«Amor à distância funciona?» é uma pergunta que muita gente faz ao Google. Umas vezes, quem pergunta vive uma relação separada por quilómetros: emigração, trabalho, estudos. Outras vezes, quer saber se um «trabalho à distância» consegue mudar os sentimentos de alguém.
Este artigo responde às duas perguntas com honestidade. Primeiro, a relação real. Depois, a crença, a sua história e os seus limites.
A relação à distância: o que realmente ajuda
Portugal conhece bem a saudade. Gerações de famílias viveram separadas pela emigração para França, Suíça, Alemanha ou Brasil. Muitas relações sobreviveram; outras não.
Uma relação à distância pode funcionar, mas depende das duas pessoas, não de um ritual. O que costuma ajudar:
- Um horizonte comum: saber quando e como a distância vai acabar.
- Comunicação regular e sincera, sem vigilância nem ciúme constante.
- Visitas planeadas, mesmo que espaçadas.
- Confiança: sem ela, nenhuma distância se aguenta.
- Falar das dificuldades antes de se tornarem ressentimento.
Se a relação está em crise, uma conversa franca, ou um terapeuta de casal, ajuda mais do que qualquer promessa vinda de fora.
A crença nos «trabalhos à distância»
Na tradição mágica, a ideia de agir sobre alguém que está longe é muito antiga. Assenta em dois princípios que os estudiosos chamam magia simpática:
- Semelhança: uma figura, um boneco ou um nome escrito «representa» a pessoa.
- Contacto: um objeto que lhe pertenceu (cabelo, roupa, fotografia) manteria uma ligação com ela.
Estes princípios explicam porque tantos feitiços de amor pedem o nome completo, uma fotografia ou uma peça de roupa. São crenças, não mecanismos demonstrados.
Uma prática com milhares de anos
As tabuinhas de ligação da Antiguidade
Na Grécia e em Roma escreviam-se tabuinhas de chumbo com pedidos aos poderes do mundo subterrâneo. Os gregos chamavam-lhes katadesmoi («ligações»); os romanos, defixiones. Muitas queriam «prender» um adversário; algumas queriam prender o desejo de alguém.
O exemplo mais célebre está no Museu do Louvre: uma pequena figura de barro, do Egito romano (séculos III–IV d.C.), atada e trespassada por alfinetes. Foi achada num vaso com uma tabuinha de chumbo. Nela, um homem chamado Sarapammon pede que uma mulher, Ptolemais, não aceite nenhum outro homem senão ele.
Da Idade Média ao Livro de São Cipriano
Os feitiços de amor atravessaram a Idade Média e chegaram aos processos da Inquisição portuguesa, onde as práticas para «prender» ou atrair alguém aparecem com frequência. No século XIX, o Livro de São Cipriano popularizou receitas desse tipo em Portugal e no Brasil.
➜ Os feitiços de amor no Livro de São Cipriano
O que diz a ética: o livre-arbítrio
Quase todas as tradições espirituais sérias levantam a mesma objeção: tentar dobrar a vontade de outra pessoa é problemático. O cristianismo fala do livre-arbítrio. Muitas correntes da bruxaria moderna seguem a máxima de «não fazer mal a ninguém».
Mesmo quem acredita nestas práticas reconhece a pergunta difícil: um amor obtido pela força seria ainda amor?
Porque nenhum trabalho garante resultados
Não existe prova de que um ritual à distância mude os sentimentos de alguém. Quando uma pessoa regressa depois de um «trabalho», é impossível separar o ritual do que teria acontecido de qualquer maneira: saudade, tempo, circunstâncias.
Desconfie de quem promete:
- regresso em X dias;
- resultado garantido ou «definitivo»;
- novos pagamentos porque «o trabalho foi bloqueado».
São sinais clássicos de burla.
➜ Como escolher um bruxo sério e evitar burlas
Se sente muita falta de alguém
A dor de uma separação é real. Se a tristeza se prolonga, se não dorme ou se sente sem saída, fale com alguém. A linha SNS 24 (808 24 24 24) tem aconselhamento psicológico gratuito, 24 horas por dia.
Continue a ler
➜ Como funciona uma amarração: a crença explicada
Fontes
- Museu do Louvre, figura de enfeitiçamento e tabuinha de chumbo (E 27145) — collections.louvre.fr
- John G. Gager, Curse Tablets and Binding Spells from the Ancient World, Oxford University Press, 1992.
- Brent Nongbri, «A Cursed Figurine» — brentnongbri.com
- Biblioteca Nacional de Portugal, O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro — purl.pt/16504
- SNS 24, Aconselhamento psicológico — sns24.gov.pt