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Stregheria: a bruxaria italiana, entre a história e a reinvenção

Stregheria: das streghe e dos benandanti de Friuli (Ginzburg) ao Aradia de Leland (1899) e à corrente moderna de Raven Grimassi. O que é história e o que é recente.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A strega na história
  3. Os benandanti: um caso histórico único
  4. Aradia: o livro de Leland
  5. A Stregheria moderna: Raven Grimassi
  6. Continue a ler
  7. Fontes

Stregheria é hoje o nome de uma corrente de bruxaria neopagã de origem italiana e ítalo-americana, parecida com a Wicca. A palavra é uma forma antiga do italiano para «bruxaria» (o termo atual é stregoneria).

Mas por trás deste nome há duas realidades muito diferentes: a história real da bruxaria em Itália, documentada em processos e no folclore, e a religião moderna criada no século XX nos Estados Unidos.

Nesta página separamos as duas.

Ficha

Tema Resumo
Palavra Strega (bruxa), do latim strix / striga
História documentada Processos de bruxaria em Itália (séc. XIII–XVIII), benandanti de Friuli
Obra-chave do séc. XIX Aradia, o Evangelho das Bruxas, de Charles G. Leland (1899)
Corrente moderna Stregheria de Raven Grimassi (EUA, a partir do fim dos anos 1970)
Classificação académica Muitos estudiosos veem-na como um ramo da Wicca

A strega na história

A palavra strega vem do latim strix (ou striga), um pássaro noturno de mau agouro. Na Antiguidade, a strix era imaginada como uma criatura que atacava crianças. Com o tempo, o nome passou a designar a mulher que faz magia.

Itália teve os seus processos de bruxaria. Um dos mais conhecidos é o de Matteuccia da Todi, julgada em 1428. Segundo as atas, disse que as bruxas se reuniam junto a uma nogueira de Benevento.

A nogueira de Benevento

É uma lenda muito conhecida no Sul de Itália. As bruxas locais, as janare, reunir-se-iam sob uma enorme nogueira junto ao rio Sabato. Segundo a tradição, o bispo São Barbato mandou cortar a árvore no século VII — mas ela voltaria a crescer.

Não há provas de reuniões reais: é folclore, reforçado pelos próprios processos.

➜ A caça às bruxas na Europa

Os benandanti: um caso histórico único

Os benandanti («os que andam bem») eram camponeses da região de Friuli, no Nordeste de Itália, nos séculos XVI e XVII.

Segundo a crença local:

  • nasciam com o «pelico» (a membrana amniótica sobre a cabeça);
  • em certas noites de quinta-feira, o seu espírito saía do corpo durante o sono;
  • lutavam contra os bruxos maus, os malandanti, para proteger as colheitas;
  • os benandanti combatiam com caules de funcho, os inimigos com caules de sorgo.

As mulheres benandanti contavam outra coisa: banquetes noturnos presididos por uma figura feminina divina, onde ficavam a saber quem morreria nesse ano na aldeia.

O que fez a Inquisição

Em 1575 um padre investigou o caso, depois de Paolo Gasparotto falar destas batalhas. A investigação parou. Em 1580 o inquisidor reabriu-a e interrogou Gasparotto e Battista Moduco.

Os benandanti diziam-se inimigos das bruxas. Mas os inquisidores foram-nos pressionando até «confessarem» que tudo era ilusão do demónio. Alguns foram condenados por heresia.

A leitura de Carlo Ginzburg

O historiador Carlo Ginzburg estudou estes processos no livro I benandanti (1966; em inglês The Night Battles, 1983). Defendeu que eram restos de um culto agrário de fertilidade anterior ao cristianismo.

Esta interpretação foi muito influente, mas é discutida por outros historiadores. O que é indiscutível é o valor das atas: mostram como a Inquisição transformou uma crença popular em «bruxaria diabólica».

➜ O funcho

Aradia: o livro de Leland

Em 1899, o folclorista americano Charles Godfrey Leland publicou Aradia, o Evangelho das Bruxas. Dizia ter recebido o texto de uma informadora toscana, Maddalena.

O livro conta que Diana enviou a filha, Aradia, à Terra para ensinar bruxaria aos camponeses oprimidos.

A autenticidade é muito debatida:

  • o historiador Ronald Hutton admite que possa ser criação do próprio Leland;
  • outros, como a antropóloga Sabina Magliocco, pensam que pode refletir folclore toscano do séc. XIX, misturado com outros elementos.

Foi uma das fontes da Wicca: um trecho inspirou a «Carga da Deusa».

➜ Aradia, o Evangelho das Bruxas

A Stregheria moderna: Raven Grimassi

A corrente que hoje se chama Stregheria deve-se sobretudo a Raven Grimassi (1951–2019), escritor ítalo-americano.

  • Em 1969 entrou num coven de Wicca gardneriana em San Diego.
  • Cerca de dez anos depois começou a ensinar a sua «tradição aridiana».
  • Publicou, entre outros, Ways of the Strega (1994), Italian Witchcraft (2000) e Hereditary Witchcraft (2001).

Grimassi apresentava a Stregheria como herdeira da religião etrusca e da crença camponesa toscana. Tal como na Wicca, venera-se um par divino (uma deusa lunar e um deus cornudo, com nomes como Diana e Dianus).

História ou reinvenção?

A maioria dos estudiosos, como Ethan Doyle White, considera a Stregheria um ramo da Wicca, com roupagem italiana. As alegações de tradições familiares muito antigas não estão documentadas.

Isto não impede que existam em Itália tradições populares reais de cura e proteção, como as segnature (gestos, orações e fórmulas contra o mau-olhado e outros males), muito parecidas com as benzeduras portuguesas.

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Wicca

Continue a ler

➜ Bruxaria tradicional

➜ Bruxaria em Portugal

➜ A lua tripla

Fontes

  • Ginzburg, Carlo, I benandanti. Stregoneria e culti agrari tra Cinquecento e Seicento, Einaudi, 1966 (trad. inglesa The Night Battles, 1983)
  • Leland, Charles Godfrey, Aradia, or the Gospel of the Witches, 1899
  • Wikipedia, «Benandanti» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Stregheria» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia (it.), «Janara» — it.wikipedia.org

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