A Oração do Justo Juiz (ou «do Justo Juiz de Nazaré») é uma das orações populares de proteção mais conhecidas em Portugal e no Brasil. Pede a Cristo que guarde o corpo de quem reza contra inimigos, armas e perigos.
É também uma oração cheia de lendas: há quem diga que é «antiquíssima», que «fecha o corpo» ou que protege de toda a morte violenta. Nada disso está documentado.
Nesta página separamos o que se sabe do que se conta.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Oração do Justo Juiz; Justo Juiz de Nazaré |
| Invocado | Jesus Cristo, como «justo juiz» |
| Tipo | Oração popular (não litúrgica), dita «paracanónica» |
| Autor | Desconhecido |
| Origem | Desconhecida; circula em português e em castelhano (Justo Juez) |
| Finalidade na tradição | Proteção do corpo contra inimigos e perigos |
| Forma de uso | Rezada, copiada à mão ou trazida no corpo |
De onde vem o título «Justo Juiz»
A expressão é bíblica. Na Segunda Carta a Timóteo (2 Tm 4,8), São Paulo fala da coroa que lhe dará «o Senhor, justo juiz». No Credo, os cristãos afirmam que Cristo «há de vir a julgar os vivos e os mortos».
Ou seja: o título é antigo e ortodoxo. A oração popular com esse nome é outra coisa, muito mais recente, e não faz parte da liturgia da Igreja.
➜ O Credo
O que diz a oração
O texto varia muito de terra para terra. A abertura mais comum é:
Justo Juiz de Nazaré,
Filho da Virgem Maria,
que em Belém fostes nascido
entre as idolatrias…
(Texto popular, sem autor conhecido.)
Não transcrevemos uma versão completa porque não existe uma versão «original»: as que circulam como «a verdadeira» raramente indicam de onde vêm. Mas os temas repetem-se quase sempre:
- os inimigos têm olhos e não veem, têm mãos e não agarram, têm boca e não falam contra quem reza;
- as armas não ferem e as prisões não seguram;
- pede-se a proteção de figuras sagradas (a Virgem, São Jorge, os apóstolos) e do sangue de Cristo;
- termina com a Santíssima Trindade.
Estas imagens de «invisibilidade» diante do inimigo aparecem em muitas orações populares ibéricas de proteção do corpo, não só nesta.
No Livro de São Cipriano
A Oração do Justo Juiz aparece no índice das edições portuguesas do Grande Livro de São Cipriano, ao lado da oração do Anjo Custódio e das orações das horas abertas.
Isto explica parte da sua fama em Portugal. Mas não é uma oração exclusiva de São Cipriano: circulou também em folhetos de cordel, livros de orações populares e cópias manuscritas.
➜ Oração de justiça de São Cipriano e o Justo Juiz
➜ Oração de proteção de São Cipriano
Uma pista rara: os cristãos-novos de Trás-os-Montes
O investigador Manuel da Costa Fontes publicou em 1997, na revista Hispania, um estudo sobre duas orações criptojudaicas recolhidas em Rebordelo (Vinhais) em 1980. Uma delas é uma adaptação do «Justo Juiz» cristão.
É um dado curioso: mostra que a oração estava tão enraizada no Nordeste transmontano que até as famílias de origem judaica, que durante séculos esconderam a sua fé da Inquisição, a adaptaram à sua maneira.
Como se usa na tradição
- Rezada de manhã, antes de viagens, ou em momentos de perigo.
- Copiada à mão e trazida dobrada na carteira ou cosida na roupa, como um amuleto.
- No Brasil ficou muito ligada à ideia de «fechar o corpo».
- Em Portugal e no Brasil é rezada também antes de julgamentos, por causa do título «juiz».
Estes são costumes populares. A Igreja não reconhece a oração como tendo efeitos especiais, e ninguém pode garantir proteção a quem a traz consigo.
O que não se sabe (e o que é falso)
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «É uma oração com mil anos» | Sem prova documental |
| «Quem a traz nunca morre de morte violenta» | Promessa sem fundamento |
| «É uma oração da Igreja» | Não faz parte da liturgia |
Promessas deste género são típicas das orações de folheto, que prometiam milagres a quem as copiasse ou trouxesse. A Igreja sempre as viu com desconfiança.
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➜ Processos em tribunal e São Cipriano
Fontes
- O Grande Livro de São Cipriano ou O Tesouro do Feiticeiro, Nascente, 2024 — excerto com índice (PDF)
- Biblioteca Nacional de Portugal, O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro (séc. XIX) — purl.pt/16504
- Manuel da Costa Fontes, «O Justo Juiz cristão e a Inquisição em duas orações criptojudaicas de Rebordelo», Hispania, 1997.
- Bíblia, Segunda Carta a Timóteo 4,8.