Uma benzedura é, na definição do Dicionário Priberam, o «ato de benzer, acompanhado de rezas». Em Portugal, foi durante séculos a forma popular de «tirar» males com palavras, cruzes e gestos.
Esta página é uma coleção: reúne, mal a mal, as fórmulas que etnógrafos e investigadores registaram, com o sítio e a fonte de cada uma. Os versos são textos populares, sem autor, transmitidos oralmente.
Para saber quem benzia e como se aprendia, veja a página sobre as benzedeiras.
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
Aviso: nenhuma benzedura trata doenças. Os males aqui descritos correspondem muitas vezes a problemas reais, que precisam de médico.
Como é feita uma benzedura
Quase todas as fórmulas portuguesas seguem os mesmos moldes. Conhecê-los ajuda a ler qualquer uma:
| Elemento | Exemplo |
|---|---|
| A Santíssima Trindade | «Padre, Filho e Espírito Santo» tiram o mal |
| A enumeração | Nomear todas as formas do mal para não falhar nenhuma |
| A comparação | «Assim como isto é verdade, assim vá este mal» |
| O gesto | Cruzes, faca, carvão, pano, prato com água |
| O número | Dizer três vezes; repetir em dias ímpares |
| O fecho | Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria |
Estas fórmulas antigas chamam-se ensalmos.
As fórmulas, mal a mal
Mau-olhado (quebranto)
O mal mais benzido em Portugal. A benzedura mais conhecida é a prova do azeite: gotas de azeite num prato com água, enquanto se reza.
Luís de Pina registou em Guimarães, num estudo apresentado em 1928, esta fórmula «para talhar» o olhado, dita com três cruzes na testa (texto popular):
De dous to deu,
três to tiraram,
que são o Padre, o Filho e o Espírito Santo.
Os «dois» são os olhos que puseram o mal; os «três» são as pessoas da Trindade que o tiram.
➜ Desfazer o mau-olhado: história, prova do azeite e amuletos
O ar
«Apanhar um ar» explicava dores de cabeça, torcicolos e males súbitos. Na mesma recolha de Guimarães, a fórmula enumera todas as horas em que o ar pode entrar (texto popular):
Ar da noite, ar do dia,
ar do pino do meio-dia…
Às crianças, dizia-se com uma defumação: «Ar e arejo, / para trás das costas o despejo.»
O sol
Quando «o sol entrava na cabeça» e a fazia doer, talhava-se com um copo de água e um guardanapo dobrado sobre a cabeça do doente. José Leite de Vasconcelos publicou em 1882 esta versão de Gondomar, dita três vezes, seguida de um Pai-Nosso (texto popular):
O Sol é luz,
o Sol é claridade,
são três pessoas da Santíssima Trindade.
O Sol nasce no Nascente
e põe-se no Poente…
O cobrão
O cobrão é a zona (herpes zóster). A crença atribuía-o a um «bicho» que passara pela roupa, e a reza enumera os bichos e «talha-os». Uma versão registada em Santarém invoca São Bento (texto popular):
Em louvor do Sr. São Bento,
corte todo bicho peçonhento.
➜ Talhar o cobrão: a crença, as rezas e o aviso médico
O bucho virado
Mal de barriga, sobretudo das crianças. O Museu Etnográfico da Madeira registou no Campanário uma fórmula dita três vezes durante uma massagem com azeite (texto popular):
Bucho virado, vai ao teu lugar,
a Virgem Maria te manda curar.
A espinhela caída
Cansaço e dor na «boca do estômago» explicavam-se pela espinhela, o ossinho do peito, que teria «caído». A benzedura pedia que ela voltasse ao lugar. As fórmulas publicadas vêm sobretudo do Brasil, para onde a crença foi levada de Portugal; uma delas termina: «Eu te ergo, curo e saro, / fica-te, espinhela, em pé!»
➜ Espinhela caída e bucho virado
Dores de dentes
Leite de Vasconcelos registou várias rezas: em Guimarães, a Santa Apolónia, a mártir invocada pelos dentes; noutras terras, pedidos dirigidos à lua nova.
O susto
Em Portugal, como no Brasil, diz-se que uma criança que chora de noite e não dorme «apanhou um susto», e há benzedeiras que o benzem. Não encontrámos uma fórmula portuguesa publicada que possamos citar com segurança, por isso não a transcrevemos. Choro persistente, febre ou mudanças no sono de um bebé são motivo para ir ao pediatra.
O segredo e a ética
Na tradição, as rezas perdem força se forem ensinadas a qualquer pessoa. Muitas benzedeiras só as passavam a alguém de confiança, e dizem-nas em murmúrio. Por isso as recolhas publicadas são fragmentos: o que as pessoas aceitaram mostrar.
As benzedeiras tradicionais não cobravam. E a regra de ouro, que muitas repetem, continua válida: benzer e mandar ao médico.
Em Portugal: SNS 24 — 808 24 24 24. Em emergência, 112.
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➜ Dicionário do oculto: letra B
Fontes
- José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882, § 20 e § 34 — archive.org
- Luís de Pina, «Bruxas e medicina (folclore de Guimarães)», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1928 — PDF
- «Medicina popular – Cura do bucho virado», Direção Regional da Cultura da Madeira — cultura.madeira.gov.pt
- Carlos Braz Saraiva, «Crenças e superstições, memórias breves» — carlosbrazsaraiva.com
- Argus Vasconcelos de Almeida, Espinhela caída: referências históricas e práticas de cura populares, Recife, EDUFRPE, 2013 — repository.ufrpe.br