A Roda da Fortuna é a carta X. No centro está uma grande roda com letras e símbolos. Em cima senta-se uma esfinge; de um lado desce uma serpente, do outro sobe uma figura com cabeça de chacal. Nos cantos, quatro criaturas aladas leem livros entre as nuvens.
Na tradição de leitura, é a carta dos ciclos, da mudança e do que não depende de nós. A imagem é muito mais antiga do que o tarot: vem da roda da Fortuna medieval.

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | X |
| Nome em Marselha / em inglês | La Roue de Fortune / Wheel of Fortune |
| Golden Dawn | Letra hebraica Kaph; planeta Júpiter |
| Palavras-chave (direita) | ciclo, mudança, destino, oportunidade, movimento |
| Palavras-chave (invertida) | resistência à mudança, atrasos, fase difícil, repetição |
O desenho
A roda de 1909 é um dos desenhos mais carregados de símbolos de todo o baralho:
- As letras T, A, R, O nos raios da roda. Lidas em círculo dão TARO, ROTA («roda» em latim) ou TORA (a Lei). Este jogo de letras foi muito explorado pelos ocultistas franceses do séc. XIX.
- As letras hebraicas י ה ו ה (Yod, Heh, Vau, Heh), o Tetragrama, o nome de Deus na Bíblia hebraica, alternadas com as latinas.
- Os símbolos alquímicos no círculo interior, ligados aos elementos e às operações da alquimia.
- A esfinge no topo, com uma espada. Waite chama-lhe «o equilíbrio» da roda.
- A serpente que desce à esquerda, que Waite identifica com Tífon (o deus egípcio Set), e Anúbis, com cabeça de chacal, que sobe à direita.
- As quatro criaturas aladas nos cantos (anjo, águia, leão e touro): «os quatro Seres Viventes de Ezequiel», que a tradição cristã associa aos quatro evangelistas.
Waite admite que seguiu a reconstrução de Éliphas Lévi. Para ele, a roda é símbolo do «movimento perpétuo de um universo fluídico e do fluxo da vida humana». E recusa a ideia de acaso: a carta fala da «negação do acaso e da fatalidade que ele implica».
No Tarot de Marselha, La Roue de Fortune é uma roda de madeira. Três criaturas meio humanas, meio animais, sobem, descem e sentam-se no topo com uma coroa. Não há letras nem símbolos alquímicos.
Na história
A roda da Fortuna era uma imagem comum na Idade Média. Foi popularizada sobretudo pela Consolação da Filosofia de Boécio (c. 520), onde a Fortuna gira a sua roda e ninguém fica em cima para sempre.
Nas iluminuras e nos vitrais, a roda levava muitas vezes quatro figuras com letreiros em latim:
- regnabo («reinarei»), a subir;
- regno («reino»), no topo;
- regnavi («reinei»), a descer;
- sum sine regno («estou sem reino»), em baixo.
A mesma ideia inspirou poemas como o Fortuna Imperatrix Mundi dos Carmina Burana, famoso hoje pela música de Carl Orff.
A carta aparece no tarot italiano desde o séc. XV. No baralho Visconti-Sforza (c. 1450) veem-se pequenas figuras na roda, com os quatro letreiros latinos. A figura que sobe tem orelhas de burro, uma sátira a quem trepa para o poder. Um velho está por baixo da roda.
Nos baralhos de Marselha, as figuras tornaram-se animais. Éliphas Lévi (1856) transformou a cena: pôs uma esfinge em equilíbrio no alto, Hermanúbis a subir e Tífon a descer, e ligou tudo à visão das rodas de Ezequiel. Waite, em 1909, fez da roda um disco com letras e símbolos.
A Golden Dawn atribuiu à carta a letra Kaph e o planeta Júpiter, que a astrologia tradicional chama o «grande benéfico».
O significado na tradição
Direita
«Destino, fortuna, êxito, elevação, sorte, felicidade.» — A. E. Waite, 1910
A leitura moderna acentua o movimento: a Roda indica mudança, uma nova fase, oportunidades que surgem e ciclos que se fecham. Muitos leitores lembram que quem está em cima pode descer, e quem está em baixo pode subir.
Invertida
«Aumento, abundância, superfluidade.» — A. E. Waite, 1910
É curioso: para Waite, a Roda invertida não era negativa. A leitura moderna costuma ir noutro sentido e fala de fase menos favorável, atrasos, resistência a uma mudança inevitável, ou padrões que se repetem.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional, a Roda costuma indicar uma mudança de fase: um reencontro, uma relação que muda de ritmo, um ciclo que termina. Invertida, é lida como repetição de padrões antigos.
Trabalho. É associada a viragens, oportunidades inesperadas e fases de altos e baixos. Não é uma previsão de lucro ou de perda: decisões financeiras pedem informação e, se preciso, aconselhamento profissional.
Conselho. Como conselho, a carta é lida como um lembrete de que nenhuma fase dura para sempre. Vale a pena distinguir o que depende de nós do que não depende, e agir sobre o primeiro.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «A Roda anuncia sorte ao jogo» | É uma leitura simbólica de mudança; nenhuma carta prevê ganhos |
| «TARO/ROTA prova que o tarot vem do Egito» | O jogo de letras é uma ideia dos ocultistas do séc. XIX; o tarot nasceu em Itália no séc. XV |
| «Invertida é sempre má sorte» | Waite lia a invertida como «aumento, abundância» |
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➜ A. E. Waite e Pamela Colman Smith
Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «X. Wheel of Fortune» — sacred-texts.com; significados divinatórios — sacred-texts.com
- Wikipedia, «Wheel of Fortune (tarot card)» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Rota Fortunae» — en.wikipedia.org
- Sherryl E. Smith, «La Ruota della Fortuna, La Roue de Fortune, The Wheel of Fortune», Tarot Heritage — tarot-heritage.com
- «Qlickable Qabalah» (atribuições da Golden Dawn) — nofaithinthehumanrace.com