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Neoplatonismo e teurgia — a filosofia que se tornou ritual

O neoplatonismo e a teurgia: Plotino e o Uno, Jâmblico contra Porfírio, os Oráculos Caldeus, Proclo, o fecho da escola de Atenas (529) e a herança até Ficino.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Plotino e o Uno
  3. Os Oráculos Caldeus
  4. Jâmblico e a defesa da teurgia
  5. Proclo e o fim da escola
  6. A herança
  7. Teurgia e goécia: a distinção antiga
  8. Continue a ler
  9. Fontes

O neoplatonismo foi a última grande escola da filosofia grega. Nasceu no século III d.C. com Plotino e durou até ao século VI, em Atenas e Alexandria.

Dentro dele desenvolveu-se a teurgia — do grego theourgía, «obra divina»: um conjunto de ritos para unir a alma aos deuses. Alguns filósofos achavam que o pensamento bastava; outros defendiam que era preciso o ritual.

Este debate antigo explica muito da magia ocidental posterior, dos grimórios do Renascimento à Golden Dawn.

Ficha

Campo Informação
Período Séculos III–VI d.C.
Fundador Plotino (c. 205–270)
Figuras principais Porfírio, Jâmblico, Proclo, Damáscio
Textos-chave Enéadas; Dos Mistérios; Oráculos Caldeus; Elementos de Teologia
Ideia central Tudo emana do Uno e pode regressar a ele
Fim da escola de Atenas 529, por ordem de Justiniano

Plotino e o Uno

Plotino nasceu no Egito, provavelmente em 204 ou 205. Estudou em Alexandria com Amónio Sacas e ensinou em Roma desde 244 até morrer, em 270.

O seu discípulo Porfírio reuniu os seus escritos nas Enéadas: 54 tratados organizados em seis grupos de nove.

Para Plotino, a realidade tem três níveis principais:

Nível O que é
O Uno O princípio primeiro, simples, acima de tudo
O Intelecto (Nous) A mente divina, onde estão as Formas
A Alma O elo entre o mundo inteligível e o mundo sensível

A alma humana pode subir pela purificação e pela contemplação até à união com o Uno. Plotino via o mal como ausência de bem, não como uma força própria.

Plotino e a magia

Plotino explicava a magia pela simpatia entre as partes do cosmos, que é um todo vivo e ligado. Mas considerava que o sábio, pela sua alma, não fica preso aos encantamentos.

Porfírio conta, na Vida de Plotino, que um rival chamado Olímpio tentou atacá-lo com magia, sem efeito. É um relato biográfico antigo, não um facto verificável.

Os Oráculos Caldeus

No século II, circulou um poema em grego, os Oráculos Caldeus, atribuído a Juliano, o Caldeu, ou ao filho, Juliano, o Teurgo. É neste texto que aparece pela primeira vez a palavra teurgia.

Não sobreviveu nenhum texto original. Conhecemos fragmentos citados pelos neoplatónicos. Neles, a deusa Hécate tem um papel central, como mediadora entre o fogo divino e o mundo material.

Os neoplatónicos tardios tratavam os Oráculos quase como uma escritura sagrada.

Jâmblico e a defesa da teurgia

Jâmblico (c. 242–c. 325), nascido na Síria, é a grande figura da teurgia.

Porfírio, na Carta a Anebo, tinha criticado os ritos, as oferendas e as invocações. Jâmblico respondeu com a obra conhecida como Dos Mistérios dos Egípcios, escrita sob o nome de um sacerdote egípcio, Abámon.

A sua tese: a alma humana desceu tão fundo na matéria que a filosofia sozinha não chega. Precisa da ajuda dos deuses, que se obtém por ritos — orações, oferendas, e os símbolos (synthemata) que os próprios deuses deixaram na natureza: pedras, plantas, nomes, mitos.

Para Jâmblico, a teurgia não obriga os deuses; é uma cooperação com eles.

Proclo e o fim da escola

Proclo (412–485), nascido em Constantinopla, dirigiu a escola platónica de Atenas durante quase cinquenta anos. Escreveu os Elementos de Teologia, uma série de proposições demonstradas em cadeia, e a Teologia Platónica.

Segundo o seu biógrafo Marino, praticava a teurgia e compôs hinos aos deuses.

Em 529, o imperador Justiniano fechou a escola de Atenas. Os últimos filósofos, com Damáscio, procuraram refúgio junto do rei persa Cosroes I.

A herança

O neoplatonismo não morreu com a escola:

  • Influenciou Santo Agostinho e, através do chamado Pseudo-Dionísio, a teologia cristã dos anjos e das suas hierarquias.
  • Passou para a filosofia islâmica e judaica.
  • No Renascimento, Marsílio Ficino traduziu Plotino para latim (1484–1492) e desenvolveu uma magia natural inspirada nestes autores.
  • A Golden Dawn e os martinistas usaram a palavra teurgia para os seus rituais — uma apropriação moderna, não uma continuidade direta.

➜ Angelologia

➜ Magia renascentista

➜ O martinismo

➜ A Golden Dawn

Teurgia e goécia: a distinção antiga

Na Antiguidade tardia distinguia-se a teurgia, vista como magia «alta», dirigida aos deuses para elevar a alma, da goécia (goēteia), termo depreciativo para a feitiçaria vulgar ou fraudulenta. É a origem remota do nome do grimório Goécia.

➜ A Goécia

Continue a ler

➜ Magia grega

➜ O hermetismo

➜ O gnosticismo

➜ O oráculo de Delfos

Fontes

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