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🙏 Orações

Benzeduras portuguesas: as fórmulas populares

Coleção das benzeduras portuguesas recolhidas por etnógrafos: mau-olhado, ar, sol, cobrão, bucho, espinhela e susto, com a fonte de cada fórmula e avisos de saúde.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Como é feita uma benzedura
  2. As fórmulas, mal a mal
  3. O segredo e a ética
  4. Continue a ler
  5. Fontes

Uma benzedura é, na definição do Dicionário Priberam, o «ato de benzer, acompanhado de rezas». Em Portugal, foi durante séculos a forma popular de «tirar» males com palavras, cruzes e gestos.

Esta página é uma coleção: reúne, mal a mal, as fórmulas que etnógrafos e investigadores registaram, com o sítio e a fonte de cada uma. Os versos são textos populares, sem autor, transmitidos oralmente.

Para saber quem benzia e como se aprendia, veja a página sobre as benzedeiras.

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

Aviso: nenhuma benzedura trata doenças. Os males aqui descritos correspondem muitas vezes a problemas reais, que precisam de médico.

Como é feita uma benzedura

Quase todas as fórmulas portuguesas seguem os mesmos moldes. Conhecê-los ajuda a ler qualquer uma:

Elemento Exemplo
A Santíssima Trindade «Padre, Filho e Espírito Santo» tiram o mal
A enumeração Nomear todas as formas do mal para não falhar nenhuma
A comparação «Assim como isto é verdade, assim vá este mal»
O gesto Cruzes, faca, carvão, pano, prato com água
O número Dizer três vezes; repetir em dias ímpares
O fecho Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria

Estas fórmulas antigas chamam-se ensalmos.

➜ Ensalmos e ensalmadores

As fórmulas, mal a mal

Mau-olhado (quebranto)

O mal mais benzido em Portugal. A benzedura mais conhecida é a prova do azeite: gotas de azeite num prato com água, enquanto se reza.

Luís de Pina registou em Guimarães, num estudo apresentado em 1928, esta fórmula «para talhar» o olhado, dita com três cruzes na testa (texto popular):

De dous to deu,
três to tiraram,
que são o Padre, o Filho e o Espírito Santo.

Os «dois» são os olhos que puseram o mal; os «três» são as pessoas da Trindade que o tiram.

➜ Desfazer o mau-olhado: história, prova do azeite e amuletos

O ar

«Apanhar um ar» explicava dores de cabeça, torcicolos e males súbitos. Na mesma recolha de Guimarães, a fórmula enumera todas as horas em que o ar pode entrar (texto popular):

Ar da noite, ar do dia,
ar do pino do meio-dia…

Às crianças, dizia-se com uma defumação: «Ar e arejo, / para trás das costas o despejo.»

O sol

Quando «o sol entrava na cabeça» e a fazia doer, talhava-se com um copo de água e um guardanapo dobrado sobre a cabeça do doente. José Leite de Vasconcelos publicou em 1882 esta versão de Gondomar, dita três vezes, seguida de um Pai-Nosso (texto popular):

O Sol é luz,
o Sol é claridade,
são três pessoas da Santíssima Trindade.
O Sol nasce no Nascente
e põe-se no Poente…

O cobrão

O cobrão é a zona (herpes zóster). A crença atribuía-o a um «bicho» que passara pela roupa, e a reza enumera os bichos e «talha-os». Uma versão registada em Santarém invoca São Bento (texto popular):

Em louvor do Sr. São Bento,
corte todo bicho peçonhento.

➜ Talhar o cobrão: a crença, as rezas e o aviso médico

O bucho virado

Mal de barriga, sobretudo das crianças. O Museu Etnográfico da Madeira registou no Campanário uma fórmula dita três vezes durante uma massagem com azeite (texto popular):

Bucho virado, vai ao teu lugar,
a Virgem Maria te manda curar.

A espinhela caída

Cansaço e dor na «boca do estômago» explicavam-se pela espinhela, o ossinho do peito, que teria «caído». A benzedura pedia que ela voltasse ao lugar. As fórmulas publicadas vêm sobretudo do Brasil, para onde a crença foi levada de Portugal; uma delas termina: «Eu te ergo, curo e saro, / fica-te, espinhela, em pé!»

➜ Espinhela caída e bucho virado

Dores de dentes

Leite de Vasconcelos registou várias rezas: em Guimarães, a Santa Apolónia, a mártir invocada pelos dentes; noutras terras, pedidos dirigidos à lua nova.

O susto

Em Portugal, como no Brasil, diz-se que uma criança que chora de noite e não dorme «apanhou um susto», e há benzedeiras que o benzem. Não encontrámos uma fórmula portuguesa publicada que possamos citar com segurança, por isso não a transcrevemos. Choro persistente, febre ou mudanças no sono de um bebé são motivo para ir ao pediatra.

O segredo e a ética

Na tradição, as rezas perdem força se forem ensinadas a qualquer pessoa. Muitas benzedeiras só as passavam a alguém de confiança, e dizem-nas em murmúrio. Por isso as recolhas publicadas são fragmentos: o que as pessoas aceitaram mostrar.

As benzedeiras tradicionais não cobravam. E a regra de ouro, que muitas repetem, continua válida: benzer e mandar ao médico.

Em Portugal: SNS 24 — 808 24 24 24. Em emergência, 112.

Continue a ler

➜ Os saludadores

➜ Oração a São Bento

➜ Dicionário do oculto: letra B

➜ Tradição portuguesa: índice

Fontes

  • José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882, § 20 e § 34 — archive.org
  • Luís de Pina, «Bruxas e medicina (folclore de Guimarães)», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1928 — PDF
  • «Medicina popular – Cura do bucho virado», Direção Regional da Cultura da Madeira — cultura.madeira.gov.pt
  • Carlos Braz Saraiva, «Crenças e superstições, memórias breves» — carlosbrazsaraiva.com
  • Argus Vasconcelos de Almeida, Espinhela caída: referências históricas e práticas de cura populares, Recife, EDUFRPE, 2013 — repository.ufrpe.br

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