O neoplatonismo foi a última grande escola da filosofia grega. Nasceu no século III d.C. com Plotino e durou até ao século VI, em Atenas e Alexandria.
Dentro dele desenvolveu-se a teurgia — do grego theourgía, «obra divina»: um conjunto de ritos para unir a alma aos deuses. Alguns filósofos achavam que o pensamento bastava; outros defendiam que era preciso o ritual.
Este debate antigo explica muito da magia ocidental posterior, dos grimórios do Renascimento à Golden Dawn.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Período | Séculos III–VI d.C. |
| Fundador | Plotino (c. 205–270) |
| Figuras principais | Porfírio, Jâmblico, Proclo, Damáscio |
| Textos-chave | Enéadas; Dos Mistérios; Oráculos Caldeus; Elementos de Teologia |
| Ideia central | Tudo emana do Uno e pode regressar a ele |
| Fim da escola de Atenas | 529, por ordem de Justiniano |
Plotino e o Uno
Plotino nasceu no Egito, provavelmente em 204 ou 205. Estudou em Alexandria com Amónio Sacas e ensinou em Roma desde 244 até morrer, em 270.
O seu discípulo Porfírio reuniu os seus escritos nas Enéadas: 54 tratados organizados em seis grupos de nove.
Para Plotino, a realidade tem três níveis principais:
| Nível | O que é |
|---|---|
| O Uno | O princípio primeiro, simples, acima de tudo |
| O Intelecto (Nous) | A mente divina, onde estão as Formas |
| A Alma | O elo entre o mundo inteligível e o mundo sensível |
A alma humana pode subir pela purificação e pela contemplação até à união com o Uno. Plotino via o mal como ausência de bem, não como uma força própria.
Plotino e a magia
Plotino explicava a magia pela simpatia entre as partes do cosmos, que é um todo vivo e ligado. Mas considerava que o sábio, pela sua alma, não fica preso aos encantamentos.
Porfírio conta, na Vida de Plotino, que um rival chamado Olímpio tentou atacá-lo com magia, sem efeito. É um relato biográfico antigo, não um facto verificável.
Os Oráculos Caldeus
No século II, circulou um poema em grego, os Oráculos Caldeus, atribuído a Juliano, o Caldeu, ou ao filho, Juliano, o Teurgo. É neste texto que aparece pela primeira vez a palavra teurgia.
Não sobreviveu nenhum texto original. Conhecemos fragmentos citados pelos neoplatónicos. Neles, a deusa Hécate tem um papel central, como mediadora entre o fogo divino e o mundo material.
Os neoplatónicos tardios tratavam os Oráculos quase como uma escritura sagrada.
Jâmblico e a defesa da teurgia
Jâmblico (c. 242–c. 325), nascido na Síria, é a grande figura da teurgia.
Porfírio, na Carta a Anebo, tinha criticado os ritos, as oferendas e as invocações. Jâmblico respondeu com a obra conhecida como Dos Mistérios dos Egípcios, escrita sob o nome de um sacerdote egípcio, Abámon.
A sua tese: a alma humana desceu tão fundo na matéria que a filosofia sozinha não chega. Precisa da ajuda dos deuses, que se obtém por ritos — orações, oferendas, e os símbolos (synthemata) que os próprios deuses deixaram na natureza: pedras, plantas, nomes, mitos.
Para Jâmblico, a teurgia não obriga os deuses; é uma cooperação com eles.
Proclo e o fim da escola
Proclo (412–485), nascido em Constantinopla, dirigiu a escola platónica de Atenas durante quase cinquenta anos. Escreveu os Elementos de Teologia, uma série de proposições demonstradas em cadeia, e a Teologia Platónica.
Segundo o seu biógrafo Marino, praticava a teurgia e compôs hinos aos deuses.
Em 529, o imperador Justiniano fechou a escola de Atenas. Os últimos filósofos, com Damáscio, procuraram refúgio junto do rei persa Cosroes I.
A herança
O neoplatonismo não morreu com a escola:
- Influenciou Santo Agostinho e, através do chamado Pseudo-Dionísio, a teologia cristã dos anjos e das suas hierarquias.
- Passou para a filosofia islâmica e judaica.
- No Renascimento, Marsílio Ficino traduziu Plotino para latim (1484–1492) e desenvolveu uma magia natural inspirada nestes autores.
- A Golden Dawn e os martinistas usaram a palavra teurgia para os seus rituais — uma apropriação moderna, não uma continuidade direta.
Teurgia e goécia: a distinção antiga
Na Antiguidade tardia distinguia-se a teurgia, vista como magia «alta», dirigida aos deuses para elevar a alma, da goécia (goēteia), termo depreciativo para a feitiçaria vulgar ou fraudulenta. É a origem remota do nome do grimório Goécia.
➜ A Goécia