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📚 Grimórios

Malleus Maleficarum, o «Martelo das Feiticeiras»

O Malleus Maleficarum de Heinrich Kramer (1486): quem o escreveu, o que defendia, a sua influência na caça às bruxas e o caso português. Com edições e fontes.

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do livro
  2. Quem o escreveu
  3. O que defende
  4. Uma obra polémica logo no seu tempo
  5. E em Portugal?
  6. Porque vale a pena conhecê-lo
  7. Edições e onde ler
  8. Continue a ler
  9. Fontes

O Malleus Maleficarum não é um grimório. É o contrário: um manual para identificar, interrogar e condenar bruxas, escrito por um inquisidor dominicano no fim do século XV.

O título latino significa «O martelo das feiticeiras». É um dos livros mais sombrios da história europeia — e um documento essencial para perceber como nasceu a grande caça às bruxas.

Ficha do livro

Campo Informação
Título Malleus Maleficarum («O Martelo das Feiticeiras»)
Data 1486 (primeira edição, Espira, Alemanha)
Autor Heinrich Kramer (Henricus Institoris), dominicano
Coautor atribuído Jacob Sprenger — atribuição discutida
Idioma Latim
Tipo Tratado de demonologia e manual judicial
Edições 28 edições entre 1486 e 1600

Quem o escreveu

O autor principal é Heinrich Kramer, inquisidor na Alemanha. Em 1484, o papa Inocêncio VIII publicou a bula Summis desiderantes affectibus, que confirmava os poderes de Kramer e de Jacob Sprenger como inquisidores. Kramer imprimiu a bula no início do livro, para lhe dar autoridade.

O nome de Sprenger aparece como coautor. Muitos historiadores duvidam da sua participação real e pensam que Kramer usou o nome dele para dar prestígio à obra.

O que defende

O livro divide-se em três partes:

  1. A teoria — a bruxaria existe e exige três coisas: a intenção maligna da bruxa, a ajuda do Diabo e a permissão de Deus.
  2. A prática — o que as bruxas fariam: pactos, malefícios, danos às colheitas, ao gado e às pessoas; e os remédios contra eles.
  3. O processo judicial — como acusar, interrogar, torturar e sentenciar.

Uma ideia marcou especialmente a obra: a de que as mulheres seriam mais propensas à bruxaria do que os homens. O livro está cheio de afirmações misóginas, que hoje são estudadas como exemplo do preconceito da época.

Uma obra polémica logo no seu tempo

O Malleus não foi aceite sem críticas. Teólogos da Universidade de Colónia condenaram-no por recomendar procedimentos ilegais. O próprio Kramer foi censurado pela Inquisição em 1490.

Mesmo assim, o livro foi muito usado sobretudo por tribunais seculares, e reeditado dezenas de vezes nos séculos XVI e XVII.

E em Portugal?

Portugal teve uma história diferente. O historiador José Pedro Paiva chamou-lhe, no título do seu estudo, um «país sem caça às bruxas».

A Inquisição portuguesa perseguiu feiticeiras, benzedeiras e curandeiros, mas não houve em Portugal as fogueiras em massa da Alemanha ou da Escócia. Os processos mostram sobretudo crenças populares: curas, adivinhação, feitiços de amor, orações e benzeduras.

➜ A Inquisição em Portugal

➜ Bruxaria em Portugal

➜ As Bruxas de Évora

Porque vale a pena conhecê-lo

  • Mostra como uma crença se tornou lei. A bruxaria deixou de ser vista como superstição e passou a ser crime.
  • Explica o medo das bruxas que ainda hoje aparece no folclore.
  • Lembra as vítimas. Dezenas de milhares de pessoas, na maioria mulheres, foram executadas na Europa por crimes impossíveis.

O livro não preservou conhecimento mágico verdadeiro, como por vezes se diz. Descreve o que os inquisidores imaginavam e o que arrancavam aos acusados, muitas vezes sob tortura.

Edições e onde ler

  • Montague Summers, 1928 — primeira tradução inglesa. Está disponível gratuitamente no Standard Ebooks e no Wikisource. A introdução de Summers defende a caça às bruxas e deve ser lida com espírito crítico.
  • Christopher S. Mackay, 2006 — tradução académica, com texto latino (Cambridge University Press).
  • Em português circula a edição brasileira O Martelo das Feiticeiras (Rosa dos Tempos), com introdução de Rose Marie Muraro.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ História das bruxas em Portugal

➜ Demonologia

Fontes

  • «Malleus Maleficarum», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Heinrich Kramer, Malleus Maleficarum, trad. Montague Summers (1928), Standard Ebooks — standardebooks.org
  • José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774), Lisboa, Editorial Notícias.
  • Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: Feiticeiras, Adivinhos e Curandeiros em Portugal no Século XVI, 2.ª ed., Companhia das Letras, 2004.

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