O Carro é a carta VII. Um jovem de armadura, coroado, está de pé num carro de pedra coberto por um dossel de estrelas. À frente, em vez de cavalos, estão duas esfinges, uma preta e uma branca. O condutor não segura rédeas.
Na tradição de leitura, é a carta da vitória pelo esforço e pelo domínio de si: avançar apesar das forças contrárias. É também uma das cartas que melhor mostra como os ocultistas do séc. XIX reinventaram o tarot.

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | VII |
| Nome em Marselha / em inglês | Le Chariot / The Chariot |
| Golden Dawn | Letra hebraica Cheth; signo de Caranguejo (Câncer) |
| Palavras-chave (direita) | vitória, determinação, controlo, avanço, confiança |
| Palavras-chave (invertida) | descontrolo, conflito, derrota, falta de rumo |
O desenho
Os pormenores da carta de Pamela Colman Smith vêm quase todos de Éliphas Lévi, com retoques de Waite:
- As duas esfinges, preta e branca, que «puxam o carro». Representam forças opostas que o condutor tem de manter no mesmo rumo.
- A ausência de rédeas: o condutor não guia com as mãos. Na leitura esotérica, domina pela vontade.
- O dossel de estrelas: as influências celestes.
- As luas crescentes nos ombros. Waite diz que representam o Urim e o Tumim, os objetos do peitoral do sumo sacerdote na Bíblia (Êxodo 28,30).
- A vara na mão, em vez de uma espada, e a coroa de louros com uma estrela: a vitória terrena.
- A cidade ao fundo, que ficou para trás.
Waite resume: o condutor é «acima de tudo o triunfo na mente»; «é a conquista em todos os planos».
No Tarot de Marselha, Le Chariot é um rei coroado num carro com baldaquino, puxado por dois cavalos vistos de frente. Não há esfinges nem estrelas. No escudo do carro aparecem muitas vezes iniciais do impressor ou do gravador.
Na história
O Carro nasce de uma moda do Renascimento italiano: os triunfos. O poema I Trionfi, de Petrarca (séc. XIV), descreve uma sequência de figuras alegóricas em carros de desfile, cada uma a vencer a anterior: o Amor, a Castidade, a Morte, a Fama, o Tempo e a Eternidade. Os primeiros trunfos do tarot seguem esta lógica de «triunfo sobre triunfo».
No baralho Visconti-Sforza (c. 1450), o carro é conduzido por uma mulher com globo e ceptro, puxado por cavalos alados. Os cavalos com asas ligam a carta à alegoria da Fama.
Nos baralhos de Marselha do séc. XVII, a mulher dá lugar a um homem coroado e os cavalos perdem as asas.
A grande mudança veio com Éliphas Lévi (meados do séc. XIX). Pôs no lugar dos cavalos duas esfinges, uma preta e uma branca, e acrescentou símbolos ao carro, como o globo alado. Waite, em 1909, conservou as esfinges e deu-lhes corpo inteiro. A Golden Dawn atribuiu à carta a letra Cheth e o signo de Caranguejo, regido pela Lua.
➜ Dogma e Ritual da Alta Magia
O significado na tradição
Direita
«Socorro, providência; também guerra, triunfo, presunção, vingança, dificuldades.» — A. E. Waite, 1910
A leitura moderna ficou com o triunfo: o Carro é determinação, força de vontade e avanço. É lido como a capacidade de pôr em marcha forças opostas (razão e emoção, desejo e dever) na mesma direção.
Invertida
«Motim, disputa, discussão, litígio, derrota.» — A. E. Waite, 1910
Na leitura moderna, invertido costuma indicar perda de controlo: forças que puxam para lados diferentes, pressa, agressividade ou falta de direção.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional, o Carro costuma indicar uma relação que avança, ou alguém decidido. Também pode ser lido como desafio de conciliar duas vontades diferentes. Invertido, é associado a disputas e a tentar controlar o outro.
Trabalho. É associado a metas, competição, progresso e viagens de trabalho. Invertido, sugere projetos sem rumo ou conflitos. A palavra «litígio» da lista de Waite não é um aviso legal: questões legais tratam-se com um advogado.
Conselho. Como conselho, a carta é lida como um convite a manter o rumo e a disciplina, reconhecendo as forças contrárias em vez de as ignorar.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «As esfinges vêm do antigo Egito do tarot» | Foram introduzidas por Éliphas Lévi no séc. XIX; antes eram cavalos |
| «O Carro garante vitória» | Na tradição, fala de vitória pelo esforço; nenhuma carta garante um resultado |
| «O condutor sempre foi um homem» | No Visconti-Sforza é uma mulher, num carro de cavalos alados |
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➜ Carta anterior: Os Enamorados
Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «VII. The Chariot» — sacred-texts.com; significados divinatórios — sacred-texts.com
- Wikipedia, «The Chariot (tarot card)» — en.wikipedia.org
- Sherryl E. Smith, «Il Carro, Le Chariot, The Chariot», Tarot Heritage — tarot-heritage.com
- Wikipedia, «Tarot of Marseilles» — en.wikipedia.org
- «Qlickable Qabalah» (atribuições da Golden Dawn) — nofaithinthehumanrace.com