O Malleus Maleficarum não é um grimório. É o contrário: um manual para identificar, interrogar e condenar bruxas, escrito por um inquisidor dominicano no fim do século XV.
O título latino significa «O martelo das feiticeiras». É um dos livros mais sombrios da história europeia — e um documento essencial para perceber como nasceu a grande caça às bruxas.
Ficha do livro
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Malleus Maleficarum («O Martelo das Feiticeiras») |
| Data | 1486 (primeira edição, Espira, Alemanha) |
| Autor | Heinrich Kramer (Henricus Institoris), dominicano |
| Coautor atribuído | Jacob Sprenger — atribuição discutida |
| Idioma | Latim |
| Tipo | Tratado de demonologia e manual judicial |
| Edições | 28 edições entre 1486 e 1600 |
Quem o escreveu
O autor principal é Heinrich Kramer, inquisidor na Alemanha. Em 1484, o papa Inocêncio VIII publicou a bula Summis desiderantes affectibus, que confirmava os poderes de Kramer e de Jacob Sprenger como inquisidores. Kramer imprimiu a bula no início do livro, para lhe dar autoridade.
O nome de Sprenger aparece como coautor. Muitos historiadores duvidam da sua participação real e pensam que Kramer usou o nome dele para dar prestígio à obra.
O que defende
O livro divide-se em três partes:
- A teoria — a bruxaria existe e exige três coisas: a intenção maligna da bruxa, a ajuda do Diabo e a permissão de Deus.
- A prática — o que as bruxas fariam: pactos, malefícios, danos às colheitas, ao gado e às pessoas; e os remédios contra eles.
- O processo judicial — como acusar, interrogar, torturar e sentenciar.
Uma ideia marcou especialmente a obra: a de que as mulheres seriam mais propensas à bruxaria do que os homens. O livro está cheio de afirmações misóginas, que hoje são estudadas como exemplo do preconceito da época.
Uma obra polémica logo no seu tempo
O Malleus não foi aceite sem críticas. Teólogos da Universidade de Colónia condenaram-no por recomendar procedimentos ilegais. O próprio Kramer foi censurado pela Inquisição em 1490.
Mesmo assim, o livro foi muito usado sobretudo por tribunais seculares, e reeditado dezenas de vezes nos séculos XVI e XVII.
E em Portugal?
Portugal teve uma história diferente. O historiador José Pedro Paiva chamou-lhe, no título do seu estudo, um «país sem caça às bruxas».
A Inquisição portuguesa perseguiu feiticeiras, benzedeiras e curandeiros, mas não houve em Portugal as fogueiras em massa da Alemanha ou da Escócia. Os processos mostram sobretudo crenças populares: curas, adivinhação, feitiços de amor, orações e benzeduras.
Porque vale a pena conhecê-lo
- Mostra como uma crença se tornou lei. A bruxaria deixou de ser vista como superstição e passou a ser crime.
- Explica o medo das bruxas que ainda hoje aparece no folclore.
- Lembra as vítimas. Dezenas de milhares de pessoas, na maioria mulheres, foram executadas na Europa por crimes impossíveis.
O livro não preservou conhecimento mágico verdadeiro, como por vezes se diz. Descreve o que os inquisidores imaginavam e o que arrancavam aos acusados, muitas vezes sob tortura.
Edições e onde ler
- Montague Summers, 1928 — primeira tradução inglesa. Está disponível gratuitamente no Standard Ebooks e no Wikisource. A introdução de Summers defende a caça às bruxas e deve ser lida com espírito crítico.
- Christopher S. Mackay, 2006 — tradução académica, com texto latino (Cambridge University Press).
- Em português circula a edição brasileira O Martelo das Feiticeiras (Rosa dos Tempos), com introdução de Rose Marie Muraro.
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➜ História das bruxas em Portugal
Fontes
- «Malleus Maleficarum», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Heinrich Kramer, Malleus Maleficarum, trad. Montague Summers (1928), Standard Ebooks — standardebooks.org
- José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774), Lisboa, Editorial Notícias.
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: Feiticeiras, Adivinhos e Curandeiros em Portugal no Século XVI, 2.ª ed., Companhia das Letras, 2004.