O hexagrama ✡ é uma estrela de seis pontas formada por dois triângulos equiláteros sobrepostos, um com a ponta para cima e outro com a ponta para baixo.
É o mesmo desenho, mas teve vários donos ao longo da história: foi ornamento antigo, sinal mágico de cristãos e muçulmanos com o nome de selo de Salomão, amuleto popular português (signo-saimão) e, só a partir da Idade Média tardia, emblema judaico: a estrela de David.
Não confundir
A palavra «hexagrama» tem outro sentido: no I Ching chinês, um hexagrama é uma figura de seis linhas horizontais, inteiras ou partidas. Não tem nada a ver com a estrela.
Primeiras ocorrências
- Séc. VII a.C.: o exemplo mais antigo indiscutível em contexto judaico é um selo encontrado em Sídon, de um certo Josué ben Asayahu.
- Séc. II–III d.C.: na sinagoga de Cafarnaum, surge esculpido ao lado do pentagrama e da suástica, como decoração.
- A mesma figura aparece em muitas outras culturas, da Índia ao Mediterrâneo, sem sentido religioso comum.
Nesta fase, não há prova de que fosse um símbolo do judaísmo.
O selo de Salomão
Segundo a lenda judaica e islâmica, o rei Salomão tinha um anel gravado com o nome de Deus, que lhe dava poder sobre os demónios e os génios. O Talmude conta como o demónio Asmodeu lhe roubou esse anel.
A lenda é antiga, mas a forma do selo não estava definida. Na Idade Média, fontes árabes chamaram ao hexagrama «selo de Salomão» (khatam Sulayman). Na Europa do Renascimento, o nome foi dado muitas vezes ao pentagrama.
Por isso, quando um texto antigo fala de «selo de Salomão», convém verificar qual das estrelas desenha.
A estrela de David
O nome hebraico é Magen David, «escudo de David». A sua história como símbolo judaico é relativamente recente:
- Séc. XIII em diante: surge em manuscritos hebraicos, por vezes em amuletos.
- 1354: o imperador Carlos IV concede à comunidade judaica de Praga uma bandeira própria, mais tarde chamada «bandeira do rei David», com o hexagrama.
- Séc. XIX: torna-se o emblema geral do judaísmo, em parte como equivalente visual da cruz cristã.
- 1897: adotado pelo movimento sionista; em 1948, figura na bandeira de Israel.
O historiador Gershom Scholem mostrou que a ligação ao rei David é tardia: não há prova de que David tenha usado este sinal.
Na magia e no esoterismo
- Magia medieval e grimórios: o hexagrama aparece em selos e amuletos de proteção, cristãos e judaicos.
- Alquimia: os dois triângulos são os símbolos do fogo (△) e da água (▽); unidos, significam a união dos opostos.
- Cabala cristã e ocultismo moderno: lido como encontro do divino e do humano, do alto e do baixo. É uma interpretação, não um sentido original.
- Golden Dawn: usava rituais do hexagrama ligados aos planetas.
- Hexagrama unicursal: variante desenhada num só traço, adotada por Aleister Crowley (início do séc. XX).
➜ Cabala
Em Portugal: o signo-saimão
Em Portugal, o selo de Salomão ficou na linguagem popular com nomes como signo-saimão, sino-saimão ou signo-de-salomão. O dicionário Priberam define o sino-saimão como um talismã de dois triângulos sobrepostos, geralmente de metal, a que o folclore atribui virtude contra o mal.
O etnógrafo José Leite de Vasconcelos dedicou-lhe o estudo Signum Salomonis (1918), comparando os usos portugueses com os de outros povos. Gershom Scholem reconheceu mais tarde o valor deste trabalho.
O hexagrama surge também em sinagogas e lápides judaicas portuguesas, com sentido religioso próprio.
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➜ Alquimia
Fontes
- Jewish Virtual Library, Magen David — jewishvirtuallibrary.org
- Gershom Scholem, «The Curious History of the Six-Pointed Star», Commentary, 1949 — commentary.org
- Dicionário Priberam, «signo-saimão» — priberam.org
- J. Leite de Vasconcelos, Signum Salomonis — OpenEdition
- «Seal of Solomon», Wikipedia — en.wikipedia.org