A Ars Goetia, primeira parte do Lemegeton (a Chave Menor de Salomão), é um catálogo de 72 espíritos. Para cada um, o texto dá um número, um nome, um título de nobreza e o número de «legiões» que comandaria.
Esta página é uma tabela de consulta: os 72 nomes tal como aparecem na edição inglesa de Mathers e Crowley (1904), hoje em domínio público, com os títulos e as legiões. Comparamos depois com a lista mais antiga, a de Johann Weyer (1577).
A história do livro, os selos e a influência na cultura moderna estão na página da Goetia. Aqui só descrevemos: não reproduzimos conjurações nem ensinamos a chamar ninguém.
➜ A Goetia: origem, edições e selos
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Ars Goetia (1.ª parte do Lemegeton) |
| Edição usada | The Book of the Goetia of Solomon the King, Mathers e Crowley, 1904 |
| Período do texto | Séc. XVII (manuscritos ingleses) |
| Fonte principal | Pseudomonarchia Daemonum, de Johann Weyer (1577) |
| Autoria | Atribuída ao rei Salomão (lenda); compilador real desconhecido |
| Idioma | Inglês |
| Tipo | Catálogo demonológico |
Como ler a tabela
- O número é a ordem do espírito no catálogo inglês. Não é igual à de Weyer.
- Os títulos imitam a nobreza europeia: rei, duque, príncipe, marquês, presidente, conde e um único cavaleiro. Alguns espíritos têm dois títulos.
- As legiões são as «legiões de espíritos» que, segundo o texto, cada um governaria. São números do livro, não factos.
- Entre parênteses estão outras grafias do mesmo nome. Os manuscritos variam muito.
Os 72 espíritos (edição de 1904)
| N.º e nome | Título · legiões |
|---|---|
| 1. Bael | Rei · 66 |
| 2. Agares | Duque · 31 |
| 3. Vassago | Príncipe · 26 |
| 4. Samigina (Gamigin) | Marquês · 30 |
| 5. Marbas | Presidente · 36 |
| 6. Valefor (Valefar) | Duque · 10 |
| 7. Amon | Marquês · 40 |
| 8. Barbatos | Duque · 30 |
| 9. Paimon | Rei · 200 |
| 10. Buer | Presidente · 50 |
| 11. Gusion | Duque · 40 |
| 12. Sitri | Príncipe · 60 |
| 13. Beleth | Rei · 85 |
| 14. Leraje (Leraye) | Marquês · 30 |
| 15. Eligos (Eligor) | Duque · 60 |
| 16. Zepar | Duque · 26 |
| 17. Botis | Presidente e conde · 60 |
| 18. Bathin | Duque · 30 |
| 19. Sallos (Saleos) | Duque · 30 |
| 20. Purson | Rei · 22 |
| 21. Marax (Morax) | Conde e presidente · 30 |
| 22. Ipos | Conde e príncipe · 36 |
| 23. Aim | Duque · 26 |
| 24. Naberius | Marquês · 19 |
| 25. Glasya-Labolas | Presidente e conde · 36 |
| 26. Bune | Duque · 30 |
| 27. Ronové | Marquês e conde · 19 |
| 28. Berith | Duque · 26 |
| 29. Astaroth | Duque · 40 |
| 30. Forneus | Marquês · 29 |
| 31. Foras | Presidente · 29 |
| 32. Asmoday | Rei · 72 |
| 33. Gaap | Presidente e príncipe · 66 |
| 34. Furfur | Conde · 26 |
| 35. Marchosias | Marquês · 30 |
| 36. Stolas | Príncipe · 26 |
| 37. Phenex | Marquês · 20 |
| 38. Halphas | Conde · 26 |
| 39. Malphas | Presidente · 40 |
| 40. Raum | Conde · 30 |
| 41. Focalor | Duque · 30 |
| 42. Vepar | Duque · 29 |
| 43. Sabnock | Marquês · 50 |
| 44. Shax | Marquês · 30 |
| 45. Viné | Rei e conde · 36 |
| 46. Bifrons | Conde · 6 |
| 47. Uvall (Vual) | Duque · 37 |
| 48. Haagenti | Presidente · 33 |
| 49. Crocell (Procel) | Duque · 48 |
| 50. Furcas | Cavaleiro · 20 |
| 51. Balam | Rei · 40 |
| 52. Alloces | Duque · 36 |
| 53. Camio (Caim) | Presidente · 30 |
| 54. Murmur | Duque e conde · 30 |
| 55. Orobas | Príncipe · 20 |
| 56. Gremory (Gemory) | Duque · 26 |
| 57. Osé (Voso) | Presidente · 30 |
| 58. Amy (Avnas) | Presidente · 36 |
| 59. Oriax (Orias) | Marquês · 30 |
| 60. Vapula (Naphula) | Duque · 36 |
| 61. Zagan | Rei e presidente · 33 |
| 62. Volac (Valak) | Presidente · 38 |
| 63. Andras | Marquês · 30 |
| 64. Haures (Flauros) | Duque · 36 |
| 65. Andrealphus | Marquês · 30 |
| 66. Cimejes (Kimaris) | Marquês · 20 |
| 67. Amdusias | Duque · 29 |
| 68. Belial | Rei · 50 |
| 69. Decarabia | Marquês · 30 |
| 70. Seere | Príncipe · 26 |
| 71. Dantalion | Duque · 36 |
| 72. Andromalius | Conde · 36 |
(Títulos e legiões segundo a edição de 1904. Noutros manuscritos e em Weyer alguns números mudam.)
A Goetia e a lista de Weyer (1577)
A lista não nasceu em Inglaterra. A fonte principal é a Pseudomonarchia Daemonum, que o médico Johann Weyer juntou à edição de 1577 do seu livro De praestigiis daemonum.
Weyer diz que a copiou de um manuscrito chamado Liber officiorum spirituum, atribuído a Salomão. E explica que cortou passagens de propósito, para tornar o texto inutilizável. Publicou-o para denunciar o que via como impostura, não para o divulgar.
➜ Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer
O que muda de uma lista para a outra
| Weyer (1577) | Goetia (séc. XVII; ed. 1904) |
|---|---|
| 69 espíritos | 72 espíritos |
| Inclui Pruflas | Pruflas desaparece |
| Não tem Vassago, Seere, Dantalion nem Andromalius | Acrescenta estes quatro |
| Belial é o n.º 23, com 80 legiões | Belial é o n.º 68, com 50 legiões |
| Morax com 36 legiões | Marax com 30 |
| Sem selos | Um selo para cada espírito |
A ordem também é outra. Em Weyer, por exemplo, Paimon é o n.º 22 e Asmoday o n.º 35 (com o nome alternativo «Sydonay»). Os primeiros lugares coincidem: nas duas listas, Bael é o n.º 1 e Agares o n.º 2.
Até dentro da tradição inglesa os números variam. O manuscrito Sloane 3825, na edição de Joseph H. Peterson, dá a Volac 30 legiões e a Belial 80, contra 38 e 50 na edição de 1904.
De onde vêm os nomes
A maioria dos nomes não tem origem conhecida: muitos parecem inventados ou deformados por gerações de copistas. Alguns, porém, têm uma história longa e documentada.
| Nome | Origem provável |
|---|---|
| Bael | Baal, o deus cananeu combatido na Bíblia |
| Astaroth | Astarte, deusa do Próximo Oriente antigo |
| Asmoday | Asmodeu, o demónio do Livro de Tobias |
| Belial | Palavra hebraica bíblica que significa «sem valor», «perverso» |
| Berith | Baal-Berith, deus cananeu citado no Livro dos Juízes |
| Naberius | Weyer dá-lhe o nome alternativo «Cerberus» |
| Phenex | Aparece como uma fénix; o nome lembra a ave |
| Bifrons | Latim: «de duas faces» |
O padrão é conhecido dos historiadores: deuses de povos vizinhos de Israel foram, ao longo dos séculos, transformados em demónios pela tradição judaica e cristã.
E em Portugal?
A Goetia é um texto inglês. O grimório popular que marcou Portugal foi outro: o Livro de São Cipriano, com os seus próprios demónios, orações e esconjuros.
Em Portugal, a acusação de pacto com o Demónio era sobretudo assunto da Inquisição, que a investigava em processos de feitiçaria.
➜ Os demónios no Livro de São Cipriano
➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa
Onde ler
- The Book of the Goetia of Solomon the King (1904), ed. Mathers e Crowley — sacred-texts.com
- Goetia, manuscrito Sloane 3825, ed. Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
- Johann Weyer, Pseudomonarchia Daemonum (1577) — esotericarchives.com
Continue a ler
➜ A Goetia: origem, edições e selos
➜ Lemegeton, a Chave Menor de Salomão
➜ Sigilos mágicos: dos selos dos espíritos a Spare
Fontes
- S. L. MacGregor Mathers e Aleister Crowley (ed.), The Book of the Goetia of Solomon the King, 1904 — sacred-texts.com
- Joseph H. Peterson (ed.), Goetia (BL Sloane 3825) — esotericarchives.com
- Johann Weyer, Pseudomonarchia Daemonum, 1577, ed. J. H. Peterson — esotericarchives.com
- «List of demons in the Ars Goetia», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009.