Poucas coisas são tão simples e tão cheias de sentido como uma chave. Serve para abrir e fechar, para guardar e proteger, para dar ou negar acesso. Não admira que tenha passado de objeto do dia a dia a símbolo de poder, de passagem e de conhecimento escondido.
Esta página percorre as chaves mais importantes da história simbólica: as de São Pedro, as do deus romano Jano, as da deusa Hécate e as «chaves» dos grimórios.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Chave |
| Outros nomes | Latim clavis; diminutivo clavicula («pequena chave») |
| Origem mais antiga conhecida | Fechaduras e chaves existem desde a Antiguidade; atributo divino na Grécia e em Roma |
| Culturas | Religião grega e romana, cristianismo, grimórios, tarot, tradição popular |
| Significados | Autoridade; passagem; começo; segredo e conhecimento |
As chaves de São Pedro
A chave mais famosa do Ocidente vem do Evangelho de São Mateus (16,19). Jesus promete a Pedro «as chaves do Reino do Céu» e diz-lhe que o que ele ligar ou desligar na terra ficará ligado ou desligado no Céu.
Por isso São Pedro é representado na arte cristã quase sempre com uma ou duas chaves na mão. As chaves significam o poder que, segundo a doutrina católica, Cristo deu a Pedro e aos seus sucessores.
As chaves no brasão do Papa
Os brasões papais e o da Santa Sé mostram duas chaves cruzadas, uma de ouro e outra de prata. Segundo o próprio Vaticano, têm sido interpretadas de várias maneiras, por exemplo como símbolos do poder espiritual e temporal.
São Pedro, porteiro do Céu
Na tradição popular portuguesa, São Pedro é o porteiro do Céu, figura de inúmeras anedotas e ditos. É também um dos santos populares, festejado a 29 de junho.
➜ Santos populares em Portugal
Jano: o deus das portas
Muito antes do cristianismo, os Romanos tinham um deus das passagens: Jano (Ianus). Era o deus das portas, dos começos e dos fins, representado com duas caras que olhavam em sentidos opostos.
- Os seus atributos eram a chave e o bastão.
- Chamavam-lhe Patulcius, «o que abre», e Clusivius, «o que fecha».
- As portas do seu templo em Roma estavam abertas em tempo de guerra e fechavam-se quando havia paz.
- O mês de janeiro deve-lhe o nome.
A ideia de Jano mostra bem o sentido antigo da chave: controlar uma passagem entre dois estados.
Hécate, portadora das chaves
Na Grécia, Hécate — deusa das encruzilhadas e da magia — tinha o epíteto Kleidouchos, «a que tem as chaves». Nas suas estátuas triplas surge muitas vezes com tochas, chaves, serpentes e punhais.
As chaves de Hécate ligam-se aos limiares: as portas das casas e os cruzamentos de caminhos, lugares de passagem onde ela era honrada.
As «chaves» dos grimórios
A palavra passou também para os livros de magia. O grimório mais famoso da Europa chama-se Clavicula Salomonis, a «Chave de Salomão» — à letra, «pequena chave».
A ideia é clara: o livro apresenta-se como a chave de um conhecimento fechado, atribuída ao sábio rei Salomão. A atribuição é lendária: os manuscritos conhecidos são da Renascença em diante. Mas o título criou escola, e muitos outros livros de segredos usaram «chave» no nome.
A chave no tarot
No tarot Rider-Waite-Smith (1909), o arcano O Hierofante (o Papa, nos baralhos antigos) tem duas chaves cruzadas aos pés — uma referência direta às chaves de São Pedro. É uma escolha de desenho desse baralho, não uma regra antiga do tarot.
Na tradição esotérica moderna
Nos livros esotéricos atuais, a chave aparece associada a:
- iniciação: passar de um nível de conhecimento a outro;
- segredo: aquilo que está guardado e só se revela a quem procura;
- proteção da casa, como guardiã da porta.
São interpretações simbólicas, construídas a partir das tradições acima. Não há nelas nenhum efeito garantido.
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➜ O cálice
Fontes
- Bíblia, Evangelho segundo São Mateus 16,19
- «The Coat of Arms of His Holiness Benedict XVI», Santa Sé — vatican.va
- «Janus» e «Hecate», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Keys of Heaven», Wikipedia — en.wikipedia.org