O símbolo da lua tripla — um crescente, uma lua cheia e um minguante lado a lado (☽○☾) — é hoje um dos emblemas mais usados na Wicca e no neopaganismo. Representa a deusa tríplice: donzela, mãe e anciã.
Muitos livros apresentam-no como um símbolo de milhares de anos. A história é mais interessante: a Antiguidade conheceu deusas triplas, como Hécate, mas o esquema donzela–mãe–anciã e o próprio símbolo são criações do século XX.
Para a Lua como símbolo em geral (o crescente, a Virgem sobre a Lua, o Islão), veja a página própria.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Lua tripla |
| Outros nomes | Símbolo da deusa tríplice; triple moon |
| Origem mais antiga conhecida | Neopaganismo do séc. XX (a ideia vem de Robert Graves, 1948) |
| Culturas | Wicca, neopaganismo, espiritualidade feminina |
| Significados | Fases da Lua; donzela, mãe e anciã; ciclos da vida |
O que vem da Antiguidade: deusas triplas
É verdade que o mundo antigo conheceu deusas em forma tripla. Mas nenhuma delas corresponde ao esquema moderno.
Hécate
Hécate é o caso mais famoso. Na Teogonia de Hesíodo (c. 700 a.C.), é uma deusa honrada por Zeus, com poder sobre a terra, o mar e o céu. Mais tarde tornou-se deusa das encruzilhadas, da magia e dos lugares de passagem.
O escultor Alcámenes fez, no final do século V a.C., em Atenas, a primeira estátua conhecida de Hécate com três corpos — os chamados hekataia. As três figuras olhavam para os três caminhos de uma encruzilhada. Em latim, Hécate era chamada Trivia, «dos três caminhos».
Um ponto importante: a ligação de Hécate à Lua é tardia. Surge sobretudo nos Oráculos Caldaicos (séc. II–III d.C.) e nos Papiros Mágicos Gregos, quando foi identificada com Selene e Ártemis. Não se conhece arte anterior ao período romano que a associe à Lua.
Outras figuras triplas
- As Moiras gregas (Parcas romanas): três irmãs que fiavam, mediam e cortavam o fio da vida.
- As Matres celtas e germânicas, muitas vezes representadas em grupos de três.
- Diana era por vezes descrita como tripla: Lua no céu, caçadora na terra, Hécate no mundo inferior.
Nenhuma destas figuras é «donzela, mãe e anciã».
O que é moderno: Robert Graves e o neopaganismo
A ideia de uma grande deusa com três fases começou com académicos do início do século XX. A classicista Jane Ellen Harrison propôs, por volta de 1903, uma divisão tripla de uma antiga deusa da terra.
Foi o poeta inglês Robert Graves quem lhe deu a forma que hoje conhecemos, no livro The White Goddess (1948). Graves ligou as três fases da Lua a três fases da vida da mulher:
| Fase da Lua | Figura |
|---|---|
| Crescente | Donzela: juventude, começo |
| Cheia | Mãe: plenitude, fertilidade |
| Minguante | Anciã: sabedoria, fim do ciclo |
The White Goddess é uma obra poética, não de história. O historiador Ronald Hutton mostrou que o esquema donzela–mãe–anciã é uma criação moderna de Graves, construída a partir de estudos anteriores, e que não se encontra em nenhuma fonte antiga.
A lua tripla na Wicca
A Wicca, surgida em Inglaterra nos anos 1950 com Gerald Gardner, adotou a Deusa como figura central. Com o tempo, muitos grupos wiccanos e neopagãos acolheram a deusa tríplice de Graves.
O símbolo ☽○☾ tornou-se o seu emblema gráfico. Aparece em altares, joias, tatuagens e na capa de muitos livros. É um símbolo legítimo da religião moderna que o usa — só não é antigo.
➜ Wicca
Facto astronómico e interpretação
- Facto: a Lua passa por crescente, cheia, minguante e nova num ciclo de cerca de 29,5 dias.
- Interpretação: a leitura das fases como donzela, mãe e anciã é uma convenção simbólica do neopaganismo moderno.
Mitos a desfazer
- «É o símbolo da deusa mais antiga da humanidade.» Não há prova de um culto antigo a uma deusa tríplice universal.
- «Hécate era a deusa donzela–mãe–anciã.» Hécate era tripla, mas no sentido dos três caminhos, não das três idades.
- «As bruxas medievais usavam este símbolo.» Não há registo disso. O símbolo é do século XX.
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Fontes
- «Triple Goddess (Neopaganism)», Wikipedia (Graves, Harrison, Hutton) — en.wikipedia.org
- «Hecate», Wikipedia (Hesíodo, Alcámenes, Trivia, Oráculos Caldaicos) — en.wikipedia.org
- Robert Graves, The White Goddess, Faber & Faber, 1948
- Ronald Hutton, The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft, Oxford University Press, 1999