Em Portugal diz-se que alguém «fez um trabalho» ou que «tem um trabalho feito». A palavra designa um ato de feitiçaria feito com uma finalidade: amor, dinheiro, saúde, proteção ou, na crença, fazer mal.
Esta página explica o que se entende por «trabalho», que tipos de feitiçaria estão documentados na história portuguesa e como funciona o mercado de «trabalhos» hoje. Não ensina a fazer trabalhos contra ninguém.
Para a história geral da feitiçaria no país, veja também:
Feiticeira, bruxa, benzedeira
Na cultura popular, as palavras misturam-se. Mas os historiadores da magia em Portugal, como Francisco Bethencourt e José Pedro Paiva, distinguem várias figuras:
- Feiticeiras e feiticeiros: faziam rituais e preparados com uma finalidade concreta, muitas vezes a pedido e a troco de pagamento.
- Bruxas: na crença, tinham poderes próprios, voavam de noite e faziam mal a crianças e animais. Eram mais temidas do que procuradas.
- Benzedeiras, saludadores e curandeiros: tratavam o quebranto, as doenças e o gado com rezas e ervas.
Um «trabalho», no sentido popular, é portanto uma encomenda feita a alguém que se acredita saber fazer.
➜ Desfazer bruxaria: guia da tradição popular
A feitiçaria perante a lei e a Inquisição
A feitiçaria foi crime em Portugal durante séculos. As Ordenações do Reino puniam os feiticeiros, e a Inquisição, ativa em Portugal de 1536 a 1821, julgou muitos casos de superstição e magia.
Ao contrário de outros países europeus, Portugal não teve uma grande «caça às bruxas» com fogueiras em massa. É esse, aliás, o título do estudo de referência de José Pedro Paiva.
Os tipos de «trabalhos» documentados
Os processos e os estudos etnográficos mostram que as pessoas procuravam a feitiçaria sobretudo para:
| Finalidade | Exemplos documentados |
|---|---|
| Amor | Orações e fórmulas para fazer alguém gostar de outrem ou voltar. |
| Adivinhação | Descobrir objetos perdidos, ladrões, o futuro de um casamento. |
| Cura | Talhar o quebranto, a erisipela, curar gado. |
| Tesouros | Descobrir tesouros escondidos e «desencantar» mouras. |
| Proteção | Orações, amuletos e cartas para trazer consigo. |
O Livro de São Cipriano, impresso em português a partir do século XIX e com raízes nos livros de tesouros da Galiza, reuniu muitas destas fórmulas. É uma compilação popular e não uma obra do santo.
➜ História do Livro de São Cipriano
➜ São Cipriano e a magia portuguesa
O mercado de «trabalhos» hoje
Hoje os «trabalhos» vendem-se em anúncios, redes sociais e sites. Alguns praticantes veem-nos como uma herança religiosa ou cultural. Outros são puro negócio.
O Grimório.pt explica a história e a crença, mas não ensina trabalhos para controlar, separar, prejudicar ou vingar. Além de éticas, estas práticas são o terreno preferido das burlas.
Antes de encomendar um «trabalho», lembre-se:
- Ninguém pode garantir um resultado.
- Pedidos de dinheiro sucessivos, pressão e ameaças são sinais de burla.
- Um problema de saúde, dinheiro ou relação precisa, antes de mais, de ajuda concreta.
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Fontes
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal no século XVI, Companhia das Letras, 2004 — Google Livros
- José Pedro Paiva, Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruxas»: 1600–1774, Notícias Editorial, 1997 — Academia.edu
- José Leite de Vasconcelos, Tradições populares de Portugal (1882) — HathiTrust
- «Inquisição portuguesa», Wikipédia — pt.wikipedia.org