Saltar para o conteúdo

💎 Cristais

Pedras de raio: os machados que «caíram do céu»

Em Portugal, os machados de pedra polida achados nos campos eram «pedras de raio» caídas do céu e guardadas contra as trovoadas. A crença, a história e a arqueologia.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A crença popular
  3. Uma crença muito antiga e europeia
  4. A descoberta da verdade
  5. O que fazer se encontrar uma
  6. Continue a ler
  7. Fontes

Durante séculos, quem lavrava a terra em Portugal encontrava de vez em quando uma pedra estranha: lisa, polida, com um gume, diferente de todas as outras. A explicação popular era simples: aquilo tinha caído do céu com o raio.

Chamava-se-lhe pedra de raio, pedra de corisco ou pedra de trovão. Levava-se para casa e guardava-se com cuidado, porque se acreditava que protegia a casa das trovoadas.

Hoje sabemos o que eram: na grande maioria, machados de pedra polida do Neolítico, feitos por mãos humanas há milhares de anos. Esta página conta a crença e a descoberta da sua verdadeira origem.

Ficha

Característica Pedras de raio
Nomes em Portugal Pedra de raio, pedra de corisco, pedra de trovão
Nome erudito Cerâunia (do grego keraunós, «raio»)
O que são, na maioria Machados e enxós de pedra polida (Neolítico)
Outros objetos incluídos Pontas de seta, rochas invulgares, fósseis
Crença principal Caíram com o raio; protegem da trovoada
Onde se registou Todo o país, do Minho ao Algarve; também na Galiza e noutros países
Estudioso principal José Leite de Vasconcelos

Como «nascia» uma pedra de raio

Segundo a crença registada por José Leite de Vasconcelos no século XIX, o raio era uma pedra que caía do céu e se enterrava sete varas ou braças. Depois subia uma braça por ano e, ao fim de sete anos, voltava à superfície. Por isso aparecia nos campos, à flor da terra, depois de lavrar.

Havia também distinções populares de tamanho. As peças maiores eram «raios»; as mais pequenas e estreitas, como pontas de seta, eram «coriscos», porque «se quebram mais».

Os nomes variavam: pedra de trovão em Neiva (Minho), pedra de raio no Minho, Douro e Estremadura.

Para que servia

A crença mais espalhada era a de proteção contra as trovoadas. A pedra guardava-se:

  • dentro de casa, muitas vezes no oratório, junto das imagens dos santos;
  • no telhado, entre as telhas;
  • junto às portas e entradas.

O Abade de Baçal, nas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, registou que no nordeste transmontano estas pedras eram tidas por «preventivos eficacíssimos para livrar de raios».

Leite de Vasconcelos ligou esta superstição à antiguidade: as cerâunias, escreveu, eram tidas pelos Lusitanos como «boas para preservar dos efeitos das trovoadas». Esta é a interpretação dele, com base nas fontes do seu tempo.

Na Galiza, onde a crença é igual, a pedra também se trazia consigo como amuleto ou se usava para tratar «venenos».

➜ Amuletos e talismãs

Ao lado de Santa Bárbara

A pedra de raio não substituía a oração: juntava-se a ela. Nas mesmas casas rezava-se a Santa Bárbara, a santa das trovoadas, e, segundo a tradição, queimava-se um pouco do ramo bento do Domingo de Ramos quando o céu roncava.

➜ Oração a Santa Bárbara

➜ A oliveira e o ramo bento

Uma crença muito antiga e europeia

A crença não é só portuguesa. Os gregos e romanos já chamavam ceraunia a estas pedras e colocavam machados neolíticos em edifícios como proteção. Em Inglaterra, num estudo de 1985, identificaram-se cerca de quarenta machados deste tipo em contextos romanos, a maioria ligada a edifícios.

Na Suíça, registou-se o costume de rodar a pedra à volta da cabeça e atirá-la contra a porta quando se aproximava a tempestade. Em Salamanca, esfregavam-se nas articulações contra o reumatismo. Em várias regiões, também fósseis (ouriços-do-mar fossilizados, belemnites) eram «pedras de trovão».

A descoberta da verdade

A explicação correta demorou a impor-se.

  • No final do século XVI, o italiano Michele Mercati defendeu que as cerâunias eram ferramentas de povos antigos. O seu livro só foi publicado no século XVIII.
  • Em 1723, o francês Antoine de Jussieu comparou-as com os machados de pedra polida usados por povos de outros continentes e concluiu que a Europa tinha sido habitada por gente que usava estes instrumentos.
  • No século XIX, os trabalhos de Boucher de Perthes ajudaram a fundar a arqueologia pré-histórica.

Hoje estes objetos estão em museus de todo o país. Um exemplo: em 2024, o Museu da Universidade do Porto destacou, a propósito das superstições, um machado de pedra polida do Neolítico final achado no Crato (Portalegre).

O que fazer se encontrar uma

Um machado de pedra polida é um objeto arqueológico. Se encontrar um no campo:

  • anote onde o encontrou, com a maior precisão possível;
  • não o limpe com produtos nem o raspe;
  • contacte o museu municipal ou os serviços de património cultural da sua região.

O local do achado vale muitas vezes tanto como a peça, para quem estuda a Pré-História.

➜ O Signo-Saimão

Continue a ler

➜ Tradição portuguesa

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Obsidiana

➜ Todos os cristais

Fontes

  • Alexandra Vieira, «Raios e coriscos», Revista Memória Rural, n.º 2, 2019, pp. 162–173 — museudamemoriarural.pt
  • José Leite de Vasconcelos, «Tradições das pedras» (1880–1881) e Religiões da Lusitânia (1897), citados no artigo anterior.
  • «Pedra de raio (folclore)», Wikipedia em galego — gl.wikipedia.org
  • «Thunderstone (folklore)», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Fevereiro, no Museu da U.Porto, é o mês das… superstições!», Notícias U.Porto, 2024 — noticias.up.pt

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Cristais ›