Em Portugal, o olho gordo (ou mau-olhado, ou quebranto) é a crença de que a inveja ou a admiração de alguém pode fazer mal — a uma criança, a um animal, a uma plantação, a uma pessoa que está a ter sorte.
Contra ele existe uma das tradições orais mais ricas do país: as rezas das benzedeiras. Nesta página reunimos as mais conhecidas, com a sua origem, e explicamos como eram feitas.
A reza mais conhecida
Existem dezenas de variantes, de aldeia para aldeia. A fórmula mais espalhada, em Portugal e no Brasil, é esta (texto popular, sem autor conhecido):
Deus te fez, Deus te criou,
Deus te livre de quem para ti mal olhou.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Ámen.
Diz-se três vezes, fazendo o sinal da cruz sobre a pessoa. Termina-se, na tradição, com um Pai-Nosso e uma Avé-Maria oferecidos a Nossa Senhora ou ao santo da devoção.
Uma reza recolhida em Portugal
O arquivo de património oral Memória Media recolheu em 2022, em Cavaleiro Alvo, São Paio (concelho de Melgaço), esta reza, dita enquanto se queimam ervas (texto popular):
Eu te defumo e te torno a defumar.
A inveja e a má olhada,
a estas ervas venha andar.
Pela graça de Deus e da Virgem Maria,
um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.
A informante usava nove ervas diferentes com sal. É um bom exemplo da mistura típica das rezas portuguesas: fórmula cristã, elementos da natureza e número simbólico.
O azeite na água: como se fazia
O gesto mais conhecido das benzedeiras portuguesas é o «talhar» ou «tirar» o olhado com azeite:
- Enche-se um prato fundo com água.
- Deixam-se cair umas gotas de azeite, enquanto se reza.
- Observa-se o azeite: segundo a crença, se se espalha ou desaparece, «há olhado»; se fica em gotas redondas, não há.
- Repete-se a reza até o azeite «ficar bem».
- No fim, deita-se a água fora, muitas vezes num sítio onde ninguém pise.
É uma prática de adivinhação e de cura popular, não uma prova. O comportamento do azeite na água depende da quantidade, da temperatura e da forma como se deixa cair.
De onde vem a crença
A crença no mau-olhado é muito antiga e muito espalhada: existe na Grécia e em Roma antigas, no Mediterrâneo, no Médio Oriente e na Índia. O olho turco, a figa e a arruda são amuletos contra ele.
Em Portugal, as benzedeiras foram por vezes perseguidas pela Inquisição, que via nas suas rezas superstição. Mesmo assim, a tradição sobreviveu até hoje, sobretudo no interior e no Norte.
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Na tradição de São Cipriano
O Livro de São Cipriano também tem orações contra os malefícios e a inveja, de forma católica.
➜ Olho gordo e mau-olhado na tradição de São Cipriano
Como se reza na tradição
- Por uma benzedeira ou por alguém da família que «sabe rezar».
- Três vezes, ou em número ímpar.
- As regras variam muito de terra para terra: dias, horas, número de repetições.
- A reza é passada de uma pessoa mais velha para outra, muitas vezes dentro da família.
Notas importantes
- Se uma criança ou um adulto está doente, com febre, sem comer ou muito abatido, vá ao médico. Na tradição popular chamava-se «olhado» a sintomas que muitas vezes eram doenças reais.
- Cansaço, dores de cabeça ou «azar» contínuo não são diagnóstico de mau-olhado. Podem ter muitas causas, incluindo stress ou depressão.
- Se usar ervas a arder, faça-o com janela aberta, num recipiente resistente ao calor, nunca sem vigilância e longe de crianças, animais e pessoas com asma.
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Fontes
- Memória Media — Inventário do Património Cultural Imaterial, reza contra o mau-olhado (Melgaço, 2022) — memoriamedia.net
- Wikipedia, Evil eye (história da crença) — en.wikipedia.org/wiki/Evil_eye