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Exu e Pombagira

Quem são Exu e Pombagira? O orixá Èṣù dos iorubás, o Exu do Candomblé, os espíritos da Umbanda e da Quimbanda e porque não são o diabo.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Èṣù, o orixá iorubá
  3. Exu no Candomblé
  4. Exu e Pombagira na Umbanda e na Quimbanda
  5. Porque foram confundidos com o diabo
  6. Respeito religioso
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Exu e Pombagira estão entre as figuras mais mal compreendidas das religiões afro-brasileiras. Durante mais de um século foram apresentados como «o diabo» ou como «espíritos do mal». Essa leitura vem de fora destas religiões, não de dentro.

Por trás dos dois nomes há realidades diferentes: um orixá africano, uma divindade banta das encruzilhadas e uma multidão de espíritos que se manifestam nos terreiros da Umbanda e da Quimbanda.

Esta página explica as figuras e a sua história. Não ensina «trabalhos». Trata-se de religiões vivas, com fiéis e sacerdotes, que merecem o mesmo respeito que qualquer outra.

Ficha

Campo Informação
Nome e variantes Exu (Èṣù, Eṣu), Elegbara, Legba, Bará; Pombagira (Pomba Gira, Bombogira)
Tipo Orixá iorubá; no Brasil, também espíritos (entidades)
Origem Exu: povo iorubá (atual Nigéria e Benim). Pombagira: nome banto (Angola)
Tradições Religião iorubá, Candomblé, Batuque, Umbanda, Quimbanda; Santería (Cuba); Vodu (Haiti)
Atributos Encruzilhadas, caminhos, entradas, mensagem, comunicação

Èṣù, o orixá iorubá

Na religião tradicional dos iorubás, Èṣù é o orixá dos caminhos, das encruzilhadas, do acaso e da linguagem. É o mensageiro entre os seres humanos e as divindades, e quem leva as oferendas ao seu destino.

Está ligado ao sistema de adivinhação Ifá e a Ọ̀rúnmìlà. É também um trickster: uma figura astuta e imprevisível, que testa as pessoas e expõe as suas contradições. Não é uma figura do mal.

Com o tráfico de escravos, o culto atravessou o Atlântico. Tornou-se Exu no Brasil, Eleguá ou Echú em Cuba e aproxima-se de Papa Legba, o guardião das encruzilhadas do vodu haitiano, herdeiro do Legba do antigo Daomé.

➜ O vodu do Haiti

Exu no Candomblé

No Candomblé — a religião afro-brasileira mais próxima do culto africano — Exu continua a ser um orixá. É sempre o primeiro a ser saudado: segundo a tradição, nada se faz sem ele.

  • Cerimónia própria: o padê, feito antes das outras celebrações.
  • Lugar: o seu assentamento fica muitas vezes à entrada do terreiro, como guardião.
  • Dia: segunda-feira.
  • Cores: vermelho e preto.
  • Símbolo: o ogó, um bastão de madeira.
  • Saudação: «Laroiê!».

No Batuque do Rio Grande do Sul é conhecido como Bará.

➜ Candomblé

Exu e Pombagira na Umbanda e na Quimbanda

Espíritos, não o orixá

A Umbanda nasceu no Rio de Janeiro no início do século XX. Nela, a palavra «Exu» passou a designar sobretudo espíritos de pessoas falecidas que se manifestam através de médiuns. São diferentes do orixá.

Estes espíritos organizam-se em falanges com nomes próprios: Tranca-Ruas, Sete Encruzilhadas, Caveira, entre outros. Segundo o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, são descritos como almas de pessoas que tiveram vidas marginais.

Na teologia umbandista, são espíritos ainda em evolução, que trabalham para o bem e protegem o terreiro. Muitos terreiros usam expressões como «Exu de lei» para sublinhar essa função.

➜ Umbanda

Pombagira

Pombagira é a contraparte feminina de Exu. O nome vem do quimbundo pambu ia njila, «encruzilhada» — o nome de uma divindade (inquice) dos cultos de origem angolana.

Na Umbanda e na Quimbanda, as Pombagiras são descritas como espíritos de mulheres que viveram à margem das regras sociais. Estão associadas ao amor, ao desejo e às relações pessoais, e também à proteção.

Também se organizam em falanges: Maria Padilha, Rainha da Encruzilhada, Cigana, Sete Saias, entre outras. A mais conhecida, Maria Padilha, tem uma história própria que vem da Castela medieval e passa pela Inquisição portuguesa.

➜ Maria Padilha: da rainha de Castela à Pombagira

A Quimbanda

Na Quimbanda, Exus e Pombagiras são o centro do culto. Alguns estudiosos veem Umbanda e Quimbanda como «irmãs»; outros lembram que «quimbanda» começou por ser o nome dado aos elementos que a Umbanda rejeitava.

➜ Quimbanda

Porque foram confundidos com o diabo

A confusão tem uma origem documentada. Em 1842, o bispo anglicano Samuel Ajayi Crowther publicou um vocabulário iorubá onde traduziu Èṣù por «devil» (diabo). Os dicionários seguintes repetiram o erro.

A tradução encaixava num olhar missionário que via nas religiões africanas algo a combater. Alguns traços visuais — o vermelho e o preto, o bastão fálico, a sexualidade — reforçaram a associação.

A leitura errada durou até hoje. Só entre 2016 e 2019 o Google Tradutor deixou de traduzir Èṣù por «diabo», após a intervenção do linguista nigeriano Kọ́lá Túbọ̀sún.

Exu não é Lúcifer, nem Satanás. Essas figuras pertencem à teologia cristã. Pôr Exu e Pombagira na mesma lista que os demónios dos grimórios europeus é um erro de categoria.

➜ Lúcifer

Respeito religioso

Umbanda, Candomblé e Quimbanda são religiões vivas, praticadas sobretudo no Brasil e também por comunidades fora dele. Têm sacerdotes, rituais, ética e comunidade.

Por isso:

  • Evite usar «Exu» ou «macumba» como sinónimo de feitiço ou de maldade.
  • Desconfie de quem vende «trabalhos com Exu» com resultados prometidos.
  • Para conhecer estas religiões, procure fontes académicas ou uma casa séria, que explique antes de pedir.

As encruzilhadas, tão associadas a Exu e Pombagira, têm também um lugar próprio na magia europeia.

➜ A encruzilhada na tradição mágica

Continue a ler

➜ Anjos, demónios e entidades

➜ Maria Padilha

➜ Quimbanda

➜ Dicionário do oculto: letra U

Fontes

  • Wikipedia (inglês), Eshu — o orixá, Ifá, a tradução de Crowther (1842), a correção de Kọ́lá Túbọ̀sún
  • Wikipedia (português), Exu (orixá) e Exu de umbanda
  • Wikipedia (português), Pombajira — etimologia banta e falanges
  • Wikipedia (inglês), Quimbanda e Umbanda
  • Kelly E. Hayes, Holy Harlots: Femininity, Sexuality, and Black Magic in Brazil (University of California Press, 2011)

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