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Feitiço de amor: uma história com mais de dois mil anos

A história do feitiço de amor: Teócrito, os Papiros Mágicos, Apuleio, Cipriano e Justina e as cartas de tocar da Inquisição. E a questão ética.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Na Antiguidade
  2. A lenda de Cipriano e Justina
  3. Idade Média e Idade Moderna
  4. Em Portugal
  5. Feitiço de amor e amarração: qual a diferença?
  6. A questão ética
  7. Expectativas honestas
  8. Perguntas frequentes
  9. Continue a ler
  10. Fontes

O feitiço de amor é, provavelmente, a forma de magia mais antiga e mais procurada de sempre. Há textos com milhares de anos que pedem o mesmo que muitas pesquisas de hoje: que alguém me ame, que volte, que não me deixe.

Esta página conta essa história, distingue o que é documentado do que é lenda, e discute a pergunta que atravessa todos os séculos: é legítimo tentar mudar o coração de outra pessoa?

Não contém instruções para feitiços dirigidos a alguém.

Na Antiguidade

A feiticeira de Teócrito

No século III a.C., o poeta grego Teócrito, que viveu algum tempo em Alexandria, escreveu um poema famoso, o Idílio 2, conhecido como A Feiticeira (Pharmakeutria). Nele, Simeta, abandonada por Délfis, faz de noite um ritual de amor e conta à Lua a sua história.

É literatura, não um manual. Mas mostra que o feitiço de amor já era uma cena reconhecível para o público da época.

Os Papiros Mágicos Gregos e as tabuinhas

Do Egito romano chegaram-nos dezenas de receitas de atração (agogai) nos chamados Papiros Mágicos Gregos, e muitas tabuinhas de chumbo com feitiços de ligação. A linguagem é dura: pede-se que a pessoa desejada não coma nem durma até vir.

➜ As tabuletas do Nilo: feitiços de amor do Egito romano

Apuleio em tribunal

Por volta do ano 158, o escritor Apuleio foi julgado em Sabratha, no Norte de África, acusado de ter conquistado uma viúva rica, Pudentila, com feitiços. Defendeu-se com um discurso que ainda hoje se lê, a Apologia, e ao que tudo indica foi absolvido.

A lenda de Cipriano e Justina

A lenda cristã de São Cipriano, conhecida por textos gregos do século IV, é, no fundo, a história de um feitiço de amor que falhou. O jovem Aglaides pede ao mago Cipriano que faça Justina amá-lo. Os demónios enviados fogem perante a oração da jovem, e Cipriano converte-se.

É uma lenda, não um facto histórico documentado. Mas a sua lição é clara: a liberdade de Justina foi mais forte do que a magia.

➜ São Cipriano e Justina: a lenda completa

Idade Média e Idade Moderna

Autores medievais como Regino de Prüm e Burcardo de Worms condenaram práticas de magia amorosa, que atribuíam sobretudo a mulheres. Mais tarde, a magia de amor passou a misturar elementos cristãos: velas bentas, orações, objetos escondidos em igrejas.

O Malleus Maleficarum (1487), de Heinrich Kramer, associou a bruxaria ao desejo feminino de forma muito hostil. Os historiadores lembram que refletia as ideias do seu autor, e não um consenso europeu.

➜ Malleus Maleficarum

Em Portugal

Nos processos da Inquisição portuguesa aparecem com frequência as cartas de tocar, papéis com palavras e sinais que se fazia tocar na pessoa desejada, e orações para «prender» ou atrair. Historiadores como Francisco Bethencourt e José Pedro Paiva estudaram estes casos.

No século XIX, o Livro de São Cipriano espalhou em Portugal e no Brasil receitas para «obter amor» e «apressar casamentos».

➜ Feitiçaria portuguesa

➜ O amor no Livro de São Cipriano

Feitiço de amor e amarração: qual a diferença?

São parentes. Na linguagem popular de hoje:

Termo O que pretende
Feitiço de amor Pode ser atrair o amor em geral, ou uma pessoa concreta
Amarração «Prender» uma pessoa concreta a outra

A linha ética passa aqui: pedir amor para si é diferente de tentar decidir pelo outro.

A questão ética

  • Na tradição cristã, as práticas que procuram poder sobre o próximo são condenadas.
  • Na bruxaria moderna, muitos praticantes recusam feitiços dirigidos a uma pessoa concreta, por respeito ao livre-arbítrio.
  • A própria lenda de Cipriano coloca a liberdade acima da magia.

O Grimório.pt não ensina feitiços para prender ou forçar ninguém. Explica a história e mostra práticas que pedem amor sem apontar a uma pessoa.

➜ Amarração e livre-arbítrio

➜ Magia branca para o amor

Expectativas honestas

Nenhum trabalho espiritual garante resultados. Não há prova de que um feitiço mude os sentimentos de alguém. Desconfie de garantias, prazos, pedidos sucessivos de dinheiro e ameaças; peça sempre fatura.

➜ Como escolher um bruxo sério e evitar burlas

Perguntas frequentes

Existe um feitiço de amor «branco»?
A tradição chama assim às práticas que pedem amor, harmonia ou autoestima, sem apontar a alguém.

Os feitiços de amor antigos eram feitos por mulheres?
Por homens e mulheres. As fontes antigas sugerem que os homens procuravam sobretudo desejo e as mulheres a manutenção do afeto.

O Livro de São Cipriano tem feitiços de amor?
Tem receitas atribuídas à tradição popular. São documentos culturais, não métodos comprovados.

Continue a ler

➜ Magia negra para o amor: a crença e os riscos

➜ Ervas de amor

➜ Oração para o amor

Fontes

  • Wikipedia, «Love magic» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Theocritus» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Apologia (Apuleius)» — en.wikipedia.org
  • Christopher A. Faraone, Ancient Greek Love Magic, Harvard University Press, 1999.
  • Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes no século XVI, Lisboa, Universidade Aberta, 1987.

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