Durante séculos, quem lavrava a terra em Portugal encontrava de vez em quando uma pedra estranha: lisa, polida, com um gume, diferente de todas as outras. A explicação popular era simples: aquilo tinha caído do céu com o raio.
Chamava-se-lhe pedra de raio, pedra de corisco ou pedra de trovão. Levava-se para casa e guardava-se com cuidado, porque se acreditava que protegia a casa das trovoadas.
Hoje sabemos o que eram: na grande maioria, machados de pedra polida do Neolítico, feitos por mãos humanas há milhares de anos. Esta página conta a crença e a descoberta da sua verdadeira origem.
Ficha
| Característica | Pedras de raio |
|---|---|
| Nomes em Portugal | Pedra de raio, pedra de corisco, pedra de trovão |
| Nome erudito | Cerâunia (do grego keraunós, «raio») |
| O que são, na maioria | Machados e enxós de pedra polida (Neolítico) |
| Outros objetos incluídos | Pontas de seta, rochas invulgares, fósseis |
| Crença principal | Caíram com o raio; protegem da trovoada |
| Onde se registou | Todo o país, do Minho ao Algarve; também na Galiza e noutros países |
| Estudioso principal | José Leite de Vasconcelos |
A crença popular
Como «nascia» uma pedra de raio
Segundo a crença registada por José Leite de Vasconcelos no século XIX, o raio era uma pedra que caía do céu e se enterrava sete varas ou braças. Depois subia uma braça por ano e, ao fim de sete anos, voltava à superfície. Por isso aparecia nos campos, à flor da terra, depois de lavrar.
Havia também distinções populares de tamanho. As peças maiores eram «raios»; as mais pequenas e estreitas, como pontas de seta, eram «coriscos», porque «se quebram mais».
Os nomes variavam: pedra de trovão em Neiva (Minho), pedra de raio no Minho, Douro e Estremadura.
Para que servia
A crença mais espalhada era a de proteção contra as trovoadas. A pedra guardava-se:
- dentro de casa, muitas vezes no oratório, junto das imagens dos santos;
- no telhado, entre as telhas;
- junto às portas e entradas.
O Abade de Baçal, nas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, registou que no nordeste transmontano estas pedras eram tidas por «preventivos eficacíssimos para livrar de raios».
Leite de Vasconcelos ligou esta superstição à antiguidade: as cerâunias, escreveu, eram tidas pelos Lusitanos como «boas para preservar dos efeitos das trovoadas». Esta é a interpretação dele, com base nas fontes do seu tempo.
Na Galiza, onde a crença é igual, a pedra também se trazia consigo como amuleto ou se usava para tratar «venenos».
Ao lado de Santa Bárbara
A pedra de raio não substituía a oração: juntava-se a ela. Nas mesmas casas rezava-se a Santa Bárbara, a santa das trovoadas, e, segundo a tradição, queimava-se um pouco do ramo bento do Domingo de Ramos quando o céu roncava.
Uma crença muito antiga e europeia
A crença não é só portuguesa. Os gregos e romanos já chamavam ceraunia a estas pedras e colocavam machados neolíticos em edifícios como proteção. Em Inglaterra, num estudo de 1985, identificaram-se cerca de quarenta machados deste tipo em contextos romanos, a maioria ligada a edifícios.
Na Suíça, registou-se o costume de rodar a pedra à volta da cabeça e atirá-la contra a porta quando se aproximava a tempestade. Em Salamanca, esfregavam-se nas articulações contra o reumatismo. Em várias regiões, também fósseis (ouriços-do-mar fossilizados, belemnites) eram «pedras de trovão».
A descoberta da verdade
A explicação correta demorou a impor-se.
- No final do século XVI, o italiano Michele Mercati defendeu que as cerâunias eram ferramentas de povos antigos. O seu livro só foi publicado no século XVIII.
- Em 1723, o francês Antoine de Jussieu comparou-as com os machados de pedra polida usados por povos de outros continentes e concluiu que a Europa tinha sido habitada por gente que usava estes instrumentos.
- No século XIX, os trabalhos de Boucher de Perthes ajudaram a fundar a arqueologia pré-histórica.
Hoje estes objetos estão em museus de todo o país. Um exemplo: em 2024, o Museu da Universidade do Porto destacou, a propósito das superstições, um machado de pedra polida do Neolítico final achado no Crato (Portalegre).
O que fazer se encontrar uma
Um machado de pedra polida é um objeto arqueológico. Se encontrar um no campo:
- anote onde o encontrou, com a maior precisão possível;
- não o limpe com produtos nem o raspe;
- contacte o museu municipal ou os serviços de património cultural da sua região.
O local do achado vale muitas vezes tanto como a peça, para quem estuda a Pré-História.
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Fontes
- Alexandra Vieira, «Raios e coriscos», Revista Memória Rural, n.º 2, 2019, pp. 162–173 — museudamemoriarural.pt
- José Leite de Vasconcelos, «Tradições das pedras» (1880–1881) e Religiões da Lusitânia (1897), citados no artigo anterior.
- «Pedra de raio (folclore)», Wikipedia em galego — gl.wikipedia.org
- «Thunderstone (folklore)», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Fevereiro, no Museu da U.Porto, é o mês das… superstições!», Notícias U.Porto, 2024 — noticias.up.pt