O Hierofante, a quem o Tarot de Marselha chamava simplesmente o Papa, é a carta V. Uma figura de tiara tripla, sentada entre duas colunas, levanta a mão direita num gesto de bênção. Aos seus pés estão duas chaves cruzadas e dois clérigos ajoelhados.
Na tradição de leitura, é a carta da tradição, do ensino e das instituições: a fé partilhada, as regras de um grupo, o mestre que transmite um saber. É o reverso público da Sacerdotisa, que guarda um saber escondido.

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | V |
| Nome em Marselha / em inglês | Le Pape / The Hierophant |
| Outros nomes | O Papa, o Sumo Sacerdote |
| Golden Dawn | Letra hebraica Vau; signo de Touro |
| Palavras-chave (direita) | tradição, ensino, instituição, fé, conformidade |
| Palavras-chave (invertida) | rebeldia, dogmatismo, caminho próprio, rutura com regras |
O desenho
Waite descreve-o assim: «Usa a coroa tripla e está sentado entre dois pilares.» E continua:
- A tiara tripla e o báculo com três travessas: os sinais do poder papal.
- A mão erguida, com dois dedos para cima e dois dobrados: o gesto de bênção da tradição cristã.
- As chaves cruzadas aos pés: as chaves de São Pedro, que na Bíblia representam o poder de «ligar e desligar» (Mt 16,19). Waite nota apenas: «A seus pés estão as chaves cruzadas.»
- Os dois ministros ajoelhados, «dois ministros sacerdotais em alvas»: os discípulos, a transmissão do saber.
- Os dois pilares cinzentos: não são os pilares negro e branco da Sacerdotisa. O templo aqui é público.
Para Waite, a carta é «o poder dominante da religião exterior». Ou seja, a religião das instituições, em contraste com o saber oculto da carta II.
No Tarot de Marselha, Le Pape é um papa barbudo de tiara, com a cruz tripla, diante de duas figuras de cabeça tonsurada vistas de costas. A composição é quase a mesma; o que muda é o nome.
Na história
O Papa era uma figura óbvia para o público italiano do séc. XV: com o Imperador, era um dos dois grandes poderes da época. Nas cartas Visconti-Sforza aparece com tiara e báculo. Há quem sugira que o modelo possa ter sido Félix V, o antipapa eleito em 1439, mas não há prova.
Nos países protestantes, uma carta com o Papa podia ser mal recebida. Em alguns baralhos do Norte, a figura foi substituída:
- nos baralhos de Besançon, por Júpiter, e a Papisa por Juno;
- em alguns baralhos belgas, por Baco.
O nome «Hierofante» vem do grego e designava o sacerdote principal dos Mistérios de Elêusis, na Grécia antiga. Em 1781, Court de Gébelin, que via no tarot um livro egípcio, chamou ao Papa e à Papisa «Grande Sacerdote» e «Grande Sacerdotisa», para lhes tirar o sentido cristão. A tradição ocultista inglesa, com a Golden Dawn, fixou o nome Hierophant, e Waite manteve-o em 1909.
Paradoxalmente, Waite devolveu à carta os sinais cristãos: as chaves de São Pedro e a tiara estão bem visíveis no seu desenho.
O significado na tradição
Direita
«Casamento, aliança, cativeiro, servidão; segundo outra versão, misericórdia e bondade.» — A. E. Waite, 1910
A ligação ao casamento é antiga na cartomancia: a figura que abençoa pode ser a que celebra uma união formal.
A leitura moderna mais comum vê no Hierofante a tradição e as instituições: a escola, a religião, as regras sociais, um mestre ou mentor. Aponta para o caminho reconhecido, feito em grupo.
Invertida
«Sociedade, bom entendimento, concórdia, bondade excessiva, fraqueza.» — A. E. Waite, 1910
A leitura moderna inverte o sentido: invertido, o Hierofante costuma indicar pôr em causa as regras, procurar um caminho próprio, ou, do lado negativo, dogmatismo e rigidez de quem não aceita outras ideias.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional, é associado a compromisso formal, casamento e valores partilhados. Invertido, é lido como relações fora do convencional ou choque com as expectativas da família.
Trabalho. Costuma indicar instituições, formação, aprendizagem com um mestre e respeito por procedimentos. Invertido, sugere burocracia pesada ou vontade de sair de um sistema demasiado rígido.
Conselho. Como conselho, a carta é lida como um convite a aprender com quem sabe e a valorizar o que a tradição tem de útil, sem abdicar do próprio juízo.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «Hierofante é o nome original da carta» | O nome antigo é o Papa (Le Pape); «Hierofante» vem da tradição ocultista |
| «A carta vem dos mistérios egípcios» | Ideia de Court de Gébelin (1781); o tarot nasceu no Norte de Itália no séc. XV |
| «O Hierofante anuncia casamento» | Waite inclui «casamento» na lista, mas é uma leitura simbólica, não uma previsão |
Continue a ler
➜ Carta seguinte: Os Enamorados
Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «V. The Hierophant» — sacred-texts.com; significados divinatórios — sacred-texts.com
- Wikipedia, «The Hierophant» — en.wikipedia.org
- Sherryl E. Smith, «Il Papa, Le Pape, The Pope, The Hierophant in Tarot», Tarot Heritage — tarot-heritage.com
- Wikipedia, «Tarot of Marseilles» — en.wikipedia.org
- «Qlickable Qabalah» (atribuições da Golden Dawn) — nofaithinthehumanrace.com