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🌿 Ervas

Mandrágora: a raiz das lendas (e uma planta muito tóxica)

A mandrágora na história e no folclore: a raiz em forma humana, o grito, o cão, a forca e a Bíblia. Planta muito tóxica — aqui só história, nunca uso.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A planta
  3. Na Antiguidade
  4. Na Bíblia
  5. As lendas medievais
  6. Na cultura
  7. Porque nunca se deve usar
  8. Precauções
  9. Continue a ler
  10. Fontes

Nenhuma planta tem tantas lendas como a mandrágora. A sua raiz, grossa e muitas vezes bifurcada, lembra um pequeno corpo humano. Daí nasceram histórias de gritos mortais, de cães sacrificados e de homenzinhos nascidos debaixo da forca.

Esta página conta a história e o folclore da planta. Não ensina a usá-la. A mandrágora é muito tóxica: todas as partes contêm alcaloides que podem causar delírio, paragem respiratória e morte.

Aviso importante: não colha, não prove, não use a mandrágora em chás, banhos, unguentos ou defumações. Em caso de contacto ou ingestão, ligue para o CIAV — Centro de Informação Antivenenos: 800 250 250.

Ficha

Campo Informação
Nome comum Mandrágora
Nome científico Mandragora officinarum e Mandragora autumnalis (a separação das espécies é discutida pelos botânicos)
Família Solanáceas (a mesma da beladona e do tomate)
Onde cresce Região mediterrânica; M. autumnalis é referida no sul de Portugal e de Espanha
Partes na tradição Sobretudo a raiz; também os frutos amarelos
Toxicidade Muito elevada — alcaloides tropânicos (hiosciamina, escopolamina)

A planta

É uma planta baixa, com uma roseta de folhas largas rente ao chão, flores violáceas ou esbranquiçadas e frutos amarelos redondos. A raiz é profunda e pode dividir-se em dois, como pernas.

Contém alcaloides tropânicos, os mesmos da beladona e do meimendro. Em pequenas quantidades já provocam boca seca, pupilas dilatadas, visão turva, agitação e alucinações. Em doses maiores, podem matar.

Na Antiguidade

Facto documentado: a mandrágora era conhecida e temida desde a Antiguidade.

  • Teofrasto (m. c. 287 a.C.) descreve um ritual de colheita: traçar três círculos à volta da planta com uma espada e cortá-la virado para ocidente.
  • Dioscórides (séc. I), na Matéria Médica, trata-a como narcótico e analgésico. Nessa época, era das poucas substâncias conhecidas para adormecer a dor, com todos os riscos que isso implicava.
  • Flávio Josefo (séc. I) fala de uma raiz perigosa chamada baaras, que só se podia arrancar amarrando-a a um cão. É a versão mais antiga conhecida da lenda do cão.

➜ Ervas das bruxas: beladona, meimendro e estramónio

Na Bíblia

No Génesis (30,14–16), Rúben encontra dudaim no campo e dá-os à mãe, Lia. Raquel, que não conseguia ter filhos, pede-os. A tradução grega antiga (a Septuaginta) chamou-lhes mandrágoras, e a palavra aparece também no Cântico dos Cânticos (cap. 7).

Foi assim que a mandrágora ficou ligada, durante séculos, ao amor e à fertilidade. Os estudiosos continuam a discutir se os dudaim eram mesmo esta planta.

As lendas medievais

Na Idade Média, as histórias cresceram. Estas são lendas, não factos:

O grito que mata

Dizia-se que a raiz gritava ao ser arrancada e que quem ouvisse o grito morria ou enlouquecia.

O cão

Para a colher sem perigo, amarrava-se a raiz a um cão, afastava-se a pessoa (tapando os ouvidos) e chamava-se o animal. O cão arrancava a planta e morria no lugar do dono. Manuscritos medievais de ervas desenham esta cena.

Debaixo da forca

Outra crença dizia que a mandrágora nascia debaixo da forca, dos fluidos dos enforcados. Em alemão, um dos seus nomes era Galgenmännlein, «homenzinho da forca».

O «alraun» alemão

Na Alemanha, raízes de mandrágora (ou imitações feitas de outras raízes, como a da briónia) eram talhadas em forma de boneco e vendidas como amuletos, os Alraune. O folclore mandava lavá-los, vesti-los e guardá-los; dizia-se que traziam sorte e dinheiro. Muitos eram falsificações vendidas por charlatães.

Na cultura

  • Shakespeare, em Romeu e Julieta, fala de gritos «como mandrágoras arrancadas da terra».
  • Maquiavel escreveu a comédia A Mandrágora (La Mandragola, publicada em 1524), onde uma suposta poção de mandrágora serve de pretexto para um engano.
  • Na saga Harry Potter, as mandrágoras gritam quando são tiradas do vaso — uma adaptação direta da lenda medieval.

Porque nunca se deve usar

Alguns livros e sites modernos apresentam a mandrágora como «erva mágica» para amor ou proteção. Não siga essas indicações.

  • A quantidade de alcaloides varia muito de planta para planta. Não existe «dose segura» caseira.
  • Pode ser confundida com outras plantas de folhas largas em roseta. Já houve intoxicações graves por confusões na colheita.
  • O contacto e a ingestão são perigosos para crianças e animais.

Na tradição esotérica moderna, quem quer evocar a mandrágora usa imagens, textos ou símbolos, nunca a planta. É a forma sensata de respeitar a história sem pôr a vida em risco.

Precauções

  • Não colher, não ingerir, não queimar, não usar em banhos ou unguentos.
  • Não comprar «raiz de mandrágora» para uso ritual: pode ser verdadeira (tóxica) ou uma falsificação de outra planta (também potencialmente tóxica).
  • Mantenha qualquer planta deste tipo longe de crianças e animais.
  • Sintomas de intoxicação: boca seca, pupilas dilatadas, pele vermelha e quente, batimento acelerado, confusão, alucinações. É uma emergência.

Em caso de suspeita de intoxicação, ligue 112 ou o CIAV — 800 250 250.

Continue a ler

➜ As «ervas das bruxas»

➜ Ervas de proteção

➜ O Malleus Maleficarum

➜ Todas as ervas

Fontes

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