Muito antes da palavra «amarração», já havia quem gravasse em chumbo o nome de uma pessoa amada e pedisse aos deuses do mundo subterrâneo que a «atassem» a si. Muitos destes objetos vêm do Egito, na época em que era governado por gregos e, depois, por romanos.
«Tabuletas do Nilo» não é um termo histórico. É o nome que damos, nesta página, a um conjunto de documentos reais: as tabuinhas de ligação e os Papiros Mágicos Gregos. São das fontes mais antigas que temos sobre magia amorosa.
Esta é uma página de história. Não contém instruções.
As tabuinhas de ligação
Os gregos chamavam-lhes katadesmoi («ligações») e os romanos defixiones, de um verbo que significa «fixar» ou «cravar».
Eram, quase sempre, folhas finas de chumbo onde se riscava um texto em letras pequenas. Depois eram enroladas, dobradas ou trespassadas com pregos. Por vezes iam acompanhadas de figuras com mãos e pés atados.
Onde se colocavam:
- em túmulos, sobretudo de pessoas mortas jovens ou de forma violenta;
- em poços e fontes;
- em santuários subterrâneos;
- no caso dos feitiços de amor, por vezes dentro da casa da pessoa visada.
Conhecem-se cerca de 1600 tabuinhas, a maioria em grego. As mais antigas vêm de Selinunte, na Sicília, no século V a.C. Muitas tratam de tribunais, negócios ou corridas de carros. Os feitiços de amor tornaram-se especialmente populares no período helenístico.
Dois tipos de feitiço amoroso
Os estudiosos distinguem dois grupos:
| Tipo | Objetivo |
|---|---|
| Agogē («atração») | Fazer uma pessoa vir ter com quem encomenda o feitiço |
| Diakopos («separação») | Separar um casal |
O historiador Christopher Faraone propôs outra distinção útil: a magia de eros, usada sobretudo por homens para despertar desejo, e a magia de philia, usada sobretudo por mulheres para manter o afeto de um marido.
Os Papiros Mágicos Gregos
Por volta de 1827, o comerciante Jean d'Anastasi adquiriu no Egito, provavelmente em Tebas (atual Luxor), vários papiros mágicos. Dispersou-os por museus e bibliotecas da Europa: Londres, Paris, Leiden, Berlim.
Hoje chamamos-lhes Papiros Mágicos Gregos (Papyri Graecae Magicae, PGM). Datam do século II a.C. ao século V d.C. e estão escritos sobretudo em grego, mas também em demótico e copta antigo.
São livros de receitas: hinos, invocações, amuletos, remédios populares e muitos feitiços de atração amorosa. Misturam deuses egípcios, gregos e nomes hebraicos.
A edição de referência é de Karl Preisendanz (1928 e 1931). A tradução inglesa coordenada por Hans Dieter Betz (1986) tornou-os acessíveis a um público alargado.
A figura trespassada do Louvre (E 27145)
O Museu do Louvre guarda um dos conjuntos mais impressionantes deste tipo de magia. O número de inventário é E 27145 e é datado dos séculos III–IV d.C. Tem três peças:
- uma figura de terracota de uma mulher ajoelhada, com os braços atados atrás das costas, trespassada por agulhas de cobre;
- uma tabuinha de chumbo com um texto mágico em grego;
- um vaso de terracota onde o conjunto foi guardado.
O texto da tabuinha pede que uma mulher, Ptolemais, seja levada até um homem, Sarapammon. Segundo os estudiosos, segue de perto uma receita de atração conservada no grande papiro mágico de Paris (PGM IV). Ou seja: alguém copiou, com os nomes verdadeiros, uma fórmula de um livro de magia.
O museu comprou o conjunto em 1975. Atualmente não está em exposição.
A linguagem destes feitiços
Quem lê estes textos pela primeira vez fica muitas vezes chocado. Os feitiços de atração pedem, por exemplo, que a mulher não consiga comer, beber nem dormir até vir ter com quem a deseja.
Não são poemas de amor. São textos de posse, escritos num mundo em que as mulheres tinham pouca liberdade de escolha. É útil lembrar isto quando hoje se fala da amarração como algo «romântico».
Das tabuinhas à amarração de hoje
A imagem de «atar» alguém, o uso do nome e da figura, a ideia de uma força invisível que obriga: tudo isto tem paralelos evidentes com a amarração moderna.
Mas não há uma linha contínua documentada entre o Egito romano e os anúncios atuais. Quem vende hoje uma «amarração das tabuletas do Nilo» está a usar um nome antigo para uma prática moderna.
Nenhum trabalho espiritual garante resultados, e o Grimório.pt não ensina rituais para prender ninguém.
➜ Amarração amorosa: a crença e a ética
➜ Feitiço de amor: da Antiguidade a São Cipriano
Perguntas frequentes
Estes objetos são autênticos?
Sim. Estão em museus e foram estudados e publicados por especialistas.
Quem os fazia?
Havia especialistas pagos, que tinham livros de receitas como os papiros. Mas também há tabuinhas feitas por pessoas comuns.
Posso ler os textos?
Sim, em tradução, nos livros de Betz e de Gager indicados nas fontes.
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➜ Amarração sem o saber: a crença e o consentimento
Fontes
- Museu do Louvre, objeto mágico: figura, tabuinha e vaso, E 27145 — collections.louvre.fr
- Wikipedia, «Greek Magical Papyri» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Curse tablet» — en.wikipedia.org
- Hans Dieter Betz (ed.), The Greek Magical Papyri in Translation, University of Chicago Press, 1986.
- John G. Gager, Curse Tablets and Binding Spells from the Ancient World, Oxford University Press, 1992; Christopher A. Faraone, Ancient Greek Love Magic, Harvard University Press, 1999.