Nas histórias sobre bruxas, há sempre um caldeirão e umas ervas escuras. Algumas dessas plantas existem e têm nome: beladona, meimendro, estramónio, mandrágora. Todas pertencem à família das Solanáceas e todas são venenosas.
Esta página explica porque ficaram ligadas às bruxas e o que dizem as fontes históricas sobre os famosos «unguentos de voar». É uma página de história. Não contém receitas nem doses, e nunca as conterá.
Aviso importante: estas plantas podem matar, mesmo em pequenas quantidades e mesmo aplicadas na pele. Não as colha, não as prepare, não as queime. Em caso de contacto ou ingestão, ligue 112 ou o CIAV — Centro de Informação Antivenenos: 800 250 250.
As plantas
| Planta | O que é |
|---|---|
| Beladona (Atropa belladonna) | Bagas negras e brilhantes, perigosas para crianças |
| Meimendro (Hyoscyamus niger) | Também chamado meimendro-negro ou beleno; existe em Portugal |
| Estramónio (Datura stramonium) | Em Portugal: figueira-do-inferno, erva-dos-feitiços; planta invasora |
| Mandrágora | A raiz em forma humana das lendas |
O que as une é a química: todas contêm alcaloides tropânicos — atropina, hiosciamina e escopolamina. Estas substâncias provocam boca seca, pupilas dilatadas, agitação, delírio e alucinações. Em dose maior, paragem respiratória e morte.
Às vezes juntam-se a esta lista a cicuta (Conium maculatum), o veneno com que Sócrates foi executado em 399 a.C., e o acónito (Aconitum). Não são Solanáceas, mas são igualmente mortais.
Beladona
O nome científico Atropa vem de Átropos, a Moira grega que cortava o fio da vida. Belladonna significa «bela senhora» em italiano: no Renascimento, algumas mulheres usavam gotas da planta para dilatar as pupilas. Era uma moda perigosa.
Meimendro
Foi usado na Antiguidade como sedativo, sempre com risco. Na Idade Média entrava em algumas cervejas. A lei da pureza da cerveja da Baviera, de 1516, acabou por excluir estes aditivos. No fim da Idade Média, o meimendro ficou muito associado à feitiçaria.
Estramónio
Hoje cresce em todo o território português, em terrenos baldios e bermas. Os nomes populares dizem tudo: figueira-do-diabo, figueira-do-inferno, erva-dos-feitiços.
Há um problema histórico: a maioria dos botânicos pensa que o estramónio veio das Américas. Se assim for, não podia estar nos unguentos das bruxas medievais europeias. As listas modernas que o incluem misturam épocas.
Os unguentos de voar
Nos processos de bruxaria dos séculos XV a XVII, surge muitas vezes a ideia de que as bruxas untavam o corpo (ou um pau, ou uma vassoura) com um unguento para voar até ao sabat.
O relato de Andrés Laguna (1545)
O testemunho mais citado é o do médico espanhol Andrés Laguna (c. 1510–1559). Por volta de 1545, em Metz, foi encontrado um pote de unguento verde e de cheiro forte na casa de um casal acusado de bruxaria.
Laguna identificou nele plantas como cicuta, «solano», meimendro e mandrágora. Para testar o unguento, aplicou-o numa paciente que sofria de insónia. Segundo o seu relato, ela dormiu profundamente durante cerca de 36 horas e, ao acordar, contou sonhos estranhos e confusos.
A conclusão de Laguna foi importante: muitas das «viagens» das bruxas seriam sonhos e delírios provocados por drogas, e não voos reais. Contou o episódio nos comentários à sua tradução castelhana de Dioscórides, publicada em Antuérpia em 1555.
Outros autores
- O napolitano Giambattista della Porta, na Magia Natural (séc. XVI), descreve ter observado pessoas em sono profundo depois de usarem estes unguentos, e compara o que viu com o que elas contaram ao acordar.
- Os demonólogos, pelo contrário, viam no unguento uma obra do Diabo. O Malleus Maleficarum (1486) atribui-lhe origens macabras.
O que dizem os historiadores
Aqui é preciso separar três coisas:
- Facto: estas plantas existem, são alucinogénias e eram conhecidas de médicos, boticários e curandeiras.
- Facto: alguns autores dos séculos XV e XVI descreveram unguentos com estas plantas.
- Discussão: não sabemos quantas pessoas acusadas de bruxaria usavam realmente estes unguentos. Muitas «confissões» de voo foram obtidas sob tortura ou pressão, e seguiam o que os juízes queriam ouvir.
Muitos historiadores são céticos em relação à ideia de uma «farmacologia secreta das bruxas». A explicação pelas drogas é interessante, mas não explica sozinha a caça às bruxas.
Na bruxaria moderna
Alguns livros de bruxaria contemporânea falam de «unguentos de voar» e chegam a dar receitas. São perigosos. A quantidade de alcaloides varia muito de planta para planta, e a absorção pela pele é imprevisível. Houve e há intoxicações graves e mortes por experiências caseiras.
Na tradição esotérica moderna responsável, o «voo» é trabalhado com meditação, visualização e símbolos, não com venenos.
Precauções
- Nunca colher, preparar, ingerir, fumar ou aplicar na pele estas plantas.
- As bagas de beladona parecem doces e atraentes para crianças. Ensine-as a não comer bagas silvestres.
- Mantenha animais afastados.
- Sinais de intoxicação: boca seca, pupilas muito dilatadas, pele quente e vermelha, coração acelerado, confusão, alucinações. É uma emergência: 112.
Para dúvidas sobre intoxicações: CIAV — 800 250 250 (24 horas).
Continue a ler
➜ Mandrágora: a raiz das lendas
➜ Dicionário do oculto: letra U (unguento)
Fontes
- «Flying ointment», Wikipedia (inglês) — en.wikipedia.org/wiki/Flying_ointment
- «Andrés Laguna», Wikipedia (espanhol) — es.wikipedia.org/wiki/Andrés_Laguna
- «Atropa belladonna» e «Hyoscyamus niger», Wikipedia (inglês) — en.wikipedia.org/wiki/Atropa_belladonna
- «Datura stramonium», Wikipédia — pt.wikipedia.org/wiki/Datura_stramonium
- Julio Caro Baroja, Las brujas y su mundo (1961).