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Os Mistérios de Elêusis

Os Mistérios de Elêusis: o mito de Deméter e Perséfone, as etapas da iniciação, o segredo, a bebida kykeon e a hipótese da cravagem. O que se sabe e o que não.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. O mito: Deméter e Perséfone
  3. A iniciação
  4. O segredo
  5. O kykeon e a hipótese da cravagem
  6. A herança
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Durante quase dois mil anos, milhares de gregos e depois romanos fizeram todos os anos o caminho de Atenas até Elêusis para serem iniciados nos Mistérios de Deméter e Perséfone.

Eram os mais célebres ritos de iniciação da Antiguidade. E o segredo foi tão bem guardado que ainda hoje não sabemos ao certo o que acontecia na noite final.

Esta página reúne o que as fontes permitem saber e distingue-o das hipóteses modernas. Para os ritos de iniciação em geral, veja a página própria.

➜ Ritos iniciáticos

Ficha

Campo Informação
Local Elêusis, cerca de 20 km a oeste de Atenas
Divindades Deméter e a filha, Perséfone (Core)
Texto principal Hino Homérico a Deméter (c. séc. VII a.C.)
Duração do culto Talvez desde a Idade do Bronze até ao fim do séc. IV d.C.
Sacerdócio O hierofante e a sacerdotisa de Deméter; famílias Eumólpidas e Cérices
Fim Proibidos por Teodósio I (392); santuário arrasado na invasão de Alarico (396)

O mito: Deméter e Perséfone

A história vem do Hino Homérico a Deméter:

  • Hades, deus do mundo dos mortos, rapta Perséfone enquanto ela colhe flores.
  • Deméter, deusa dos cereais, procura a filha por toda a terra. Disfarçada de velha, chega a Elêusis e é acolhida na casa do rei.
  • Recusa o vinho e pede uma bebida de cevada, água e poejo: o kykeon.
  • De luto, Deméter deixa a terra estéril. Zeus manda devolver Perséfone.
  • Mas Perséfone comeu sementes de romã no mundo subterrâneo. Por isso, passa uma parte do ano com Hades e o resto com a mãe.

No fim, Deméter ensina os seus ritos aos príncipes de Elêusis. O hino promete felicidade depois da morte a quem os vir.

A iniciação

Pequenos e Grandes Mistérios

  • Pequenos Mistérios: na primavera (mês de Antestérion), perto de Atenas. Uma preparação.
  • Grandes Mistérios: no fim do verão (mês de Boedrómion, setembro–outubro), durante cerca de dez dias.

A iniciação estava aberta a homens e mulheres, livres e escravos, desde que falassem grego e não tivessem culpa de sangue.

As etapas conhecidas

  1. Reunião em Atenas e proclamação.
  2. Sacrifício de um leitão a Deméter e Perséfone e purificação ritual na água.
  3. Uma grande procissão pela Via Sagrada, de Atenas até Elêusis.
  4. Jejum, quebrado com o kykeon.
  5. A noite no Telestérion, a grande sala de iniciação.

Os iniciados de primeiro grau eram os mystai. Um ano depois, podiam chegar ao grau de epoptai, «os que contemplaram».

O que se passava no Telestérion

Aqui acaba o que sabemos. As fontes falam de três elementos: coisas feitas (drómena), coisas mostradas (deiknýmena) e coisas ditas (legómena).

O autor cristão Hipólito de Roma (séc. III) afirma que o momento culminante era a apresentação de uma espiga de trigo ceifada em silêncio. Não sabemos se é exato.

O segredo

Revelar os Mistérios era crime punido com a morte. Em 415 a.C., o político ateniense Alcibíades foi acusado de os ter parodiado numa casa privada. O poeta Diágoras de Melos foi condenado à morte em Atenas por os ter divulgado.

Admiradores ilustres não faltaram: Cícero, nas Leis, escreveu que os Mistérios tinham ajudado a tirar os homens de uma vida selvagem; e o imperador Marco Aurélio foi iniciado e, segundo as fontes, entrou no santuário mais interior, o Anáktoron.

O kykeon e a hipótese da cravagem

O kykeon do hino levava cevada, água e poejo (Mentha pulegium). Em 1978, o livro The Road to Eleusis, de R. Gordon Wasson, Albert Hofmann (o químico que sintetizou o LSD) e Carl Ruck, propôs que a cevada estava contaminada com cravagem (ergot), um fungo com alcaloides psicoativos.

É uma hipótese, não um facto. Tem defensores e críticos. Achados arqueológicos em Mas Castellar (Girona, Catalunha), num contexto ibérico, mostraram vestígios de cravagem num vaso e no tártaro dentário de um homem — mas não em Elêusis.

Outros estudiosos lembram que o jejum, a caminhada, a noite, a música e o drama ritual bastariam para uma experiência intensa.

Atenção: o óleo de poejo é tóxico, e a cravagem causou epidemias mortais (ergotismo) ao longo da história. Isto é história, não receita.

A herança

Os Mistérios de Elêusis inspiraram a ideia moderna de iniciação nas ordens esotéricas e o fascínio pelas «religiões de mistérios». A romã, a espiga e a descida ao mundo subterrâneo continuam a ser símbolos fortes no neopaganismo.

➜ Paganismo

Continue a ler

➜ O oráculo de Delfos

➜ Magia grega

➜ Neoplatonismo e teurgia

Fontes

  • Hino Homérico a Deméter (tradução inglesa de H. G. Evelyn-White, 1914, em domínio público: sacred-texts.com)
  • Walter Burkert, Ancient Mystery Cults (Harvard University Press, 1987)
  • R. Gordon Wasson, Albert Hofmann e Carl A. P. Ruck, The Road to Eleusis (1978)
  • Wikipedia (inglês), Eleusinian Mysteries

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