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Mau-olhado: a crença, a história e as benzeduras

O mau-olhado da Antiguidade a Portugal: o que é a crença, o quebranto, as rezas das benzedeiras, a figa e outros amuletos, e o que a medicina diz sobre os «sintomas».

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Uma crença com milhares de anos
  2. O mau-olhado em Portugal
  3. As benzeduras: como se «talha» o quebranto
  4. Os amuletos
  5. E a medicina?
  6. Continue a ler
  7. Fontes

O mau-olhado é a crença de que um olhar invejoso, ou um elogio exagerado, pode fazer mal a uma pessoa, a um animal ou a uma colheita. Em Portugal chama-se também quebranto, olhado ou olho gordo.

Poucas crenças são tão antigas e tão espalhadas. Nesta página contamos a sua história, explicamos como as benzedeiras portuguesas o «talhavam» e falamos dos amuletos que o acompanham.

Se procura um guia prático para fazer em casa, veja a página sobre o olho gordo.

➜ Desfazer o olho gordo em casa: passo a passo

Uma crença com milhares de anos

A ideia de que o olhar pode fazer mal já existia na Antiguidade:

  • Na Grécia, Plutarco dedicou uma das suas Conversas à mesa a discutir porque é que certas pessoas teriam o poder de «enfeitiçar» com os olhos.
  • Em Roma, fascinatio era o nome deste malefício. Contra ele usava-se o fascinum, um amuleto que as crianças traziam ao pescoço.
  • Nas culturas do Mediterrâneo e do Médio Oriente, o olho azul de vidro, hoje conhecido como «olho turco», protege contra o mesmo mal.

A crença chegou à Península Ibérica por vários caminhos e fixou-se profundamente na cultura popular portuguesa.

➜ O olho turco

O mau-olhado em Portugal

Na tradição portuguesa, o mau-olhado explicava muitos males do dia a dia: a criança que chorava sem parar ou não queria mamar, o cansaço sem razão, a dor de cabeça, a vaca que deixava de dar leite, a planta que secava.

Acreditava-se que quem põe o olhado nem sempre o faz de propósito. Por isso ainda há quem diga «Deus o abençoe» ou «Deus o guarde» depois de elogiar uma criança.

As crianças eram as mais protegidas. Punham-se-lhes figas e outros pequenos amuletos ao pescoço, na roupa ou no berço.

As benzeduras: como se «talha» o quebranto

Quem tirava o mau-olhado era a benzedeira ou o benzedor, em geral uma pessoa da terra que tinha aprendido as rezas com alguém mais velho.

A prova do azeite

É a benzedura mais conhecida em Portugal. Deitam-se gotas de azeite num prato com água, enquanto se reza. Se o azeite se espalha, diz-se que há olhado; se fica em gotas redondas, não há. Reza-se até o azeite «ficar bem».

As rezas

As rezas são quase sempre em verso, com cruzes feitas sobre a pessoa. Uma fórmula registada em Guimarães em 1928 começa assim:

Dous to deram,
três to tiraram,
que são o Padre, o Filho…

A ideia é clara: dois olhos puseram o mal, e as três pessoas da Santíssima Trindade tiram-no. Muitas rezas mandam o mal «para as ondas do mar» ou para onde não faça dano a ninguém.

O segredo

As benzedeiras acreditavam que as rezas perdiam força se fossem ensinadas a qualquer pessoa. Muitas só as passavam a alguém de confiança, em ocasiões escolhidas.

➜ Olho gordo e mau-olhado na tradição de São Cipriano

Os amuletos

Amuleto Na tradição
Figa Mão fechada com o polegar entre os dedos. O amuleto português clássico contra o olhado.
Signo-saimão Estrela de cinco ou seis pontas, também chamada «sino-saimão», posta em portas e objetos.
Arruda Um raminho atrás da orelha, no bolso ou à porta.
Olho turco Mais recente em Portugal, mas hoje muito comum.

O etnólogo José Leite de Vasconcelos estudou a figa e o signo-saimão em trabalhos que ainda hoje são referência.

E a medicina?

O mau-olhado é uma crença cultural. Os «sintomas» que lhe são atribuídos, como cansaço, dores de cabeça, choro de bebé ou falta de apetite, têm muitas vezes causas de saúde.

A benzedura pode trazer conforto e ligação às raízes. Mas não substitui o médico, sobretudo no caso de crianças.

Continue a ler

➜ Quebranto: o que é na tradição portuguesa

➜ Amuletos portugueses

➜ Desfazer o olho gordo em casa: passo a passo

➜ Olho gordo: o que é verdade?

➜ Oração para desfazer olho gordo

➜ Desfazer enguiço

Fontes

  • José Leite de Vasconcelos, A Figa: estudo de etnografia comparativa, Porto, 1925 — HathiTrust
  • José Leite de Vasconcelos, Signum Salomonis. A Figa. A Barba em Portugal, Etnográfica Press — OpenEdition
  • Luís de Pina, «Bruxas e medicina (folclore de Guimarães)», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1928 — PDF
  • «Evil eye», Wikipedia — en.wikipedia.org

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