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Magia na Idade Média

Como se via a magia na Idade Média: magia natural, necromancia de clérigos, Picatrix, o Canon Episcopi e porque a caça às bruxas é mais tardia.

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. O que se entendia por magia
  2. A magia do povo
  3. A magia dos letrados
  4. A posição da Igreja
  5. E em Portugal?
  6. Mitos frequentes
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Quando se pensa em magia medieval, surgem logo imagens de bruxas na fogueira. Mas a realidade foi mais variada e, em parte, surpreendente.

Na Idade Média conviviam benzeduras populares, magia «natural» estudada por sábios e uma magia ritual praticada por alguns clérigos cultos. E a grande caça às bruxas, ao contrário do que se pensa, é sobretudo posterior, dos séculos XV a XVII.

O que se entendia por magia

Os autores medievais distinguiam, de forma geral, dois tipos:

Tipo Ideia
Magia natural Aproveitar propriedades ocultas de pedras, ervas e astros
Magia demoníaca Obter efeitos através de espíritos ou demónios

A primeira era muitas vezes tolerada, como parte da medicina ou da filosofia natural. A segunda era condenada pela Igreja, porque implicava pactos com demónios.

A fronteira entre oração, bênção e encantamento era, na prática, pouco clara para a maioria das pessoas.

A magia do povo

No dia a dia, a magia medieval era sobretudo proteção e cura:

  • orações e fórmulas para curar ou afastar o mal;
  • amuletos com nomes de santos ou palavras sagradas;
  • ervas colhidas em dias especiais, como a noite de São João;
  • adivinhações para o amor, as colheitas ou o tempo.

Muitas destas práticas sobreviveram em Portugal até ao século XX, nas benzedeiras e nos ensalmos.

➜ Feitiçaria portuguesa

➜ Bruxaria em Portugal

A magia dos letrados

Entre os séculos XII e XIII, a Europa recebeu, através de traduções do árabe, muitos textos de astrologia, alquimia e magia. Destacam-se:

  • Picatrix — tratado árabe de magia astral (Ghāyat al-Ḥakīm), traduzido para castelhano na corte de Afonso X de Castela, entre 1256 e 1258, e depois para latim.
  • Ars Notoria — orações e figuras para obter conhecimento e memória, atribuídas a Salomão.
  • Livro Jurado de Honório — texto ritual dos séculos XIII–XIV.

O historiador Richard Kieckhefer mostrou que muitos praticantes da chamada necromancia eram clérigos com formação: sabiam latim e liturgia, e usavam-nas para esconjurar espíritos.

A Clavícula de Salomão, que muitos julgam medieval, é conhecida sobretudo por manuscritos dos séculos XV e XVI.

➜ Chave de Salomão

➜ Grimórios

A posição da Igreja

Durante grande parte da Idade Média, a Igreja via a crença em bruxas voadoras como ilusão. Um texto célebre, o Canon Episcopi (registado por volta de 906), afirma que as mulheres que julgam cavalgar de noite com a deusa Diana são enganadas pelo demónio.

A mudança dá-se no fim da Idade Média. Teólogos passam a ver a bruxaria como pacto real com o Diabo e seita organizada. O Malleus Maleficarum, publicado em 1486–1487, é o símbolo dessa viragem.

➜ Malleus Maleficarum

➜ Demonologia

E em Portugal?

As leis do reino (as Ordenações) previam castigos para os feiticeiros. Mas a perseguição sistemática só começa com o Tribunal do Santo Ofício, instalado em Portugal em 1536, já no início da Idade Moderna.

Mesmo então, os processos por feitiçaria em Portugal foram menos numerosos e menos mortíferos do que noutras regiões da Europa. A maioria envolvia curandeiras, benzedeiras e adivinhas.

➜ A Inquisição em Portugal

➜ As Bruxas de Évora

Mitos frequentes

  • «Queimaram milhões de bruxas na Idade Média.» Não. As estimativas dos historiadores para toda a Europa rondam dezenas de milhares de execuções, sobretudo entre 1450 e 1750.
  • «O Livro de São Cipriano é um grimório medieval.» Não há prova disso. As edições conhecidas são muito mais recentes.

➜ História do Livro de São Cipriano

Continue a ler

➜ Magia grega antiga

➜ Magia renascentista

➜ História do ocultismo

Fontes

  • Kieckhefer, Richard, Magic in the Middle Ages, Cambridge University Press, 1989
  • Bailey, Michael D., Magic: The Basics, Routledge, 2018
  • Levack, Brian P., The Witch-Hunt in Early Modern Europe, Routledge (várias edições)
  • Wikipedia, «Picatrix» — en.wikipedia.org

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