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Natal e espiritualidade: tradições e crenças populares portuguesas

As tradições e crenças populares do Natal português: a mesa posta para as almas, o madeiro, a Missa do Galo, as Janeiras e os Reis — o que está documentado.

6 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Porque é a 25 de dezembro
  3. A Consoada e a mesa das almas
  4. A Missa do Galo
  5. O madeiro
  6. O presépio
  7. Das Janeiras aos Reis
  8. Afirmação comum | O que se sabe
  9. Viver a quadra com sentido
  10. Segurança no Natal
  11. Continue a ler
  12. Fontes

O Natal é a festa mais vivida em Portugal. Mesmo quem não vai à missa guarda a Consoada em família e monta o presépio.

Por trás destes gestos há séculos de tradição religiosa e popular. Algumas crenças — como pôr a mesa para os mortos ou guardar um tição do madeiro — foram registadas por etnógrafos. Outras circulam hoje sem fonte conhecida.

Nesta página separamos as duas coisas.

Ficha

Datas Advento (4 semanas antes) até aos Reis (6 de janeiro)
Noite principal Consoada, 24 de dezembro
Origem da data 25 de dezembro já aparece no Cronógrafo de 354 (Roma)
Costumes portugueses Consoada, Missa do Galo, madeiro, presépio, Janeiras, Reis
Crenças registadas Mesa para as almas; tição guardado contra trovoadas
Património reconhecido Cantar os Reis (Ovar) e Pintar e Cantar dos Reis (Alenquer)

Porque é a 25 de dezembro

Os Evangelhos não dizem em que dia Jesus nasceu. A primeira referência a uma festa do Natal a 25 de dezembro está num calendário romano, o Cronógrafo de 354.

No mesmo calendário, o dia 25 é também a festa do Sol Invicto. Muitos historiadores ligam a data ao solstício de inverno; outros apontam razões teológicas dos primeiros cristãos. A questão continua em aberto.

➜ Solstício de inverno

A Consoada e a mesa das almas

«Consoada» era a pequena refeição tomada ao fim de um dia de jejum. Passou a ser o nome da ceia da véspera de Natal.

O bacalhau cozido é o prato mais comum. No Norte também se come polvo; na Beira Alta, cabrito; em Trás-os-Montes, Alentejo e Algarve, peru e outros assados.

Um lugar para os que partiram

Esta é a crença mais bem documentada do Natal português. Segundo o Turismo de Portugal, no Minho, Porto e Guimarães há famílias que:

  • reservam lugares à mesa para os parentes falecidos há pouco tempo; ou
  • deixam a mesa posta durante a noite, com uma vela ou candeia acesa, para «confortar e aquecer» as almas.

O registo é antigo. Em 1866, o escritor Ferraz Júnior escreveu no Archivo Pittoresco que, nas aldeias, «não se levanta a mesa» na noite de Natal.

Na vizinha Galiza, o etnógrafo Vicente Risco registou a mesma ideia: os defuntos vêm cear com os vivos, e por isso põe-se-lhes a mesa.

O etnógrafo Ernesto Veiga de Oliveira dedicou um capítulo inteiro de Festividades Cíclicas em Portugal ao culto dos mortos no Natal. Ou seja: o Natal português foi também, tradicionalmente, uma noite de lembrar os mortos da família.

➜ As alminhas

➜ A vela das almas

➜ Oração às almas

A Missa do Galo

É a missa da meia-noite de 24 para 25 de dezembro. No fim, os fiéis vão beijar o Menino Jesus.

O nome só se usa em português e em espanhol. Há duas explicações:

  • Histórica: a missa celebrava-se «ao canto do galo», expressão antiga para as horas da noite.
  • Lenda: um galo teria sido o primeiro a anunciar o nascimento de Jesus.

Nenhuma das duas está provada com segurança.

O madeiro

Em muitas aldeias de Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo, os rapazes juntam um monte de troncos que arde no adro da igreja na noite de Natal. Chama-se madeiro, lenho ou fogueira do Galo.

Em Penamacor, que tem fama de ter o maior madeiro do país, a lenha era tradicionalmente cortada pelos rapazes em idade de ir à tropa. Hoje participam também raparigas.

Segundo o município, os rapazes, sem dinheiro, chegavam a roubar lenha, bois e carros para o madeiro. Em muitos sítios a fogueira arde até ao Ano Novo ou aos Reis.

A Igreja explica-o como a fogueira para «aquecer o Menino». A ligação a antigas fogueiras do solstício é uma interpretação de alguns autores, não um facto demonstrado.

O tição guardado

Ferraz Júnior (Portugal, 1866) e Vicente Risco (Galiza, 1962) registaram uma crença comum: guardar um tição do lume de Natal e acendê-lo nas trovoadas, para proteger a casa de raios e granizo.

É a mesma lógica dos ramos bentos do Domingo de Ramos, que também se queimavam nas trovoadas.

➜ A oliveira e o ramo bento

➜ Oração a Santa Bárbara

O presépio

A tradição atribui a São Francisco de Assis o primeiro presépio vivo, em Greccio, Itália, em 1223. Em Portugal, são famosos os presépios de barro de Barcelos e Estremoz e o presépio de Machado de Castro, na Basílica da Estrela.

Das Janeiras aos Reis

  • Janeiras — no início de janeiro, grupos cantam de porta em porta a desejar bom ano e recebem ofertas.
  • Cantar os Reis, Ovar — as «troupes» de Reis existem desde o fim do século XIX. Foi inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial em novembro de 2020.
  • Pintar e Cantar dos Reis, Alenquer — na noite de 5 para 6 de janeiro, um grupo pinta nas paredes estrelas, corações e as letras «B.R.» («Bons Reis»); outro canta. Inscrito no mesmo inventário em 2021.
  • Dia de Reis (6 de janeiro) — fim tradicional da quadra.

Afirmação comum | O que se sabe

Afirmação comum O que se sabe
«Põe-se um lugar à mesa para as almas» Documentado no Norte (Turismo de Portugal; Ferraz Júnior, 1866)
«Guardar um tição do madeiro protege das trovoadas» Crença registada por etnógrafos portugueses e galegos
«O madeiro é uma fogueira pagã» Interpretação; não há prova direta
«O nome Missa do Galo vem de um galo milagroso» Lenda; a explicação pela hora da noite é mais provável
«Azevinho debaixo da almofada faz sonhar com o futuro noivo» Aparece em textos de turismo, sem recolha etnográfica citada
«Não se varrem as migalhas porque são das almas» Circula na internet; não encontrámos fonte fiável
«O Natal é o "tempo das almas"» Expressão que circula; não confirmada em recolhas que consultámos

➜ Hera e azevinho

Viver a quadra com sentido

  • Lembrar quem partiu — uma fotografia à mesa, uma oração.
  • Um lugar para quem está só — um vizinho ou familiar afastado.
  • Uma oração pela família antes da Consoada.

➜ Oração pela família

Segurança no Natal

  • Nunca deixe velas acesas sem vigilância, sobretudo durante a noite.
  • Se quiser manter a tradição da luz para as almas, use uma vela LED.
  • Velas longe da árvore, do presépio (musgo seco arde depressa) e das cortinas.
  • Verifique as luzes elétricas: fios danificados provocam incêndios.

➜ Como usar velas com segurança

Continue a ler

➜ Passagem de ano

➜ Velas dos santos

➜ Calendário mágico: o ano completo

Fontes

  • Turismo de Portugal, «Christmas Eve Supper and Midnight Mass» — visitportugal.com
  • Xavier Paz, «Lugares comuns das noites de Natal» (cita Ferraz Júnior, Archivo Pittoresco, 1866, e Vicente Risco, 1962) — meridiano8.substack.com
  • Município de Penamacor, «Madeiro» — cm-penamacor.pt
  • Jornal O Interior, «Porque se acendem madeiros no Natal?» — ointerior.pt
  • INET-md, «Cantar os Reis de Ovar no Inventário Nacional do PCI» — inetmd.pt
  • DNotícias, «Tradições "Pintar e Cantar dos Reis" são património cultural imaterial» (2021) — dnoticias.pt
  • Wikipédia, «Consoada» e «Missa do Galo» — pt.wikipedia.org
  • Wikipédia, «Chronograph of 354» — en.wikipedia.org
  • Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Lisboa, Dom Quixote, 1984 (cap. «O culto dos mortos no Natal»).

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