Na noite de 23 para 24 de junho, véspera de São João, Portugal enche-se de fogueiras, manjericos e arraiais. Era também a noite das sortes: pequenas adivinhações, sobretudo de raparigas solteiras, para saber se casavam e com quem.
Estas «simpatias» de São João são das mais bem documentadas da tradição portuguesa. Os etnógrafos recolheram-nas em todo o país. Nesta página explicamos as principais, de onde vêm e como se fazem hoje, como costume de festa.
Porquê esta noite
São João Batista é o único santo cuja festa principal celebra o nascimento (24 de junho). A data fica muito perto do solstício de verão, o dia mais longo do ano no hemisfério norte.
Por isso é comum ligar as práticas desta noite (fogueiras, ervas, água e orvalho) a festas do solstício anteriores ao cristianismo. É uma interpretação plausível, mas as origens exatas de cada costume não estão documentadas. Os etnógrafos portugueses, como Ernesto Veiga de Oliveira, recolheram estas práticas tal como eram vividas nas aldeias e cidades no século XX.
A alcachofra queimada
É a sorte mais conhecida.
- Na véspera de São João, à meia-noite, chamusca-se a flor de uma alcachofra (ou de um cardo) na fogueira.
- Pensa-se na pessoa amada.
- Deixa-se a alcachofra ao relento, muitas vezes num vaso com terra.
- De manhã, olha-se para ela: se voltou a florir ou a ganhar cor, diz a tradição que o amor é correspondido ou que o casamento está próximo.
A Infopédia e recolhas etnográficas, como a de Torres Vedras, registam esta sorte.
A clara de ovo no copo de água
- Ao fim do dia 23, parte-se um ovo e deita-se só a clara num copo de água.
- Deixa-se o copo ao relento toda a noite (há quem junte um raminho de alecrim).
- De manhã, lê-se a forma que a clara tomou.
Numa recolha de Torres Vedras, publicada na Revista Lusitana em 1934, as formas tinham significados: um barco, noivo marinheiro; um arado, lavrador; uma igreja, casamento próximo; uma cruz, ficar solteira. A leitura é sempre livre: onde uns veem um castelo, outros veem uma igreja.
O orvalho da madrugada
Na tradição, a água das orvalhadas da manhã de São João tem virtudes especiais de purificação e proteção. Era costume:
- lavar a cara com orvalho ao nascer do sol;
- rebolar ou andar descalço na erva molhada;
- deixar ervas de cheiro ao relento durante a noite e usá-las de manhã para lavar o rosto.
Hoje pode fazer-se de forma simples: deixe um ramo de ervas (alecrim, rosmaninho, cidreira) numa taça com água, à janela, e lave as mãos e a cara com ela de manhã. Não beba essa água.
Outras sortes registadas
- Os três papelinhos: escrevem-se três nomes; um vai para debaixo da almofada, outro para trás da porta, outro para a rua. O da almofada seria o futuro noivo.
- O primeiro nome ouvido: depois da meia-noite, o primeiro nome de homem que se ouvisse seria o do futuro marido.
- Saltar a fogueira: ligado à saúde, à sorte e à fertilidade.
- Ervas e manjerico: alho-porro, cidreira, cardo e manjerico eram plantas «da noite».
Segurança
- Fogueiras: só onde forem autorizadas e com o risco de incêndio baixo. Nunca em dias de alerta nem em zonas de mato.
- Saltar a fogueira causa todos os anos queimaduras. Não deixe crianças saltar e não o faça depois de beber álcool.
- Balões de São João (com chama) podem provocar incêndios e estão proibidos em muitos concelhos.
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Limites
As sortes eram, e são, brincadeira de festa e tradição, não previsões. O seu valor está na memória coletiva e no convívio. Ninguém deve tomar decisões sobre a vida amorosa pela forma de uma clara de ovo.
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Fontes
- Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, cap. «O S. João em Portugal», Etnográfica Press — OpenEdition
- «Festas de Santo António e São João», Infopédia — infopedia.pt
- «Tradições antigas em Torres Vedras para ter "sortes" amorosas no S. João» (a partir da Revista Lusitana, 1934), Torres Vedras Antiga — wordpress.com
- «Tradições de São João – As Sortes de São João», Funchal Notícias — funchalnoticias.net