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🎴 As 78 Cartas do Tarot

O Enforcado

O Enforcado no tarot: significado direita e invertida, o homem pendurado por um pé com auréola e a origem da carta nas «pinturas infamantes».

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. O desenho
  3. Na história
  4. O significado na tradição
  5. Na leitura: amor, trabalho e conselho
  6. O que se diz e o que se sabe
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Um homem pendurado de cabeça para baixo, preso por um pé, com a outra perna dobrada atrás do joelho. É, à primeira vista, uma das imagens mais estranhas do tarot. E, no entanto, o rosto dele está calmo.

Na tradição de leitura, O Enforcado não fala de castigo nem de morte. Fala de pausa, de entrega e de ver as coisas de outro ângulo: o tempo em que nada avança e em que é preciso largar alguma coisa para compreender outra.

O Enforcado no baralho Rider-Waite de 1909: homem pendurado por um pé numa árvore em forma de T, com auréola à volta da cabeça
O Enforcado no baralho Rider-Waite (1909), desenho de Pamela Colman Smith. Domínio público.

Ficha

Campo Informação
Arcano Maior
Número XII
Nome em Marselha / em inglês Le Pendu / The Hanged Man
Golden Dawn Letra hebraica Mem; elemento água
Palavras-chave (direita) pausa, entrega, sacrifício, nova perspetiva, espera
Palavras-chave (invertida) teimosia, sacrifício inútil, bloqueio, egoísmo

O desenho

Waite descreveu a carta com cuidado, e os pormenores são quase todos dele:

  • A forca em forma de T — Waite chama-lhe uma cruz em Tau. É madeira viva, com folhas: não é um cadafalso morto.
  • As pernas cruzadas formam, segundo Waite, uma cruz gamada (fylfot), um símbolo antigo de rotação.
  • As mãos atrás das costas: a figura não luta nem se agarra a nada.
  • A auréola dourada à volta da cabeça: iluminação, compreensão. É o elemento que muda tudo.
  • O rosto sereno. Waite insiste que exprime «um transe profundo, não sofrimento».

No Tarot de Marselha, o homem está pendurado por um pé numa trave entre dois troncos cortados, com as mãos também atrás das costas. Não tem auréola. Em algumas edições (como a de Jean Dodal), o número XII aparece impresso de maneira que parece estar ao contrário.

A água e a letra Mem

A Golden Dawn atribuiu-lhe a letra hebraica Mem e o elemento água. Mem é uma das três «letras-mães» da tradição cabalística, com Aleph (o ar, dado ao Louco) e Shin (o fogo, dado ao Julgamento).

Os autores ocultistas usaram esta ligação para ler a carta como imersão: a figura está suspensa como quem mergulha, de cabeça para baixo, num estado diferente do habitual. É uma leitura simbólica moderna; nada disto estava na imagem italiana original, que era de infâmia.

➜ A água na magia

➜ Cabala

➜ A cruz na magia

Na história

A origem desta imagem é documentada e bastante crua. Nas cidades italianas do séc. XV existia a pittura infamante: pintar em muros públicos a imagem de traidores e outros condenados pendurados por um pé, para os envergonhar publicamente.

Por isso, nos baralhos italianos antigos, a carta chamava-se muitas vezes «Il Traditore» (o Traidor). No baralho Visconti-Sforza o jovem aparece pendurado por um tornozelo, com as mãos atadas. Noutras versões antigas segura sacos de moedas, lidos como o preço da traição.

O nome Le Pendu (o Pendurado) fixou-se nos baralhos franceses. Só no séc. XIX os ocultistas começaram a ler a carta como sacrifício voluntário e iniciação. Algumas interpretações modernas comparam-na ao deus nórdico Odin, que segundo o mito esteve pendurado nove dias na árvore do mundo para obter o conhecimento das runas. É uma comparação moderna: não há ligação histórica entre o mito e a carta italiana.

Há ainda uma exceção curiosa: o Tarocco Siciliano mostra o homem enforcado pelo pescoço, e não pelo pé.

➜ Runas: o oráculo nórdico

➜ História do tarot

O significado na tradição

Direita

«Sabedoria, circunspeção, discernimento, provações, sacrifício, intuição, adivinhação, profecia.» — A. E. Waite, 1910

Na descrição da carta, Waite rejeita as leituras de martírio ou de «dever» e escreve que a figura sugere «vida em suspensão, mas vida e não morte».

A leitura moderna mais comum junta estas ideias: um tempo de espera que não é perdido, a disponibilidade para abdicar de algo, e a mudança de ponto de vista que só aparece quando se para.

Invertida

«Egoísmo, a multidão, o corpo político.» — A. E. Waite, 1910

Os leitores de hoje leem-na invertida como resistência à mudança: sacrifícios que não levam a nada, adiamentos sem fim, ou recusa em largar uma posição que já não serve.

Na leitura: amor, trabalho e conselho

Amor. Na leitura tradicional, costuma indicar uma relação em suspenso, à espera de uma definição. Também é lida como chamada de atenção para quem dá muito mais do que recebe.

Trabalho. Associa-se a projetos parados, a decisões adiadas e à necessidade de rever o plano antes de insistir no mesmo caminho.

Conselho. O sentido mais habitual é: parar, observar e mudar o ângulo. Nem toda a espera é derrota. E nem todo o sacrifício vale a pena: a carta também convida a perguntar por quem e para quê se está a abdicar de alguma coisa.

O que se diz e o que se sabe

Afirmação comum O que se sabe
«O Enforcado anuncia uma desgraça» Na tradição de leitura desde Waite, é uma carta de pausa e de perspetiva, não de castigo
«A carta representa Odin» É uma comparação moderna; a imagem vem das pinturas infamantes italianas
«Sempre se chamou o Enforcado» Nos baralhos italianos antigos era muitas vezes «o Traidor»

Continue a ler

➜ Carta anterior: A Justiça

➜ Carta seguinte: A Morte

➜ As 78 cartas do tarot

➜ Arcanos maiores

➜ Como fazer uma tiragem

Fontes

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