das Letras, 2004.