Quem anda pelas estradas do Norte e do Centro de Portugal conhece-as: pequenos nichos de pedra, muitas vezes com um painel de azulejo, onde se veem figuras envoltas em chamas a olhar para o céu. São as alminhas.
Não são túmulos nem marcam, em regra, o lugar de uma morte. São pequenos altares de rua dedicados às almas do Purgatório, feitos para lembrar a quem passa que os mortos precisam das suas orações.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Alminhas (também «almas» ou «nicho das almas») |
| Tipo | Oratório de rua, devoção católica popular |
| Período | Exemplares conhecidos desde o séc. XVIII; a maioria dos séc. XIX e XX |
| Onde | Todo o país, com mais força no Norte e Centro |
| Materiais | Granito, relevo pintado, pintura sobre pedra; no séc. XX, sobretudo azulejo |
| Tema | Almas do Purgatório pedindo oração |
A crença que está por trás: o Purgatório
Na doutrina católica, o Purgatório é o estado de purificação das almas que morreram em graça de Deus mas ainda não estão prontas para o Céu. Os vivos podem ajudá-las com orações, missas e esmolas.
O historiador Jacques Le Goff mostrou que a ideia do Purgatório como «terceiro lugar» se fixou no fim do século XII. A Igreja definiu-o formalmente no II Concílio de Lião (1274), repetiu-o no Concílio de Florença e de novo no Concílio de Trento, no decreto de 4 de dezembro de 1563.
Trento é importante para as alminhas. Contra os protestantes, que rejeitavam o Purgatório, a Igreja da Contrarreforma reforçou a oração pelos mortos, as confrarias das almas e as imagens que ensinavam a doutrina aos fiéis. As alminhas são, em grande parte, fruto desse ambiente devocional pós-tridentino, embora não haja um decreto que as mande construir.
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Datas: o que se sabe
Os exemplares mais antigos que se conhecem são do século XVIII. Registos escritos sobre estes memoriais só aparecem no século XIX.
Alguns estudiosos pensam que as alminhas terão substituído nichos mais antigos dedicados a santos cujo culto foi perdendo força. É uma hipótese, não um facto comprovado.
Onde se encontram
Quase sempre em lugares de passagem:
- encruzilhadas;
- entradas de pontes;
- pontos altos de caminhos;
- beiras de estradas nacionais;
- muros e fachadas de casas.
Esta localização junta duas ideias: lembrar os mortos a quem passa e proteger o viajante. A encruzilhada, na tradição popular, sempre foi lugar de perigo e de passagem entre mundos.
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Como são
A imagem
O painel mostra almas no meio das chamas, de mãos postas. Por cima aparecem figuras de salvação: Cristo crucificado, a Virgem, anjos que puxam as almas para cima ou o arcanjo São Miguel, pesador das almas.
As inscrições
Muitas alminhas têm uma frase que se dirige ao viandante. A mais conhecida é:
Ó vós que ides passando,
lembrai-vos de nós que estamos penando.
(Texto popular, com muitas variantes.) Outras lembram a brevidade da vida e pedem um Pai-Nosso e uma Ave-Maria pelas almas.
A devoção popular
Quem passa costuma:
- benzer-se ou tirar o chapéu;
- rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria;
- deixar flores, uma esmola na caixinha ou azeite para a lamparina;
- acender uma vela ou lamparina, sobretudo em novembro.
A estas práticas juntava-se, em muitas aldeias, a Encomendação das Almas, um canto noturno pelas almas feito sobretudo na Quaresma.
Segundo a crença popular, as almas ajudadas pela oração dos vivos intercedem por eles. Isto é devoção e crença, não algo que se possa provar.
Segurança
Se acender uma vela ou lamparina numa alminha, use recipiente fechado, não a deixe junto a mato seco e respeite a proibição de fogo em dias de risco de incêndio.
➜ Como usar velas com segurança
Património
As alminhas são hoje vistas como património artístico e religioso. Muitas estão degradadas, foram roubadas (sobretudo os azulejos) ou desapareceram com obras nas estradas. Algumas câmaras e juntas de freguesia fazem o seu levantamento e restauro.
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➜ Dia de Finados e Todos os Santos
Fontes
- Wikipédia, «Alminhas»: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alminhas
- Wikipedia, «Purgatory» (concílios de Lião, Florença e Trento; tese de Le Goff): https://en.wikipedia.org/wiki/Purgatory
- Junta de Freguesia de Oliveira do Conde, «O que são "Alminhas"?»: https://www.jf-oliveiradoconde.pt/pt_pt/buildings/alminhas
- Maria Inês Afonso Lopes, Por minha alma: raízes históricas do culto das almas do Purgatório em Portugal (2015).
- Jacques Le Goff, O Nascimento do Purgatório (orig. La naissance du Purgatoire, 1981).