Durante séculos, em quase todas as aldeias portuguesas havia uma mulher a quem se ia «pedir uma reza». Chamavam-lhe benzedeira, rezadeira, mulher de virtude ou simplesmente «a senhora que benze».
Não cobrava consulta nem tinha consultório. Benzia na cozinha, à porta de casa ou à beira da cama de uma criança, com um raminho, um prato de água e muitas orações.
Esta página explica quem eram (e são) estas mulheres, como aprendiam e o que benziam, com base no que recolheram os etnógrafos e no que estudaram os historiadores.
Benzedeira, rezadeira, bruxa: não é o mesmo
Na linguagem popular, as palavras distinguem papéis diferentes:
| Nome | Como era vista |
|---|---|
| Benzedeira / benzedeiro | Pessoa de fé que «tira» males com orações e bênçãos |
| Rezadeira | Quase sinónimo; o acento está na reza |
| Mulher de virtude | Quem se julgava ter um dom recebido de Deus |
| Bruxa / feiticeira | Temida, porque se acreditava que também podia fazer mal |
A benzedeira via-se a si própria como católica. Rezava a Nossa Senhora, a Jesus e aos santos, e fazia o sinal da cruz. A fronteira com a feitiçaria, porém, sempre foi discutida, sobretudo pela Igreja.
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Como se aprende a benzer
Segundo os estudos de terreno, a aprendizagem é quase sempre oral. As rezas passam de mãe para filha, de avó para neta, ou de uma benzedeira idosa para alguém da aldeia em quem confia.
Muitas benzedeiras dizem que não basta saber as palavras: é preciso ter «dom» ou «virtude». Há quem diga que o recebeu ao nascer, há quem diga que o herdou.
As rezas eram, muitas vezes, guardadas em segredo. Na crença popular, ensinar a reza a qualquer pessoa, ou dizê-la em voz alta diante de estranhos, podia fazê-la «perder a força». Por isso muitas benzeduras se dizem em murmúrio.
O que se benze
As recolhas etnográficas portuguesas mostram uma lista longa de «males» que se levavam à benzedeira:
- mau-olhado e quebranto, sobretudo em crianças pequenas;
- cobrão (a zona ou herpes zóster), que se «talha»;
- espinhela caída e bucho virado, males de barriga e de peito;
- ar («ar de sol», «ar de frio»), dores de cabeça, torcicolos;
- erisipela, verrugas, cravos, dores de dentes;
- males do gado: vacas que não davam leite, animais «invejados».
➜ Espinhela caída e bucho virado
➜ Desfazer o mau-olhado na tradição
Como é uma benzedura
Cada região e cada benzedeira tem a sua maneira. Há, no entanto, gestos que se repetem em todo o país:
- o sinal da cruz sobre a pessoa ou a parte doente;
- um raminho de alecrim, arruda ou oliveira;
- água e azeite: na tradição, pingam-se gotas de azeite num prato de água para «ver» se há mau-olhado;
- uma faca, uma tesoura ou uma linha, para «cortar» ou «talhar» o mal;
- números simbólicos: rezar três, sete ou nove vezes, ou durante três dias.
As palavras misturam orações católicas (Pai-Nosso, Ave-Maria, invocações da Santíssima Trindade) com fórmulas próprias, muitas vezes rimadas. Essas fórmulas antigas chamam-se ensalmos.
A benzedeira aos olhos da Igreja e da Inquisição
Os historiadores portugueses estudaram estas mulheres sobretudo através dos processos da Inquisição e das visitas pastorais dos bispos.
Francisco Bethencourt (sobre o século XVI) e José Pedro Paiva (sobre os séculos XVII e XVIII) mostram que benzer fora da liturgia podia levar a denúncia. A Igreja aceitava a oração, mas desconfiava de fórmulas não aprovadas e de quem dizia ter poder de curar.
Ainda assim, Portugal não teve uma «caça às bruxas» como a de outros países europeus, e a grande maioria das benzedeiras de aldeia nunca chegou a tribunal.
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Os etnógrafos e as benzedeiras
No fim do século XIX, os primeiros etnógrafos portugueses começaram a registar estas rezas antes que desaparecessem.
José Leite de Vasconcelos (1858–1941), que estudou Medicina no Porto antes de se dedicar à filologia e à etnografia, publicou Tradições Populares de Portugal (1882) e fundou a Revista Lusitana (1887), onde se foram publicando muitas recolhas de crenças e rezas. Teófilo Braga reuniu material semelhante em O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições (1885).
Hoje, museus, câmaras municipais e investigadores continuam a gravar benzedeiras idosas, sobretudo no interior e nas ilhas. O Museu Etnográfico da Madeira, por exemplo, registou em 2016 a forma como uma senhora do Campanário «curava» o bucho virado.
E a saúde?
Uma benzedura não trata doenças. Pode dar conforto, companhia e sentido a quem sofre, e isso tem valor. Mas zona, erisipela, febre alta, dores no peito ou problemas de barriga numa criança precisam de médico.
Um psiquiatra português, Carlos Braz Saraiva, relata ter encontrado no início dos anos 1990 muitos doentes que procuravam curandeiros antes do médico. Esse atraso é o verdadeiro risco.
Uma boa regra antiga, que muitas benzedeiras respeitam: benzer e mandar ao médico.
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Fontes
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes no século XVI, Lisboa, Universidade Aberta, 1987.
- José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774), Lisboa, Notícias Editorial, 1997.
- José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882 — archive.org
- «Medicina popular – Cura do bucho virado», Direção Regional da Cultura da Madeira — cultura.madeira.gov.pt
- Carlos Braz Saraiva, «Crenças e superstições, memórias breves» — carlosbrazsaraiva.com