Em Portugal, quando se perde alguma coisa, há sempre alguém que diz: «Reza o responso a Santo António.» As chaves, a aliança, um documento, às vezes um animal que fugiu.
O responso é um pequeno poema de louvor ao santo, com um refrão que se repete: «Recupera-se o perdido.» Não é uma invenção popular: vem de um hino latino do século XIII.
Nesta página encontra o texto português completo, o original latino e a história. A vida do santo e as outras orações (amor, casamento) estão noutra página:
➜ Oração a Santo António: vida, amor e 13 de junho
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Responso (ou responsório) de Santo António |
| Original latino | Si quaeris miracula («Se procuras milagres») |
| Autor do original | Frei Juliano de Espira, franciscano (m. c. 1250) |
| Data | Composto depois de 1241, poucos anos após a canonização |
| Uso litúrgico | Responsório do ofício de Matinas de Santo António |
| Versão portuguesa | Tradicional, anónima, com variantes |
| Uso popular | Encontrar objetos perdidos |
O texto português
Esta é a versão tradicional mais divulgada em Portugal. É anónima e há pequenas diferenças de terra para terra. O refrão repete-se depois de cada estrofe.
Se milagres desejais,
recorrei a Santo António:
vereis fugir o demónio
e as tentações infernais.
Recupera-se o perdido,
rompe-se a dura prisão,
e no auge do furacão
cede o mar embravecido.
Pela sua intercessão
foge a peste, o erro, a morte,
o fraco torna-se forte
e torna-se o enfermo são.
Recupera-se o perdido…
Todos os males humanos
se moderam, se retiram;
digam-no aqueles que o viram
e digam-no os paduanos.
Recupera-se o perdido…
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo,
como era no princípio, agora e sempre. Ámen.
Recupera-se o perdido…
V. Rogai por nós, bem-aventurado Santo António.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
No Brasil circula outra tradução, que começa igual mas continua com «contra os males e o demónio». Ambas traduzem o mesmo hino latino.
O original latino
O texto latino é medieval e de domínio público. Começa assim:
Si quaeris miracula,
mors, error, calamitas,
daemon, lepra fugiunt,
aegri surgunt sani.
Cedunt mare, vincula;
membra resque perditas
petunt et accipiunt
iuvenes et cani.
Tradução literal: «Se procuras milagres: a morte, o erro, a calamidade, o demónio e a lepra fogem, os doentes levantam-se sãos. Cedem o mar e as correntes; membros e coisas perdidas pedem e recebem jovens e velhos.»
Repare que a expressão «coisas perdidas» (res perditas) já está no original do século XIII. A fama de Santo António como «achador» de objetos é muito antiga.
Quem o escreveu
Juliano de Espira era alemão, de Speyer. Foi mestre de música na capela real de França e depois entrou nos franciscanos, em Paris, onde foi mestre de coro. Compôs dois ofícios rimados, isto é, textos para a oração litúrgica em verso com rima: um para São Francisco e outro para Santo António.
O Si quaeris miracula é um dos responsórios do ofício de Matinas da festa do santo, a 13 de junho. Os franciscanos ainda o cantam.
Porque é o «santo das coisas perdidas»
A explicação mais conhecida é uma lenda: um noviço terá fugido com o saltério (livro de salmos) anotado por António, e devolveu-o depois de o santo rezar. Não há confirmação histórica.
O que é facto é que o hino latino, escrito poucos anos depois da morte do santo, já fala de coisas perdidas.
Como se reza na tradição portuguesa
- Reza-se quando se perde alguma coisa, uma vez ou até aparecer.
- Há quem o reze três vezes seguidas, ou durante treze dias (lembrando o dia 13).
- Há famílias em que é sempre a mesma pessoa (a avó, uma vizinha) que «reza o responso» pelos outros.
- Às vezes junta-se uma promessa: uma esmola para o Pão de Santo António, a caixa das esmolas para os pobres.
São costumes de devoção. Ninguém pode garantir que o objeto aparece. Rezar ajuda muitas pessoas a acalmar e, com calma, a procurar melhor.
Rezar o responso é diferente de benzer: não é uma fórmula para curar, e não é preciso ninguém com «dom».
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➜ Os Santos Populares em Portugal
Fontes
- New Liturgical Movement, «The Miraculous Responsory of St. Anthony of Padua», 2013 — newliturgicalmovement.org
- Wikipedia, «Julian of Speyer» — en.wikipedia.org
- Franciscanos (Brasil), «Oração do Responsório de Santo Antônio» — franciscanos.org.br
- Apenas Oração, «Responso de Santo António» (versão portuguesa tradicional) — apenasoracao.blogspot.com