Quem procura «amarração» na internet encontra um verdadeiro catálogo: amarração com foto, com cabelo, com mel, cigana, do espelho, «definitiva», «em 7 dias». Parece que existe uma para cada caso, e cada uma promete ser a certa.
Este artigo não ensina amarrações. Explica de onde vem a ideia, a lógica que está por trás dos vários «tipos» e porque é que as promessas devem acender todos os alarmes.
➜ Como funciona uma amarração: a crença explicada
Uma ideia muito antiga
Os feitiços para «prender» alguém existem há mais de dois mil anos:
- No mundo grego e romano, escreviam-se pedidos em placas de chumbo (katadesmoi em grego, defixiones em latim), que eram enroladas, pregadas e enterradas. Muitas eram contra rivais ou adversários; algumas eram para forçar o amor de alguém.
- Os papiros mágicos greco-egípcios (séculos II a.C. a V d.C.) incluem fórmulas de amor para obrigar uma pessoa a vir ter com outra.
- Em Portugal, os processos da Inquisição registaram muitos casos de feitiços amorosos, sobretudo de mulheres que procuravam prender ou recuperar um homem.
A palavra «amarração» diz tudo: atar a vontade de outra pessoa. Por isso sempre foi vista, até pelas tradições mágicas, como uma magia de controlo.
➜ O amor no Livro de São Cipriano
A lógica dos «tipos»
Quase todos os tipos anunciados seguem as duas regras que o antropólogo James Frazer descreveu em 1890 para a magia popular:
| Regra | Exemplos de «tipos» |
|---|---|
| Contacto: o que tocou a pessoa continua ligado a ela | Com cabelo, com roupa, com foto |
| Semelhança: o gesto imita o efeito | Com mel («adoçar»), com nós ou fitas («atar»), do espelho |
Outros nomes são rótulos de venda, não tradições distintas:
- «Cigana», «egípcia», «de São Cipriano»: nomes que dão um ar antigo ou exótico.
- «Definitiva», «irreversível»: nenhuma prática pode garantir isto.
- «Em 7 dias», «rápida», «urgente»: prazos que exploram a pressa de quem sofre.
- «Sem o saber»: sublinha precisamente o problema: agir sobre alguém sem o seu consentimento.
➜ O que é uma simpatia (e a magia simpática)
O que dizem os factos
- Não há nenhuma prova de que uma amarração mude os sentimentos de alguém.
- Os «sintomas» de que estaria a resultar são acontecimentos normais lidos com esperança.
- O único efeito certo é sobre quem paga: gasto de dinheiro, ansiedade e, muitas vezes, adiamento do luto pela relação.
➜ «Sintomas» de amarração: o que há de verdade
Os sinais de burla
Desconfie de quem:
- garante resultados ou prazos;
- recomenda um tipo «mais forte» e mais caro depois de o primeiro «não pegar»;
- pede fotografias íntimas, dados pessoais ou pagamentos sucessivos;
- ameaça com consequências se desistir.
Enganar alguém para obter dinheiro pode ser crime de burla (artigo 217.º do Código Penal).
➜ Como escolher um bruxo sério e evitar burlões
Uma pergunta que vale a pena fazer
Se alguém só ficasse consigo por estar «amarrado», seria isso amor? Uma relação boa precisa de duas vontades livres.
Se a dor de uma separação o está a consumir, se não consegue deixar de pensar na pessoa, isso tem nome e tem ajuda. Fale com alguém de confiança, procure um psicólogo ou ligue para o SNS 24 (808 24 24 24).
Se prefere um gesto espiritual, escolha um que não mexa na vontade de ninguém: uma oração pela sua própria paz, ou para encontrar alguém que o ame livremente.
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➜ Porque é que o amor não vem?
Fontes
- John G. Gager (org.), Curse Tablets and Binding Spells from the Ancient World, Oxford University Press, 1992
- Hans Dieter Betz (org.), The Greek Magical Papyri in Translation, University of Chicago Press, 1986
- James George Frazer, The Golden Bough, cap. III, «Sympathetic Magic» — sacred-texts.com
- Código Penal, artigo 217.º (Burla), Diário da República — diariodarepublica.pt