O Eremita é a carta IX. Um velho de barba branca, envolto num manto cinzento com capuz, está sozinho no alto de uma montanha. Numa mão tem um bordão; na outra ergue uma lanterna onde brilha uma estrela de seis pontas.
Na tradição de leitura, é a carta do recolhimento, da prudência e da procura interior. Mas o velho das primeiras cartas não levava lanterna: levava uma ampulheta, e chamava-se o Tempo.

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | IX (em Marselha escreve-se VIIII) |
| Nome em Marselha / em inglês | L'Hermite / The Hermit |
| Nomes italianos antigos | Il Tempo, Il Vecchio, Il Gobbo |
| Golden Dawn | Letra hebraica Yod; signo de Virgem |
| Palavras-chave (direita) | recolhimento, prudência, reflexão, estudo, sabedoria |
| Palavras-chave (invertida) | isolamento, desconfiança, medo, fuga |
O desenho
A imagem de 1909 é simples, e é justamente essa simplicidade que a torna forte:
- A lanterna erguida, com uma estrela de seis pontas (hexagrama) no interior: a luz que guia. Waite escreve que o seu farol diz «onde eu estou, também tu podes estar».
- O bordão: o apoio de quem caminha há muito tempo.
- O manto cinzento com capuz: a discrição, a vida afastada do mundo.
- O cimo da montanha e a neve: o ponto que ele já alcançou.
Waite insiste num ponto: é uma carta «de realização», e está a ser mal entendida quando é ligada ao isolamento ocultista. O Eremita não se esconde: ergue a luz para quem vem atrás.
No Tarot de Marselha, L'Hermite é um velho de manto e capuz, de bordão na mão, que segura a lanterna meio tapada pelo manto. É uma figura que procura mais do que ilumina.
Na história
No Norte de Itália do séc. XV, a carta tinha vários nomes: o Tempo (Il Tempo), o Velho (Il Vecchio) ou o Corcunda (Il Gobbo). A figura era o Pai Tempo: um velho curvado que segurava uma ampulheta.
Três ideias do Renascimento ajudam a entender esta imagem:
- os Trionfi de Petrarca, onde o Tempo vence a Fama;
- as idades do homem, em que a velhice é a última etapa;
- o planeta Saturno, que na astrologia antiga regia os velhos, os pobres e os melancólicos.
A ampulheta aparece nas cartas pintadas à mão, como as chamadas cartas de Carlos VI (séc. XV). No final do século surge a lanterna: o chamado Tarocchi de Budapeste (c. 1500) mostra a figura de tarot mais antiga conhecida com lanterna. Em França, a lanterna já está no baralho de Catelin Geofroy (1557).
Com a troca do objeto, a figura mudou de sentido: deixou de ser o tempo que passa e passou a ser um sábio que procura. Há quem a compare a Diógenes, o filósofo grego que andava de dia com uma lanterna à procura de um homem honesto; é uma comparação moderna, não uma origem provada.
A Golden Dawn atribuiu-lhe a letra Yod e o signo de Virgem, regido por Mercúrio.
O significado na tradição
Direita
«Prudência, circunspeção; também, e sobretudo, traição, dissimulação, velhacaria, corrupção.» — A. E. Waite, 1910
É um dos casos mais surpreendentes da lista de Waite: o sentido divinatório principal é negativo, ao contrário do que ele próprio escreve sobre o simbolismo da carta.
A leitura moderna ficou com a primeira parte e com o simbolismo: o Eremita é recolhimento, reflexão, estudo e procura de sentido. Pode representar também um mestre ou um conselheiro sábio.
Invertida
«Ocultação, disfarce, manobra, medo, cautela sem razão.» — A. E. Waite, 1910
Na leitura moderna, invertido costuma indicar isolamento excessivo, fuga dos outros, desconfiança ou, pelo contrário, dificuldade em estar sozinho e em pensar por si.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional, o Eremita costuma indicar uma fase de distância ou de reflexão, a necessidade de tempo para si antes de decidir. Invertido, é lido como solidão mal vivida ou fechamento aos outros.
Trabalho. É associado a estudo, especialização, trabalho que exige concentração e a procurar conselho de alguém experiente. Invertido, sugere adiamentos por excesso de cautela.
Conselho. Como conselho, a carta é lida como um convite a parar, pensar e iluminar o próximo passo, sem fugir do mundo. Se o isolamento pesa, falar com alguém de confiança ou com um profissional de saúde é mais útil do que qualquer carta.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «O Eremita sempre levou uma lanterna» | As cartas mais antigas mostravam o Tempo com uma ampulheta; a lanterna surge por volta de 1500 |
| «É a carta da solidão e do isolamento» | Waite diz que a carta é mal entendida quando ligada ao isolamento; fala de realização |
| «O Eremita é Diógenes» | Comparação moderna, sem prova de que tenha inspirado a carta |
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➜ Carta seguinte: A Roda da Fortuna
Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «IX. The Hermit» — sacred-texts.com; significados divinatórios — sacred-texts.com
- Wikipedia, «The Hermit (tarot card)» — en.wikipedia.org
- Sherryl E. Smith, «L'Eremita, L'Ermite, The Hermit», Tarot Heritage — tarot-heritage.com
- Wikipedia, «Tarot of Marseilles» — en.wikipedia.org
- «Qlickable Qabalah» (atribuições da Golden Dawn) — nofaithinthehumanrace.com