A expressão «amarração sem a pessoa saber» aparece em muitos anúncios. Promete ligar alguém a nós em segredo, sem que essa pessoa perceba ou possa recusar.
Esta página é informativa. Explica de onde vem a crença e porque levanta um problema sério. O Grimório.pt não ensina nem recomenda rituais feitos às escondidas sobre outra pessoa.
O que diz a crença
Segundo a tradição popular, uma amarração pode atuar sobre alguém à distância e sem o seu conhecimento. Para isso, os anúncios costumam pedir o nome completo, a data de nascimento, uma fotografia ou um objeto da pessoa.
Não há qualquer prova de que isto mude os sentimentos de alguém. Mas a intenção, por si só, diz muito: trata-se de decidir pelo outro, sem lhe dar voz.
➜ Amarração amorosa: o que é e de onde vem
Uma ideia muito antiga
Tabuinhas enterradas em segredo
No mundo grego e romano, os feitiços de ligação eram gravados em chumbo e escondidos: enterrados em túmulos, lançados a poços, por vezes deixados na casa da pessoa visada. O segredo fazia parte do ritual.
➜ As tabuletas do Nilo: feitiços de amor do Egito romano
Apuleio, acusado de enfeitiçar uma viúva
Por volta do ano 158, em Sabratha (atual Líbia), o escritor Apuleio foi levado a tribunal. A família de Pudentila, uma viúva rica com quem casara, acusava-o de a ter conquistado com encantamentos e feitiços. Apuleio defendeu-se e, ao que tudo indica, foi absolvido. O seu discurso, a Apologia, chegou até nós.
O caso mostra que a ideia de «enfeitiçar alguém sem o saber» já era, há quase dois mil anos, uma acusação grave.
As cartas de tocar em Portugal
Nos processos da Inquisição portuguesa aparecem as cartas de tocar: papéis com palavras e sinais que se fazia tocar, às escondidas, na pessoa desejada. A Inquisição perseguia-as, entre outras razões, por as ver como tentativa de forçar a vontade de alguém.
Porque é que o segredo é o problema
Numa relação saudável, a outra pessoa pode dizer sim ou não. O consentimento só vale se for livre, informado e possível de retirar.
A «amarração sem o saber» junta três coisas que contrariam esta ideia:
- Esconde: a pessoa não sabe o que se está a fazer sobre ela.
- Decide por ela: o objetivo é mudar a sua vontade.
- Usa o que é dela: fotografias, cabelo ou roupa, sem autorização.
A pergunta mais simples é também a mais útil: aceitaria que alguém fizesse isto consigo?
➜ A bruxaria volta contra quem a faz?
Expectativas honestas
Nenhum trabalho espiritual garante resultados. Não há prazos nem efeitos «definitivos». E se a pessoa se aproximar, será impossível saber porquê.
Antes de contratar qualquer praticante
Desconfie de quem aceita, sem hesitar, trabalhar sobre alguém às escondidas. Desconfie também de garantias, prazos, pedidos sucessivos de dinheiro e ameaças. Peça sempre preço fechado e fatura, e lembre-se de que tem direito ao Livro de Reclamações.
➜ Como escolher um bruxo sério e evitar burlas
Alternativas que respeitam os dois
- Dizer o que sente, diretamente, e aceitar a resposta.
- Cuidar do desgosto: amigos, família, um psicólogo (SNS 24: 808 24 24 24).
- Rezar ou meditar pela sua serenidade e pelo bem da outra pessoa, sem lhe pedir nada contra a vontade.
E se acha que alguém lhe fez uma amarração?
É um medo comum. Na maior parte dos casos, o que se sente tem explicações humanas: saudade, ansiedade, uma relação que faz mal. Veja a página própria.
➜ Desfazer uma amarração: quando se sente preso
Perguntas frequentes
É crime fazer uma amarração a alguém?
O ritual, em si, não é crime. Mas vigiar, perseguir, ameaçar ou usar imagens de alguém sem autorização pode ser.
Se a pessoa nunca souber, que mal faz?
O problema está na intenção de decidir por outra pessoa, saiba ela ou não.
Existe versão «suave» sem o saber?
Qualquer ritual dirigido a alguém concreto, sem o seu conhecimento, tem o mesmo problema.
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➜ Feitiço de amor: a história e a ética
➜ São Cipriano e Justina: o feitiço de amor que falhou
➜ Amarração com foto: o que diz a crença
Fontes
- Wikipedia, «Apologia (Apuleius)» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Curse tablet» — en.wikipedia.org
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes no século XVI, Lisboa, Universidade Aberta, 1987.
- John G. Gager, Curse Tablets and Binding Spells from the Ancient World, Oxford University Press, 1992.