A borboleta passa por uma das mudanças mais espantosas da natureza: de ovo a lagarta, de lagarta a crisálida e de crisálida a inseto com asas. Não admira que tantas culturas a tenham ligado à alma, à morte e ao renascimento.
Nesta página reunimos o que está documentado sobre o simbolismo da borboleta — na Grécia, em Roma, na China, no México antigo, no Japão e no cristianismo — e separamo-lo das leituras esotéricas atuais.
Ficha
| Símbolo | Borboleta |
|---|---|
| Ideia central | Alma, metamorfose, renascimento |
| Palavra-chave grega | psyche (ψυχή): alma e borboleta |
| Texto clássico | O sonho de Zhuangzi (China, séc. IV a.C.) |
| Mito clássico | Eros e Psique, em Apuleio (séc. II d.C.) |
| Uso cristão | Imagem da ressurreição |
| Uso moderno | Transformação e mudança de vida |
Grécia: a mesma palavra para alma e borboleta
Em grego antigo, a palavra psyche (ψυχή) significa sobretudo alma, mente ou sopro vital. Mas a mesma palavra podia designar também a borboleta ou a traça.
Esta coincidência de sentido é o ponto de partida de quase todo o simbolismo ocidental da borboleta. É também daqui que vem a palavra «psicologia».
Eros e Psique
O mito mais conhecido é o de Eros (Cupido) e Psique, contado pelo escritor romano Apuleio no seu romance O Burro de Ouro (ou Metamorfoses), do século II d.C.
Psique é uma jovem mortal de grande beleza. Vénus, com ciúmes, impõe-lhe provas duríssimas, incluindo uma descida ao mundo dos mortos. No fim, Psique reconcilia-se com Eros e Júpiter torna-a imortal.
Na arte, Psique é muitas vezes representada como uma mulher com asas de borboleta. O tema foi retomado por muitos artistas; uma das obras mais famosas é a escultura de Antonio Canova, Psique reanimada pelo beijo de Cupido (1787).
Roma: a alma que sai pela boca
Na arte romana existe pelo menos uma escultura em que uma borboleta sai da boca de um homem morto. A imagem ilustra a ideia de que a alma deixava o corpo no último sopro.
Séculos mais tarde, a Encyclopédie de Diderot ainda registava a borboleta como símbolo da alma.
China: o sonho de Zhuangzi
O filósofo taoista Zhuangzi (c. 369–286 a.C.) conta, no capítulo 2 do livro que tem o seu nome, que sonhou ser uma borboleta que esvoaçava feliz, sem saber que era Zhuangzi.
Ao acordar, pergunta-se: seria um homem que sonhara ser borboleta, ou uma borboleta a sonhar que era homem? O texto chama a isto a «transformação das coisas» (wuhua).
É uma reflexão filosófica sobre sonho, realidade e identidade. Não é um ensinamento sobre almas nem sobre magia.
Outras culturas
Egito antigo
As borboletas aparecem na arte egípcia há cerca de 3500 anos, sobretudo em cenas de caça nos pântanos. Alguns autores leem-nas como sinais de vida e regeneração, mas isso é interpretação moderna: não há um texto egípcio que explique esse sentido.
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México antigo
Em Teotihuacan, a borboleta aparece em templos e joias, muitas vezes junto ao jaguar. Entre astecas, zapotecas e maias, algumas borboletas eram associadas às almas dos guerreiros mortos.
Os astecas tinham até uma deusa ligada a este animal: Itzpapalotl, a «Borboleta de Obsidiana», uma divindade guerreira e ligada à morte, representada no Códice Bórgia.
Japão
Segundo o escritor Lafcadio Hearn, no ensaio «Butterflies» do livro Kwaidan (1904), na tradição japonesa a borboleta podia ser a alma de uma pessoa, viva ou morta.
Hearn regista também superstições opostas: uma borboleta junto à casa podia anunciar a visita de alguém querido; um grande enxame podia ser mau presságio.
No cristianismo
A borboleta não é mencionada na Bíblia. Mesmo assim, pregadores e artistas cristãos usaram o ciclo lagarta – crisálida – borboleta como imagem da vida, da morte e da ressurreição.
A lagarta seria a vida terrena; a crisálida, imóvel como num túmulo, a morte; a borboleta, a vida nova. É por isso que a borboleta surge em alguma arte religiosa e funerária.
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Na língua portuguesa
No português, «borboleta» tem também um sentido figurado registado nos dicionários: uma pessoa inconstante ou volúvel, que «anda de flor em flor».
A origem da palavra é duvidosa, segundo o Dicionário Priberam. Circulam na internet muitas crenças sobre borboletas «pretas» ou noturnas que entram em casa, mas não encontrámos fontes etnográficas portuguesas fiáveis que as documentem, pelo que não as apresentamos aqui como tradição portuguesa.
Afirmação comum | O que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «Os gregos viam a borboleta como a alma» | Em parte: psyche significava alma e também borboleta. |
| «Psique tem asas de borboleta» | É sobretudo uma convenção da arte, ligada ao duplo sentido de psyche. |
| «O sonho de Zhuangzi fala de reencarnação» | Não. É uma reflexão sobre sonho, realidade e transformação. |
| «Os egípcios adoravam a borboleta» | Sem prova. Surge na arte, mas o seu sentido não está explicado em textos. |
| «A borboleta é símbolo bíblico» | Não aparece na Bíblia; é uma imagem cristã posterior. |
| «Ver uma borboleta é sinal de um morto» | É uma crença de várias culturas (ex.: Japão), não um facto. |
Interpretações modernas
No esoterismo e no desenvolvimento pessoal de hoje, a borboleta simboliza:
- transformação e mudança de fase na vida;
- renascimento depois de um período difícil;
- leveza e liberdade.
São leituras simbólicas modernas, apoiadas na imagem natural da metamorfose. Podem ajudar a pensar numa mudança pessoal, mas não são uma prática com efeitos garantidos. Se atravessa um luto ou uma fase difícil, falar com um médico ou psicólogo é sempre o passo mais seguro.
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Fontes
- «Butterfly» (secção In culture), Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Psyche (mythology)», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Butterfly dream» (Zhuangzi, cap. 2), Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Itzpapalotl», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things» (Lafcadio Hearn, 1904), Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Butterfly», United Methodist Church (símbolos cristãos) — umc.org
- «Borboleta», Dicionário Priberam — dicionario.priberam.org