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🌿 Ervas

Ervas de proteção na tradição portuguesa

Arruda, alecrim, louro, oliveira benta, alho e hipericão na tradição popular portuguesa: o que registam os estudos etnográficos e que cuidados exigem.

6 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. O que se entende por «proteção»
  2. As principais ervas de proteção
  3. O que dizem os estudos portugueses
  4. Afirmação comum | O que se sabe
  5. Como se usam, na tradição
  6. Ervas de outras tradições
  7. Precauções (obrigatório ler)
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Proteger a casa, a família e os animais é um dos usos mais antigos das plantas na tradição popular. Em Portugal, estas práticas misturam-se com a religiosidade católica: ramos bentos, ervas de São João, vasos à porta.

Não é só memória antiga. Um estudo de etnobotânica feito no Alto Minho e publicado em 2024 concluiu que cerca de 10% dos usos de plantas registados eram religiosos ou mágicos.

Aqui reunimos as ervas de proteção mais usadas em Portugal, o que está documentado sobre cada uma e os cuidados que exigem.

O que se entende por «proteção»

Na tradição, uma erva de proteção serve para afastar o mau-olhado, a inveja, as trovoadas e o azar da pessoa, da casa ou do gado. É uma crença, e nenhuma planta garante proteção.

O que a tradição oferece é um gesto simbólico: cuidar da casa, lembrar uma intenção, rezar. Para problemas concretos de segurança ou de saúde, procure ajuda concreta.

As principais ervas de proteção

Infografia das oito ervas de proteção da tradição popular portuguesa: arruda, alecrim, louro, oliveira benta, alho, hipericão, alfazema e sal grosso
As ervas de proteção mais usadas em Portugal, num relance. É tradição e crença, não um efeito comprovado — e nenhuma deve ser ingerida sem conselho de um profissional.
Planta Na tradição portuguesa
Arruda (Ruta graveolens) Contra o mau-olhado, para pessoas e animais; no quintal
Alecrim (Salvia rosmarinus) Benzido no Domingo de Ramos; ervas de São João
Louro (Laurus nobilis) Benzido no Domingo de Ramos; queimado nas trovoadas
Oliveira benta (Olea europaea) Ramo bento guardado em casa durante o ano
Alho (Allium sativum) Contra o mau-olhado e os «maus espíritos»
Hipericão (Hypericum perforatum) Erva de São João, pendurada à porta
Sal grosso (não é erva) Quase sempre ao lado das ervas

➜ Sal grosso

O que dizem os estudos portugueses

Arruda: ainda viva no Minho

No estudo de Sá e colegas (2024), feito em Castro Laboreiro, Serra d'Arga e Soajo, a arruda continua a ser usada «como protetora das pessoas e dos animais contra o azar e o mau-olhado».

Os autores notam que se mantém à mão, nas hortas e quintais, ao lado do alecrim e da salva. É uma prática atual, não só uma recordação.

➜ A arruda como amuleto

Louro e alecrim: os ramos do Domingo de Ramos

O mesmo estudo regista que o louro, tal como a arruda, era benzido no Domingo de Ramos.

Em São Paio de Gramaços (Oliveira do Hospital, na Beira), o rancho folclórico local descreve que quase toda a gente ia à missa benzer louro, alecrim e ramos de oliveira. Os ramos guardavam-se em casa e queimavam-se nas trovoadas, com uma oração a Santa Bárbara.

➜ Oração a Santa Bárbara

As ervas de São João

A noite de São João é a grande noite das plantas. Num estudo sobre o São João do Porto, a investigadora Maria José Araújo (2018) destaca o manjerico, o alho-porro, a erva-cidreira e o alecrim, e o orvalho da madrugada, a que a tradição atribuía virtudes de proteção e beleza.

A autora apoia-se nos etnógrafos Ernesto Veiga de Oliveira e Consiglieri Pedroso.

Já em 1882, José Leite de Vasconcelos registava, nas Tradições Populares de Portugal, a crença de que o Sol nasce a dançar na manhã de São João. É o pano de fundo destas práticas.

➜ As ervas de São João

➜ Noite de São João em Portugal

O hipericão

O hipericão, também chamado erva-de-são-joão ou milfurada, floresce por volta de 24 de junho. Em toda a Europa era colhido nesta altura e pendurado nas portas das casas e dos estábulos para afastar os maus espíritos e proteger pessoas e gado.

Chegou a ter o nome latino de fuga daemonum («fuga dos demónios»). O nome do género, Hypericum, é muitas vezes explicado pelo costume de o pendurar por cima de imagens religiosas.

O alho

No folclore europeu, o alho era pendurado nas janelas ou esfregado em chaminés e fechaduras para afastar demónios e vampiros. Em Portugal, a cabeça de alho à porta ou na cozinha contra o mau-olhado é tradição popular conhecida, mas não encontrámos uma recolha etnográfica concreta que a descreva.

➜ Simpatia com alho

As benzedeiras

As benzedeiras e rezadeiras portuguesas usam sobretudo palavras (as benzeduras), muitas vezes com azeite, água, sal e ramos de ervas. Os estudos que consultámos não permitem dizer com segurança que ervas usa cada uma: varia de terra para terra.

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Benzeduras portuguesas

Afirmação comum | O que se sabe

Afirmação comum O que se sabe
«A arruda afasta o mau-olhado» Crença atual, registada no Minho em 2024; sem prova de efeito
«Queimar o ramo bento afasta as trovoadas» Tradição registada na Beira; ligada a Santa Bárbara
«As ervas de São João são mais fortes» Crença popular ligada ao orvalho e ao solstício
«O hipericão expulsa demónios» Folclore europeu antigo (fuga daemonum)
«O hipericão é um calmante natural e inofensivo» Falso: interage com muitos medicamentos
«Estas plantas protegem de verdade» Não demonstrado; é gesto simbólico e de fé

Como se usam, na tradição

  • Plantas vivas em vasos à porta ou no quintal;
  • Ramos bentos atrás da porta, guardados durante o ano;
  • Saquinhos de ervas secas na carteira ou no carro;
  • Defumação da casa.

➜ Defumação espiritual

Ervas de outras tradições

A guiné e a espada-de-são-jorge aparecem muito na internet como ervas de proteção, mas vêm da tradição brasileira, não da portuguesa.

➜ Guiné

➜ Espada-de-são-jorge

Precauções (obrigatório ler)

  • Arruda: o contacto com a pele, seguido de sol, pode causar queimaduras com bolhas (fitofotodermatite). É abortiva e teratogénica e, em doses grandes, tóxica para o fígado. Use luvas; nunca a tome em chá.
  • Hipericão: tomado em chá ou suplemento, reduz o efeito de muitos medicamentos: pílula, varfarina, alguns antidepressivos, antiepiléticos, medicamentos para o coração, VIH, cancro e transplantes. Pode causar reações na pele ao sol. Não use na gravidez. Fale sempre com o médico.
  • Alho: alho cru na pele pode causar queimaduras, também em crianças. Em quantidade, aumenta o risco de hemorragia em quem toma anticoagulantes.
  • Gravidez, amamentação e crianças: não ingira ervas de proteção; evite banhos de arruda.
  • Animais: a ASPCA inclui louro, alho, alfazema e hipericão na lista de plantas tóxicas para cães. Não deixe ramos ao alcance de cães e gatos.
  • Queimar ramos e defumações: janela aberta, recipiente resistente ao calor, nunca sem vigilância, longe de cortinas, crianças, animais e pessoas com asma.
  • Em caso de ingestão ou intoxicação: ligue para o Centro de Informação Antivenenos (800 250 250).

➜ Como usar velas com segurança

Continue a ler

➜ Oração para proteção

➜ Proteção da casa na tradição de São Cipriano

➜ Plantas para ter em casa

➜ Todas as ervas

Fontes

  • Sá, A.; Mateus, T. L.; Brito, N. V.; Vieira, C.; Ribeiro, Â. M., «Ethnobotanical Inventory of Plants Used by Mountainous Rural Communities in NW Portugal», Plants, 13(19), 2824, 2024 — mdpi.com
  • Araújo, Maria José, «Simbolismos alimentares e manjares da noite mais longa do Porto», Revista Prâksis, 2018 — redalyc.org
  • Sociedade Recreativa e Lúdica Sampaense, «Usos e costumes» — srlsampaense.com
  • Leite de Vasconcelos, José, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882 — archive.org
  • «St. John's Wort», NCCIH — nccih.nih.gov
  • «Hypericum perforatum», «Ruta graveolens» e «Garlic», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Toxic and Non-Toxic Plant List — Dogs», ASPCA — aspca.org

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