Para os antigos egípcios, a magia não era uma prática escondida nem oposta à religião. Era uma força criada pelos deuses e usada por sacerdotes, médicos e pessoas comuns para proteger a vida, curar e garantir a passagem para o além.
O Egito deixou-nos milhares de textos e objetos mágicos. Graças a eles, sabemos bastante sobre o que os egípcios faziam e acreditavam.
Nesta página separamos o que é documentado pela egiptologia dos mitos modernos, como a maldição de Tutankhamon.
Heka: a força mágica
A palavra egípcia para magia é heka. Era ao mesmo tempo um conceito e um deus: Heka, uma força presente desde a criação do mundo.
Segundo os textos, o deus criador deu a heka aos seres humanos como uma arma para afastar os golpes do destino. A magia era, portanto, um dom divino e legítimo.
Os egípcios acreditavam no poder da palavra: dizer um nome ou escrevê-lo tinha efeito real. Por isso os nomes eram tão importantes, e apagar o nome de alguém era uma forma de o destruir.
Quem praticava a magia
- O sacerdote-leitor (kheri-heb), que lia os textos rituais nos templos e nos funerais.
- Os médicos, que juntavam remédios e fórmulas mágicas no mesmo tratamento.
- Os especialistas em venenos, que tratavam picadas de escorpião e mordeduras de serpente com orações e remédios.
- As pessoas comuns, que usavam amuletos e pequenas fórmulas no dia a dia.
Os grandes textos
| Texto | Época e função |
|---|---|
| Textos das Pirâmides | c. 2350 a.C.; gravados na pirâmide do rei Unas, em Sacará |
| Textos dos Sarcófagos | Império Médio; pintados nos caixões |
| Livro dos Mortos | A partir do Império Novo; papiros para guiar o morto |
O nome egípcio do Livro dos Mortos é «Livro para Sair Durante o Dia». Não é um livro único, mas uma coleção de cerca de 200 fórmulas, escolhidas para cada pessoa.
A cena mais famosa é a pesagem do coração: o coração do morto é pesado numa balança contra a pena de Maat, a deusa da verdade e da ordem.
A magia na medicina
Os papiros médicos, como o Papiro Ebers (c. 1550 a.C.), juntam receitas de plantas e minerais com fórmulas mágicas. Para os egípcios, a doença podia ter causas naturais e sobrenaturais ao mesmo tempo.
Algumas receitas mostram bons conhecimentos práticos. Outras não têm qualquer valor médico. Nenhuma deve ser usada hoje como tratamento.
Os amuletos
Os amuletos egípcios são dos mais conhecidos do mundo:
| Amuleto | Sentido na tradição egípcia |
|---|---|
| Ankh | A vida |
| Olho de Hórus (udjat) | Proteção, saúde, integridade |
| Escaravelho | Renovação e renascimento, ligado ao Sol |
| Pilar djed | Estabilidade, ligado a Osíris |
Os amuletos eram usados pelos vivos e colocados entre as ligaduras das múmias.
Magia contra os inimigos
Os textos de execração eram nomes de inimigos, estrangeiros ou egípcios, escritos em vasos ou figurinhas de barro, que depois se partiam ou enterravam. Queriam neutralizar ameaças contra o rei e o país.
Hoje, estes objetos são uma fonte preciosa para os historiadores, porque registam nomes de povos e lugares.
A estela de Metternich
Um dos objetos mágicos mais famosos é a Estela de Metternich, do tempo do faraó Nectanebo II (século IV a.C.), hoje no Metropolitan Museum de Nova Iorque. Mostra o jovem Hórus a dominar crocodilos, serpentes e escorpiões.
Segundo os textos, derramava-se água sobre a estela e bebia-se para obter proteção contra venenos.
Os papiros mágicos gregos
No Egito romano, entre o século II a.C. e o século V d.C., foram escritos os chamados Papiros Mágicos Gregos. Misturam deuses egípcios, gregos e judaicos, e influenciaram a magia europeia posterior.
Mitos modernos
- A «maldição de Tutankhamon». A morte de Lord Carnarvon em 1923, depois da abertura do túmulo, deu origem à lenda. Os estudos mostraram que os membros da expedição não morreram mais cedo do que o normal.
- A origem egípcia do tarot. Foi uma teoria do francês Antoine Court de Gébelin, em 1781. Não tem base: o tarot nasceu em Itália no século XV.
- Hermes Trismegisto. Os textos herméticos foram escritos no Egito romano, em grego, e não no tempo dos faraós.
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Fontes
- Geraldine Pinch, Magic in Ancient Egypt, British Museum Press, 1994 (ed. revista 2006).
- Robert K. Ritner, The Mechanics of Ancient Egyptian Magical Practice, Oriental Institute of the University of Chicago, 1993.
- The Metropolitan Museum of Art, «Magical Stela with Horus the Child» (Estela de Metternich) — metmuseum.org
- Hans Dieter Betz (ed.), The Greek Magical Papyri in Translation, University of Chicago Press, 1986.