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🌗 Elementos

A encruzilhada: história e folclore

Porque é a encruzilhada um lugar especial em tantas tradições: Hécate na Grécia, as alminhas portuguesas, as lendas do diabo e Exu no Candomblé.

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Hécate, a deusa das encruzilhadas
  2. A encruzilhada no Noroeste peninsular
  3. As alminhas: a resposta cristã
  4. O diabo nas encruzilhadas
  5. Exu e as religiões afro-brasileiras
  6. O que podemos fazer, com respeito
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Onde dois caminhos se cruzam, é preciso escolher. Talvez por isso a encruzilhada tenha sido, em culturas muito diferentes, um lugar de fronteira: entre direções, entre aldeias, entre o mundo dos vivos e o dos mortos.

Nesta página percorremos essa história, da Grécia antiga às alminhas portuguesas e às religiões afro-brasileiras. Não ensinamos «trabalhos» em encruzilhadas: deixar oferendas em vias públicas suja o espaço de todos, pode pôr animais e pessoas em risco e, junto à estrada, é perigoso.

Hécate, a deusa das encruzilhadas

Na Grécia antiga, Hécate era a deusa das encruzilhadas, da noite e da magia. A primeira menção escrita está na Teogonia de Hesíodo (c. 700 a.C.).

Nos cruzamentos de três caminhos erguiam-se os hekataia: pilares com três figuras da deusa, voltadas para cada direção. Os romanos chamavam-lhe Trivia, «a dos três caminhos».

Em Atenas, na lua nova, deixavam-se refeições nas encruzilhadas, as «ceias de Hécate», para honrar a deusa e acalmar os mortos inquietos.

➜ Magia grega

➜ A Lua como símbolo

A encruzilhada no Noroeste peninsular

No século VI, São Martinho de Dume, bispo de Braga, condenou no sermão De correctione rusticorum quem acendia velas junto às pedras, às árvores, às fontes e nas encruzilhadas (per trivia). A encruzilhada já era, portanto, um lugar sagrado antes do cristianismo.

As alminhas: a resposta cristã

A Igreja não conseguiu apagar o respeito pelas encruzilhadas, mas deu-lhe outro sentido. Nas encruzilhadas e à beira dos caminhos de Portugal, sobretudo no Norte e no Centro, erguem-se as alminhas: pequenos nichos com imagens das almas do Purgatório entre as chamas.

Pedem a quem passa uma oração pelas almas. Os exemplares conhecidos datam sobretudo dos séculos XVIII a XX, muitas vezes em azulejo. Também os cruzeiros marcam muitos cruzamentos.

➜ Os mortos no Livro de São Cipriano

➜ Oração pelos mortos

O diabo nas encruzilhadas

Na Europa cristã, a encruzilhada tornou-se também o lugar onde, segundo as lendas, se encontrava o diabo ou se faziam pactos. No livro alemão sobre Fausto (1587), o protagonista traça círculos mágicos numa encruzilhada para invocar o demónio.

Em Inglaterra, os suicidas e alguns condenados foram enterrados em encruzilhadas até 1823, talvez por marcarem os limites entre povoações, ou pela crença de que tantos caminhos confundiriam os espíritos inquietos.

No folclore português, a encruzilhada é o lugar onde o lobisomem corre o seu fado e onde, nas «horas abertas», não se devia passar sozinho. Já no século XX, a lenda do músico de blues Robert Johnson, que teria vendido a alma ao diabo num cruzamento, tornou-se famosa, mas não passa disso: uma lenda.

➜ A noite no folclore

➜ Os demónios no Livro de São Cipriano

Exu e as religiões afro-brasileiras

Na religião iorubá e no Candomblé, Exu (Èṣù) é o orixá mensageiro, dos caminhos e das encruzilhadas. É o primeiro a ser saudado nas cerimónias, porque é ele quem abre a comunicação entre as pessoas e os orixás.

Exu não é o diabo. A confusão vem sobretudo de missionários e tradutores do século XIX, que usaram o seu nome para traduzir «diabo». Na Umbanda, os «exus» são outro tipo de entidades, com uma teologia própria, que não deve ser confundida com o orixá.

➜ Candomblé

➜ Umbanda

O que podemos fazer, com respeito

  • Parar numa alminha e rezar um Pai-Nosso pelas almas, como fazia a tradição.
  • Fotografar e registar as alminhas e cruzeiros da sua terra: são património e muitos estão a desaparecer.
  • Refletir sobre uma escolha difícil, usando a encruzilhada como imagem, sem sair de casa.

Continue a ler

➜ O cemitério e o culto dos mortos

➜ Os pontos cardeais na magia

➜ A cruz como símbolo

Fontes

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