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Os ciganos e a cartomancia

De onde vêm os ciganos, porque ficaram ligados à leitura da sina, as leis portuguesas contra a «buena-dicha» e porque o baralho cigano não é cigano.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Um povo vindo da Índia
  3. Os ciganos em Portugal
  4. A «buena-dicha»: ler a sina
  5. E as cartas?
  6. Respeito e sentido crítico
  7. Continue a ler
  8. Fontes

A imagem da cigana que lê a sina é das mais antigas da Europa. Aparece no teatro de Gil Vicente, nos romances de Cervantes, nas feiras e no nome de um dos baralhos mais usados em Portugal: o «baralho cigano».

Mas por trás da imagem há um povo real, com uma história de cinco séculos em Portugal — e muitas vezes de perseguição. Parte dessa perseguição teve precisamente como pretexto a adivinhação.

Esta página separa a história dos ciganos, a prática real da leitura da sina e os mitos que os ocultistas e os editores de baralhos criaram.

Ficha

Campo Informação
Povo Roma (romani); na Península Ibérica, os calé
Origem Norte da Índia, segundo a linguística e a genética
Chegada à Europa Séculos XIII–XIV, pelos Balcãs
Em Portugal Desde o fim do século XV
Língua Romani; em Portugal, o caló (com o português)
Adivinhação associada Leitura da mão e da sina; mais tarde, cartas

Um povo vindo da Índia

Durante séculos, os europeus pensaram que os ciganos vinham do Egito. Daí os nomes gypsy em inglês e gitano em castelhano, ambos derivados de «egípcio».

Hoje sabe-se que é falso. A língua romani é uma língua indo-ariana, aparentada com as do norte da Índia, e os estudos genéticos confirmam essa origem. Os antepassados dos roma terão saído do noroeste da Índia há cerca de 1500 anos, passando pela Pérsia e pelo Império Bizantino.

Alguns roma consideram gypsy um termo pejorativo, pela sua história. Nesta página usamos «cigano», a palavra corrente em português, sem intenção depreciativa.

Os ciganos em Portugal

Os ciganos entraram em Portugal na segunda metade do século XV, vindos de Espanha. Uma das primeiras referências literárias está numa peça de Gil Vicente de 1521, em que aparecem ciganas.

A reação do poder foi dura:

  • 1526 — D. João III ordena a expulsão dos ciganos e proíbe a entrada de novos.
  • 1557 e 1573 — novas ordens de expulsão, com D. Catarina e D. Sebastião.
  • Ao longo dos séculos seguintes, leis sucessivas proibiram a língua, o traje e a leitura da sina, e muitos ciganos foram degredados para o Brasil, Angola e outras colónias. Em 1574 está documentado o degredo de uma família para o Brasil.
  • Só a Constituição liberal de 1822 reconheceu os ciganos como cidadãos portugueses.

Hoje vivem em Portugal, segundo estimativas, entre 30 000 e 60 000 ciganos. A discriminação continua a ser um problema reconhecido.

➜ A Inquisição em Portugal

A «buena-dicha»: ler a sina

Buena-dicha é uma palavra que o português foi buscar ao castelhano buena dicha, «boa sorte». Os dicionários definem-na como sina, fortuna, sorte. A expressão ficou colada à cigana que, na rua ou na feira, pega na mão de alguém e lhe diz o futuro.

Uma atividade de sobrevivência

Para um povo perseguido e muitas vezes obrigado a deslocar-se, a leitura da sina foi também uma fonte de rendimento. As próprias leis portuguesas que a proibiam mostram que era uma atividade conhecida.

A quiromancia (leitura da mão) já existia muito antes: há tradições na Índia, na Grécia e noutras culturas. Os ciganos não a inventaram, mas tornaram-se, aos olhos dos europeus, os seus representantes mais visíveis.

Na literatura

Em 1613, Cervantes publicou La gitanilla, cuja heroína, Preciosa, lê a sorte às senhoras de Madrid. A figura da cigana adivinha passou depois para a ópera, a pintura e o romance.

Atenção ao estereótipo: estas obras mostram o olhar dos não ciganos. A maioria dos ciganos nunca leu a sina a ninguém, e a associação automática entre «cigano» e «adivinho» — ou «vigarista» — é um preconceito.

E as cartas?

O tarot não é cigano

No século XIX, ocultistas franceses espalharam a ideia de que os ciganos tinham trazido o tarot do Oriente. O livro de Papus, Le Tarot des Bohémiens (1889), leva no título essa ideia («boémios» era outro nome dos ciganos).

Não há prova histórica. O tarot nasceu no norte de Itália, no século XV, como jogo de cartas, e o seu uso para adivinhação só está documentado a partir do fim do século XVIII.

➜ História do tarot

➜ Papus (Gérard Encausse)

O baralho cigano também não

O popular baralho cigano de 36 cartas é, na verdade, o baralho Lenormand, nascido na Alemanha por volta de 1800 a partir de um jogo de tabuleiro. O nome «cigano» é comercial: aproveita a imagem romântica da cigana que lê a sina.

➜ Baralho cigano (Lenormand)

➜ Baralho cigano ou tarot? As diferenças

Respeito e sentido crítico

  • Os ciganos são um povo, não uma tradição esotérica. A «magia cigana» vendida em anúncios raramente tem ligação real à cultura cigana.
  • A leitura da sina, por quem quer que seja, é uma prática de adivinhação: não tem valor comprovado e não deve substituir decisões pensadas.
  • Durante o nazismo, os roma foram vítimas de genocídio (o Porajmos). A história deste povo merece mais do que um estereótipo de feira.

Continue a ler

➜ Cartomancia: ler o futuro nas cartas

➜ Tarot: o guia completo

➜ Dicionário do oculto: letra D

Fontes

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