O Natal é a festa mais vivida em Portugal. Mesmo quem não vai à missa guarda a Consoada em família e monta o presépio.
Por trás destes gestos há séculos de tradição religiosa e popular. Algumas crenças — como pôr a mesa para os mortos ou guardar um tição do madeiro — foram registadas por etnógrafos. Outras circulam hoje sem fonte conhecida.
Nesta página separamos as duas coisas.
Ficha
| Datas | Advento (4 semanas antes) até aos Reis (6 de janeiro) |
| Noite principal | Consoada, 24 de dezembro |
| Origem da data | 25 de dezembro já aparece no Cronógrafo de 354 (Roma) |
| Costumes portugueses | Consoada, Missa do Galo, madeiro, presépio, Janeiras, Reis |
| Crenças registadas | Mesa para as almas; tição guardado contra trovoadas |
| Património reconhecido | Cantar os Reis (Ovar) e Pintar e Cantar dos Reis (Alenquer) |
Porque é a 25 de dezembro
Os Evangelhos não dizem em que dia Jesus nasceu. A primeira referência a uma festa do Natal a 25 de dezembro está num calendário romano, o Cronógrafo de 354.
No mesmo calendário, o dia 25 é também a festa do Sol Invicto. Muitos historiadores ligam a data ao solstício de inverno; outros apontam razões teológicas dos primeiros cristãos. A questão continua em aberto.
A Consoada e a mesa das almas
«Consoada» era a pequena refeição tomada ao fim de um dia de jejum. Passou a ser o nome da ceia da véspera de Natal.
O bacalhau cozido é o prato mais comum. No Norte também se come polvo; na Beira Alta, cabrito; em Trás-os-Montes, Alentejo e Algarve, peru e outros assados.
Um lugar para os que partiram
Esta é a crença mais bem documentada do Natal português. Segundo o Turismo de Portugal, no Minho, Porto e Guimarães há famílias que:
- reservam lugares à mesa para os parentes falecidos há pouco tempo; ou
- deixam a mesa posta durante a noite, com uma vela ou candeia acesa, para «confortar e aquecer» as almas.
O registo é antigo. Em 1866, o escritor Ferraz Júnior escreveu no Archivo Pittoresco que, nas aldeias, «não se levanta a mesa» na noite de Natal.
Na vizinha Galiza, o etnógrafo Vicente Risco registou a mesma ideia: os defuntos vêm cear com os vivos, e por isso põe-se-lhes a mesa.
O etnógrafo Ernesto Veiga de Oliveira dedicou um capítulo inteiro de Festividades Cíclicas em Portugal ao culto dos mortos no Natal. Ou seja: o Natal português foi também, tradicionalmente, uma noite de lembrar os mortos da família.
A Missa do Galo
É a missa da meia-noite de 24 para 25 de dezembro. No fim, os fiéis vão beijar o Menino Jesus.
O nome só se usa em português e em espanhol. Há duas explicações:
- Histórica: a missa celebrava-se «ao canto do galo», expressão antiga para as horas da noite.
- Lenda: um galo teria sido o primeiro a anunciar o nascimento de Jesus.
Nenhuma das duas está provada com segurança.
O madeiro
Em muitas aldeias de Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo, os rapazes juntam um monte de troncos que arde no adro da igreja na noite de Natal. Chama-se madeiro, lenho ou fogueira do Galo.
Em Penamacor, que tem fama de ter o maior madeiro do país, a lenha era tradicionalmente cortada pelos rapazes em idade de ir à tropa. Hoje participam também raparigas.
Segundo o município, os rapazes, sem dinheiro, chegavam a roubar lenha, bois e carros para o madeiro. Em muitos sítios a fogueira arde até ao Ano Novo ou aos Reis.
A Igreja explica-o como a fogueira para «aquecer o Menino». A ligação a antigas fogueiras do solstício é uma interpretação de alguns autores, não um facto demonstrado.
O tição guardado
Ferraz Júnior (Portugal, 1866) e Vicente Risco (Galiza, 1962) registaram uma crença comum: guardar um tição do lume de Natal e acendê-lo nas trovoadas, para proteger a casa de raios e granizo.
É a mesma lógica dos ramos bentos do Domingo de Ramos, que também se queimavam nas trovoadas.
O presépio
A tradição atribui a São Francisco de Assis o primeiro presépio vivo, em Greccio, Itália, em 1223. Em Portugal, são famosos os presépios de barro de Barcelos e Estremoz e o presépio de Machado de Castro, na Basílica da Estrela.
Das Janeiras aos Reis
- Janeiras — no início de janeiro, grupos cantam de porta em porta a desejar bom ano e recebem ofertas.
- Cantar os Reis, Ovar — as «troupes» de Reis existem desde o fim do século XIX. Foi inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial em novembro de 2020.
- Pintar e Cantar dos Reis, Alenquer — na noite de 5 para 6 de janeiro, um grupo pinta nas paredes estrelas, corações e as letras «B.R.» («Bons Reis»); outro canta. Inscrito no mesmo inventário em 2021.
- Dia de Reis (6 de janeiro) — fim tradicional da quadra.
Afirmação comum | O que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «Põe-se um lugar à mesa para as almas» | Documentado no Norte (Turismo de Portugal; Ferraz Júnior, 1866) |
| «Guardar um tição do madeiro protege das trovoadas» | Crença registada por etnógrafos portugueses e galegos |
| «O madeiro é uma fogueira pagã» | Interpretação; não há prova direta |
| «O nome Missa do Galo vem de um galo milagroso» | Lenda; a explicação pela hora da noite é mais provável |
| «Azevinho debaixo da almofada faz sonhar com o futuro noivo» | Aparece em textos de turismo, sem recolha etnográfica citada |
| «Não se varrem as migalhas porque são das almas» | Circula na internet; não encontrámos fonte fiável |
| «O Natal é o "tempo das almas"» | Expressão que circula; não confirmada em recolhas que consultámos |
Viver a quadra com sentido
- Lembrar quem partiu — uma fotografia à mesa, uma oração.
- Um lugar para quem está só — um vizinho ou familiar afastado.
- Uma oração pela família antes da Consoada.
Segurança no Natal
- Nunca deixe velas acesas sem vigilância, sobretudo durante a noite.
- Se quiser manter a tradição da luz para as almas, use uma vela LED.
- Velas longe da árvore, do presépio (musgo seco arde depressa) e das cortinas.
- Verifique as luzes elétricas: fios danificados provocam incêndios.
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Fontes
- Turismo de Portugal, «Christmas Eve Supper and Midnight Mass» — visitportugal.com
- Xavier Paz, «Lugares comuns das noites de Natal» (cita Ferraz Júnior, Archivo Pittoresco, 1866, e Vicente Risco, 1962) — meridiano8.substack.com
- Município de Penamacor, «Madeiro» — cm-penamacor.pt
- Jornal O Interior, «Porque se acendem madeiros no Natal?» — ointerior.pt
- INET-md, «Cantar os Reis de Ovar no Inventário Nacional do PCI» — inetmd.pt
- DNotícias, «Tradições "Pintar e Cantar dos Reis" são património cultural imaterial» (2021) — dnoticias.pt
- Wikipédia, «Consoada» e «Missa do Galo» — pt.wikipedia.org
- Wikipédia, «Chronograph of 354» — en.wikipedia.org
- Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Lisboa, Dom Quixote, 1984 (cap. «O culto dos mortos no Natal»).