O mau-olhado é a crença de que um olhar invejoso, ou um elogio exagerado, pode fazer mal a uma pessoa, a um animal ou a uma colheita. Em Portugal chama-se também quebranto, olhado ou olho gordo.
Poucas crenças são tão antigas e tão espalhadas. Nesta página contamos a sua história, explicamos como as benzedeiras portuguesas o «talhavam» e falamos dos amuletos que o acompanham.
Se procura um guia prático para fazer em casa, veja a página sobre o olho gordo.
➜ Desfazer o olho gordo em casa: passo a passo
Uma crença com milhares de anos
A ideia de que o olhar pode fazer mal já existia na Antiguidade:
- Na Grécia, Plutarco dedicou uma das suas Conversas à mesa a discutir porque é que certas pessoas teriam o poder de «enfeitiçar» com os olhos.
- Em Roma, fascinatio era o nome deste malefício. Contra ele usava-se o fascinum, um amuleto que as crianças traziam ao pescoço.
- Nas culturas do Mediterrâneo e do Médio Oriente, o olho azul de vidro, hoje conhecido como «olho turco», protege contra o mesmo mal.
A crença chegou à Península Ibérica por vários caminhos e fixou-se profundamente na cultura popular portuguesa.
O mau-olhado em Portugal
Na tradição portuguesa, o mau-olhado explicava muitos males do dia a dia: a criança que chorava sem parar ou não queria mamar, o cansaço sem razão, a dor de cabeça, a vaca que deixava de dar leite, a planta que secava.
Acreditava-se que quem põe o olhado nem sempre o faz de propósito. Por isso ainda há quem diga «Deus o abençoe» ou «Deus o guarde» depois de elogiar uma criança.
As crianças eram as mais protegidas. Punham-se-lhes figas e outros pequenos amuletos ao pescoço, na roupa ou no berço.
As benzeduras: como se «talha» o quebranto
Quem tirava o mau-olhado era a benzedeira ou o benzedor, em geral uma pessoa da terra que tinha aprendido as rezas com alguém mais velho.
A prova do azeite
É a benzedura mais conhecida em Portugal. Deitam-se gotas de azeite num prato com água, enquanto se reza. Se o azeite se espalha, diz-se que há olhado; se fica em gotas redondas, não há. Reza-se até o azeite «ficar bem».
As rezas
As rezas são quase sempre em verso, com cruzes feitas sobre a pessoa. Uma fórmula registada em Guimarães em 1928 começa assim:
Dous to deram,
três to tiraram,
que são o Padre, o Filho…
A ideia é clara: dois olhos puseram o mal, e as três pessoas da Santíssima Trindade tiram-no. Muitas rezas mandam o mal «para as ondas do mar» ou para onde não faça dano a ninguém.
O segredo
As benzedeiras acreditavam que as rezas perdiam força se fossem ensinadas a qualquer pessoa. Muitas só as passavam a alguém de confiança, em ocasiões escolhidas.
➜ Olho gordo e mau-olhado na tradição de São Cipriano
Os amuletos
| Amuleto | Na tradição |
|---|---|
| Figa | Mão fechada com o polegar entre os dedos. O amuleto português clássico contra o olhado. |
| Signo-saimão | Estrela de cinco ou seis pontas, também chamada «sino-saimão», posta em portas e objetos. |
| Arruda | Um raminho atrás da orelha, no bolso ou à porta. |
| Olho turco | Mais recente em Portugal, mas hoje muito comum. |
O etnólogo José Leite de Vasconcelos estudou a figa e o signo-saimão em trabalhos que ainda hoje são referência.
E a medicina?
O mau-olhado é uma crença cultural. Os «sintomas» que lhe são atribuídos, como cansaço, dores de cabeça, choro de bebé ou falta de apetite, têm muitas vezes causas de saúde.
A benzedura pode trazer conforto e ligação às raízes. Mas não substitui o médico, sobretudo no caso de crianças.
Continue a ler
➜ Quebranto: o que é na tradição portuguesa
➜ Desfazer o olho gordo em casa: passo a passo
➜ Olho gordo: o que é verdade?
➜ Oração para desfazer olho gordo
Fontes
- José Leite de Vasconcelos, A Figa: estudo de etnografia comparativa, Porto, 1925 — HathiTrust
- José Leite de Vasconcelos, Signum Salomonis. A Figa. A Barba em Portugal, Etnográfica Press — OpenEdition
- Luís de Pina, «Bruxas e medicina (folclore de Guimarães)», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1928 — PDF
- «Evil eye», Wikipedia — en.wikipedia.org