Na noite de 12 para 13 de junho, Lisboa enche-se de arraiais, sardinhas e manjericos. É a noite de Santo António, o santo mais popular da cidade e o grande «casamenteiro» da tradição portuguesa.
Por trás da festa há um conjunto de costumes populares ligados ao amor: oferecer manjericos, «deitar as sortes» para saber com quem se vai casar e até pôr o santo de castigo. Não são rituais de magia no sentido dos grimórios. São tradição popular, uma mistura de devoção, brincadeira e namoro.
Quem foi Santo António
- Nasceu em Lisboa, por volta de 1195, com o nome de Fernando.
- Tornou-se franciscano em 1220 e mudou o nome para António.
- Morreu em Pádua a 13 de junho de 1231. Por isso a festa é a 13 de junho, e a véspera é a grande noite.
- Foi canonizado em 1232.
Porque é que se tornou casamenteiro? Não há uma resposta histórica clara. Circulam várias lendas, por exemplo a de uma rapariga pobre que ele teria ajudado a arranjar dote. São histórias populares, não factos documentados da sua vida.
O manjerico e a quadra
O manjerico (Ocimum minimum) é uma planta pequena e muito aromática, da família do manjericão. Não é nativa da Europa, mas tornou-se o símbolo dos Santos Populares.
A tradição manda oferecê-lo à pessoa de quem se gosta, num vaso com um cravo de papel e uma bandeirinha com uma quadra popular. Era uma forma de declarar interesse sem dizer tudo às claras.
Antes de o cheirar, passa-se a mão por cima e cheira-se a mão. Diz-se que cheirar diretamente o faz murchar.
Ninguém sabe ao certo quando o manjerico entrou nesta festa. Os historiadores não encontram registos claros. A leitura mais comum é simbólica: é uma planta de vida curta, como os amores de verão.
Os Casamentos de Santo António
Os Casamentos de Santo António são um costume recente, mas já muito lisboeta:
- Começaram a 12 de junho de 1958, organizados pelo jornal Diário Popular, para ajudar casais com poucos recursos a casar.
- Pararam depois de 1974.
- Foram retomados em 1997 e hoje são organizados pela Câmara Municipal de Lisboa.
Não têm nada de mágico. São uma festa pública, com cerimónias civis e religiosas, que liga o santo casamenteiro a casamentos reais.
As «sortes» de Santo António
Na véspera dos Santos Populares, muitas raparigas «deitavam as sortes» para adivinhar o futuro marido. Os etnógrafos recolheram várias. Eis algumas:
- A clara de ovo: deitava-se uma clara num copo de água à noite. De manhã, as formas que apareciam eram lidas como sinal da profissão do futuro noivo.
- Os botões de rosa: davam-se nomes de rapazes ou raparigas a vários botões. O que abrisse primeiro seria o do futuro par.
- O cravo na rua: ao meio-dia, deitava-se um cravo para o meio da rua. O rapaz que o apanhasse seria o pretendente.
Eram brincadeiras de adivinhação, sem nenhuma base para prever o futuro. Mas contam muito sobre o que as pessoas desejavam e temiam.
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Os castigos ao santo
Um costume curioso: quando o pedido de casamento tardava, havia quem pusesse Santo António de castigo. Virava-se a imagem para a parede, punha-se de cabeça para baixo, pendurava-se num poço ou tirava-se o Menino Jesus dos seus braços até o «milagre» acontecer.
É uma devoção de grande intimidade: fala-se com o santo como com alguém da família, a quem se pode ralhar. A Igreja nunca ensinou nada disto.
Uma festa com segurança
Arraiais, fogareiros e velas pedem cuidado. Não deixe velas acesas à janela ou perto de enfeites de papel. Vigie as crianças perto dos fogareiros das sardinhas.
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Fontes
- 24 Notícias (SAPO), «Fogueiras, tronos, casamentos e marchas. Como começou a tradição das festas de Santo António?» — 24noticias.sapo.pt
- 24 Notícias (SAPO), «Virado para a parede ou enforcado num poço, Santo António não se livra de ser casamenteiro» — 24noticias.sapo.pt
- Público, «De onde vem o manjerico e como é que se tornou um símbolo dos santos populares?», 11 de junho de 2022 — publico.pt
- Hemeroteca Municipal de Lisboa, «Os Casamentos da manhã de Santo António (1958-1973)» — hemerotecadigital.cm-lisboa.pt