Mediunidade é, segundo quem nela acredita, a capacidade de servir de intermediário entre os vivos e os espíritos. A pessoa com essa capacidade chama-se médium.
A palavra e a classificação mais conhecida vêm do espiritismo de Allan Kardec. A ideia está também presente na umbanda e, de outra forma, noutras religiões.
Nesta página separamos três coisas: o que a doutrina ensina, o que a história documenta e o que a ciência encontrou.
Ficha
| Origem do termo | Espiritismo francês, séc. XIX |
| Obra de referência | Allan Kardec, O Livro dos Médiuns (1861) |
| Tradições | Espiritismo, umbanda; o transe existe noutras religiões |
| Estatuto científico | Sem prova de comunicação com os mortos |
Como começou: as irmãs Fox (1848)
O espiritualismo moderno costuma datar-se de 1848, em Hydesville, no estado de Nova Iorque. As irmãs Kate e Margaretta Fox diziam comunicar com um espírito através de pancadas.
Fizeram sessões públicas a partir de 1849 e tornaram-se famosas. Em 1888, Margaretta mostrou em público, em Nova Iorque, como produzia as pancadas estalando as articulações dos dedos dos pés. Em 1889 retratou-se, dizendo ter sido pressionada. As duas morreram na pobreza, sem que a polémica terminasse.
Nos anos 1850, as mesas girantes espalharam-se pela Europa. Foi nesse ambiente que surgiu Kardec.
Allan Kardec e o espiritismo
Allan Kardec era o pseudónimo do pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail. Publicou O Livro dos Espíritos em 1857 e O Livro dos Médiuns em 1861.
No espiritismo, a mediunidade é vista como uma faculdade natural, não como um dom sobrenatural reservado a poucos. Kardec escreve que toda a pessoa que sente, em qualquer grau, a influência dos espíritos é médium. Mas o nome reserva-se a quem tem a faculdade bem marcada.
➜ Espiritismo: a doutrina de Allan Kardec
Os tipos de médiuns segundo Kardec
No capítulo XIV de O Livro dos Médiuns, Kardec descreve estas categorias:
| Tipo | O que seria, segundo a doutrina |
|---|---|
| Efeitos físicos | Ruídos, pancadas, movimento de objetos |
| Sensitivos | Sentem a presença dos espíritos |
| Audientes | Ouvem os espíritos |
| Falantes | O espírito fala pela sua boca (hoje «psicofonia») |
| Videntes | Veem os espíritos |
| Sonambúlicos | Atuam em estado de sonambulismo |
| Curadores | Curam pelo toque ou pela prece (os «passes») |
| Pneumatógrafos | Obtêm escrita direta, sem mão humana |
Noutro capítulo, Kardec trata os médiuns escreventes (a psicografia), que divide em mecânicos, intuitivos, semimecânicos e inspirados.
Na doutrina espírita, a mediunidade deve ser exercida sem cobrar, com base no princípio evangélico «dai de graça o que de graça recebestes».
O espiritismo em Portugal
O espiritismo chegou a Portugal no final do século XIX. Um dos médiuns mais conhecidos foi Fernando de Lacerda (1865–1918), que publicou mensagens obtidas por escrita automática.
Em 1925 realizou-se em Lisboa o I Congresso Espírita Português e, em 1926, foi constituída a Federação Espírita Portuguesa. Publicava a Revista de Metapsicologia e mantinha cursos e biblioteca.
Em 1953, durante o Estado Novo, a Federação foi encerrada por ordem do Governo. Só voltou a funcionar depois do 25 de Abril de 1974.
Umbanda e candomblé
Estas são religiões afro-brasileiras com fiéis também em Portugal, e merecem respeito como qualquer religião.
Na umbanda, nascida no Brasil no início do século XX, os médiuns recebem guias espirituais, como caboclos e pretos-velhos, durante as giras. A umbanda junta elementos africanos, católicos, indígenas e espíritas.
No candomblé, a lógica é outra: são os orixás que se manifestam nos iniciados em transe, no contexto do culto. Muitos praticantes não usam a palavra «mediunidade» para o descrever.
➜ Umbanda
As investigações e as fraudes
No século XIX, os médiuns tornaram-se célebres e muito investigados. Em 1882 foi fundada em Londres a Society for Psychical Research, para estudar estes fenómenos com método.
Muitos casos terminaram em fraude descoberta. A médium italiana Eusapia Palladino foi estudada por cientistas de vários países. Em 1910, em sessões ligadas à Universidade de Columbia, dois ilusionistas escondidos viram-na usar o pé para levantar a mesa e produzir pancadas.
Nos anos 1920, o ilusionista Harry Houdini dedicou-se a desmascarar médiuns.
O que diz a ciência hoje
O consenso científico é que não existe prova de que os médiuns comuniquem com os mortos. As explicações mais estudadas são:
- Leitura fria: deduzir informações pela aparência, pelas reações e por perguntas vagas.
- Efeito ideomotor: movimentos inconscientes, como nas mesas girantes e no copo.
- Dissociação: estados de consciência alterada em que a pessoa sente que não é ela a agir.
Há também estudos que observam o transe sem julgar a crença. Em 2012, investigadores brasileiros e norte-americanos (Peres e colegas) estudaram por imagem cerebral dez médiuns a psicografar. Os mais experientes mostraram menor atividade em várias áreas do cérebro durante o transe. O estudo descreve o que acontece no cérebro, mas não prova a origem das mensagens.
Crença ou facto?
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «O espiritismo começou com as irmãs Fox» | O espiritualismo moderno, sim (1848); o espiritismo é de Kardec (1857) |
| «Os médiuns falam com os mortos» | É uma crença religiosa; não há prova científica |
| «A ciência já provou a mediunidade» | Não; muitos casos célebres foram fraudes |
| «Mediunidade é doença mental» | Também não é correto; muitos médiuns vivem sem sofrimento |
| «É preciso pagar para desenvolver a mediunidade» | O próprio espiritismo defende que deve ser gratuita |
Sensibilidade ou sinal de alerta?
Muitas pessoas dizem-se «sensíveis» e vivem bem com isso. Mas ouvir vozes, ver figuras ou sentir-se controlado por algo exterior pode ter causas médicas.
Procure um médico ou psicólogo se estas experiências lhe causam sofrimento, surgem de repente ou afetam o sono, o trabalho ou as relações.
➜ Presenças espirituais: o que se sente e porquê
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➜ Comunicar com os mortos: a história
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Fontes
- Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, 2.ª parte, cap. XIV «Dos médiuns» — kardecpedia.com
- «Fox sisters», Wikipedia — en.wikipedia.org
- ADEP, «Vultos da história do movimento espírita português» — adep.pt; arquivo da Federação Espírita Portuguesa, AATT — aatt.org
- «Eusapia Palladino», Wikipedia — en.wikipedia.org
- J. F. Peres et al., «Neuroimaging during Trance State: A Contribution to the Study of Dissociation», PLOS ONE, 2012 — journals.plos.org