Nenhuma planta tem tantas lendas como a mandrágora. A sua raiz, grossa e muitas vezes bifurcada, lembra um pequeno corpo humano. Daí nasceram histórias de gritos mortais, de cães sacrificados e de homenzinhos nascidos debaixo da forca.
Esta página conta a história e o folclore da planta. Não ensina a usá-la. A mandrágora é muito tóxica: todas as partes contêm alcaloides que podem causar delírio, paragem respiratória e morte.
Aviso importante: não colha, não prove, não use a mandrágora em chás, banhos, unguentos ou defumações. Em caso de contacto ou ingestão, ligue para o CIAV — Centro de Informação Antivenenos: 800 250 250.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome comum | Mandrágora |
| Nome científico | Mandragora officinarum e Mandragora autumnalis (a separação das espécies é discutida pelos botânicos) |
| Família | Solanáceas (a mesma da beladona e do tomate) |
| Onde cresce | Região mediterrânica; M. autumnalis é referida no sul de Portugal e de Espanha |
| Partes na tradição | Sobretudo a raiz; também os frutos amarelos |
| Toxicidade | Muito elevada — alcaloides tropânicos (hiosciamina, escopolamina) |
A planta
É uma planta baixa, com uma roseta de folhas largas rente ao chão, flores violáceas ou esbranquiçadas e frutos amarelos redondos. A raiz é profunda e pode dividir-se em dois, como pernas.
Contém alcaloides tropânicos, os mesmos da beladona e do meimendro. Em pequenas quantidades já provocam boca seca, pupilas dilatadas, visão turva, agitação e alucinações. Em doses maiores, podem matar.
Na Antiguidade
Facto documentado: a mandrágora era conhecida e temida desde a Antiguidade.
- Teofrasto (m. c. 287 a.C.) descreve um ritual de colheita: traçar três círculos à volta da planta com uma espada e cortá-la virado para ocidente.
- Dioscórides (séc. I), na Matéria Médica, trata-a como narcótico e analgésico. Nessa época, era das poucas substâncias conhecidas para adormecer a dor, com todos os riscos que isso implicava.
- Flávio Josefo (séc. I) fala de uma raiz perigosa chamada baaras, que só se podia arrancar amarrando-a a um cão. É a versão mais antiga conhecida da lenda do cão.
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Na Bíblia
No Génesis (30,14–16), Rúben encontra dudaim no campo e dá-os à mãe, Lia. Raquel, que não conseguia ter filhos, pede-os. A tradução grega antiga (a Septuaginta) chamou-lhes mandrágoras, e a palavra aparece também no Cântico dos Cânticos (cap. 7).
Foi assim que a mandrágora ficou ligada, durante séculos, ao amor e à fertilidade. Os estudiosos continuam a discutir se os dudaim eram mesmo esta planta.
As lendas medievais
Na Idade Média, as histórias cresceram. Estas são lendas, não factos:
O grito que mata
Dizia-se que a raiz gritava ao ser arrancada e que quem ouvisse o grito morria ou enlouquecia.
O cão
Para a colher sem perigo, amarrava-se a raiz a um cão, afastava-se a pessoa (tapando os ouvidos) e chamava-se o animal. O cão arrancava a planta e morria no lugar do dono. Manuscritos medievais de ervas desenham esta cena.
Debaixo da forca
Outra crença dizia que a mandrágora nascia debaixo da forca, dos fluidos dos enforcados. Em alemão, um dos seus nomes era Galgenmännlein, «homenzinho da forca».
O «alraun» alemão
Na Alemanha, raízes de mandrágora (ou imitações feitas de outras raízes, como a da briónia) eram talhadas em forma de boneco e vendidas como amuletos, os Alraune. O folclore mandava lavá-los, vesti-los e guardá-los; dizia-se que traziam sorte e dinheiro. Muitos eram falsificações vendidas por charlatães.
Na cultura
- Shakespeare, em Romeu e Julieta, fala de gritos «como mandrágoras arrancadas da terra».
- Maquiavel escreveu a comédia A Mandrágora (La Mandragola, publicada em 1524), onde uma suposta poção de mandrágora serve de pretexto para um engano.
- Na saga Harry Potter, as mandrágoras gritam quando são tiradas do vaso — uma adaptação direta da lenda medieval.
Porque nunca se deve usar
Alguns livros e sites modernos apresentam a mandrágora como «erva mágica» para amor ou proteção. Não siga essas indicações.
- A quantidade de alcaloides varia muito de planta para planta. Não existe «dose segura» caseira.
- Pode ser confundida com outras plantas de folhas largas em roseta. Já houve intoxicações graves por confusões na colheita.
- O contacto e a ingestão são perigosos para crianças e animais.
Na tradição esotérica moderna, quem quer evocar a mandrágora usa imagens, textos ou símbolos, nunca a planta. É a forma sensata de respeitar a história sem pôr a vida em risco.
Precauções
- Não colher, não ingerir, não queimar, não usar em banhos ou unguentos.
- Não comprar «raiz de mandrágora» para uso ritual: pode ser verdadeira (tóxica) ou uma falsificação de outra planta (também potencialmente tóxica).
- Mantenha qualquer planta deste tipo longe de crianças e animais.
- Sintomas de intoxicação: boca seca, pupilas dilatadas, pele vermelha e quente, batimento acelerado, confusão, alucinações. É uma emergência.
Em caso de suspeita de intoxicação, ligue 112 ou o CIAV — 800 250 250.
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Fontes
- «Mandrake», Wikipedia (inglês) — en.wikipedia.org/wiki/Mandrake
- «Mandragora autumnalis», Wikipedia (inglês) — en.wikipedia.org/wiki/Mandragora_autumnalis
- «Mandrágora» (Mandragora autumnalis), Wikipédia — pt.wikipedia.org
- Bíblia: Génesis 30,14–16; Cântico dos Cânticos, cap. 7.
- Centro de Informação Antivenenos, INEM — inem.pt