Quando se pensa em magia medieval, surgem logo imagens de bruxas na fogueira. Mas a realidade foi mais variada e, em parte, surpreendente.
Na Idade Média conviviam benzeduras populares, magia «natural» estudada por sábios e uma magia ritual praticada por alguns clérigos cultos. E a grande caça às bruxas, ao contrário do que se pensa, é sobretudo posterior, dos séculos XV a XVII.
O que se entendia por magia
Os autores medievais distinguiam, de forma geral, dois tipos:
| Tipo | Ideia |
|---|---|
| Magia natural | Aproveitar propriedades ocultas de pedras, ervas e astros |
| Magia demoníaca | Obter efeitos através de espíritos ou demónios |
A primeira era muitas vezes tolerada, como parte da medicina ou da filosofia natural. A segunda era condenada pela Igreja, porque implicava pactos com demónios.
A fronteira entre oração, bênção e encantamento era, na prática, pouco clara para a maioria das pessoas.
A magia do povo
No dia a dia, a magia medieval era sobretudo proteção e cura:
- orações e fórmulas para curar ou afastar o mal;
- amuletos com nomes de santos ou palavras sagradas;
- ervas colhidas em dias especiais, como a noite de São João;
- adivinhações para o amor, as colheitas ou o tempo.
Muitas destas práticas sobreviveram em Portugal até ao século XX, nas benzedeiras e nos ensalmos.
A magia dos letrados
Entre os séculos XII e XIII, a Europa recebeu, através de traduções do árabe, muitos textos de astrologia, alquimia e magia. Destacam-se:
- Picatrix — tratado árabe de magia astral (Ghāyat al-Ḥakīm), traduzido para castelhano na corte de Afonso X de Castela, entre 1256 e 1258, e depois para latim.
- Ars Notoria — orações e figuras para obter conhecimento e memória, atribuídas a Salomão.
- Livro Jurado de Honório — texto ritual dos séculos XIII–XIV.
O historiador Richard Kieckhefer mostrou que muitos praticantes da chamada necromancia eram clérigos com formação: sabiam latim e liturgia, e usavam-nas para esconjurar espíritos.
A Clavícula de Salomão, que muitos julgam medieval, é conhecida sobretudo por manuscritos dos séculos XV e XVI.
A posição da Igreja
Durante grande parte da Idade Média, a Igreja via a crença em bruxas voadoras como ilusão. Um texto célebre, o Canon Episcopi (registado por volta de 906), afirma que as mulheres que julgam cavalgar de noite com a deusa Diana são enganadas pelo demónio.
A mudança dá-se no fim da Idade Média. Teólogos passam a ver a bruxaria como pacto real com o Diabo e seita organizada. O Malleus Maleficarum, publicado em 1486–1487, é o símbolo dessa viragem.
E em Portugal?
As leis do reino (as Ordenações) previam castigos para os feiticeiros. Mas a perseguição sistemática só começa com o Tribunal do Santo Ofício, instalado em Portugal em 1536, já no início da Idade Moderna.
Mesmo então, os processos por feitiçaria em Portugal foram menos numerosos e menos mortíferos do que noutras regiões da Europa. A maioria envolvia curandeiras, benzedeiras e adivinhas.
Mitos frequentes
- «Queimaram milhões de bruxas na Idade Média.» Não. As estimativas dos historiadores para toda a Europa rondam dezenas de milhares de execuções, sobretudo entre 1450 e 1750.
- «O Livro de São Cipriano é um grimório medieval.» Não há prova disso. As edições conhecidas são muito mais recentes.
➜ História do Livro de São Cipriano
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Fontes
- Kieckhefer, Richard, Magic in the Middle Ages, Cambridge University Press, 1989
- Bailey, Michael D., Magic: The Basics, Routledge, 2018
- Levack, Brian P., The Witch-Hunt in Early Modern Europe, Routledge (várias edições)
- Wikipedia, «Picatrix» — en.wikipedia.org