«Treze palavras ditas e retornadas» é o nome popular de uma oração muito antiga na memória portuguesa. Também se chama Oração do Anjo Custódio ou Romance do Anjo Custódio.
É uma oração em forma de diálogo e de contagem. O Anjo (ou um homem chamado Custódio) vence o Diabo dizendo, de um a treze, uma verdade sagrada para cada número. Quando chega ao treze, o Diabo foge.
Nesta página mostramos o texto impresso no Livro de São Cipriano do século XIX, o que se sabe da tradição oral e o que dizem os estudiosos do folclore.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nomes | Treze Palavras Ditas e Retornadas; Doze Palavras Ditas e Retornadas; Oração ou Romance do Anjo Custódio |
| Tipo | Oração popular (não litúrgica), em forma de conto cumulativo |
| Autor | Desconhecido; tradição oral |
| Onde se conhece | Portugal (recolhas no Minho, Beiras, Beira Baixa), Brasil, Espanha (Las doce palabras retorneadas) |
| Mais antiga versão impressa que citamos | Grande Livro de S. Cypriano, Lisboa, Livraria Económica, séc. XIX |
| Finalidade na tradição | Afastar o Diabo; proteger na hora da morte e da tentação |
Como é a oração
A estrutura é sempre a mesma:
- O Diabo (ou Lúcifer) desafia alguém: «diz-me a primeira palavra».
- A pessoa responde com uma verdade sagrada ligada ao número um.
- O Diabo pede a segunda, e a pessoa repete a primeira e acrescenta a segunda. Por isso as palavras são «ditas e retornadas»: cada resposta volta a dizer as anteriores.
- Assim até ao treze. O Diabo não tem resposta para o treze e desaparece.
Esta forma, em que cada estrofe acumula as anteriores, é a de um conto cumulativo. É fácil de decorar, e por isso passou de boca em boca durante gerações.
O texto do Livro de São Cipriano (séc. XIX)
No Grande Livro de S. Cypriano ou thesouro do feiticeiro (Lisboa, Livraria Económica), a oração aparece em dois capítulos seguidos da primeira parte.
A lenda contada pelo Livro
O capítulo X chama-lhe «Oração do Anjo Custodio» e diz que foi ensinada a Cipriano por São Gregório, depois da sua conversão. Promete muito: quem a disser uma vez por dia livra-se do poder de Satanás num raio de «doze leguas». Estas promessas são do Livro, não factos.
O capítulo XI conta um episódio. Já convertido, Cipriano encontra de noite uns fantasmas que são bruxas que se querem salvar. Adormece, sonha com a oração do Anjo Custódio, acorda diante de um anjo que logo desaparece, e diz a oração. Aparecem catorze bruxas. Cipriano salva-as e, «com a oração do Anjo Custodio, ligou todos os demonios».
O capítulo termina com uma frase que mostra bem o espírito do livro:
Diz S. Cypriano que esta oração não só serve para o bem como para o mal, porém, para o mal, é preciso não se acabar.
O diálogo: «Lucifer e o Anjo»
O capítulo XII traz o texto. Transcrevemo-lo da mesma edição, que está em domínio público. Mantemos a ortografia da época.
— Anjo Custodio, amigo meu, queres salvar-te?
— Sim quero, e… Sou o Anjo Custodio, teu amigo, não sou?
— Queres ter salvação?
— Sim, quero.
— E quaes são as principaes virtudes do ceu que te podem salvar?
— São:
1.ª O sol mais claro que a lua;
2.ª As duas taboas de Moysés, onde Nosso Senhor poz os seus sagrados pés;
3.ª As tres pessoas da Santissima Trindade e toda a familia da christandade;
4.ª São os quatro Evangelistas, João, Marcos, Matheus e Lucas;
5.ª São as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Christo, que tanto soffreu para te quebrar as tuas forças, Lucifer!
6.ª São os seis cyrios bentos que illuminaram em torno da sepultura de Nosso Senhor Jesus Christo, e me illuminam a mim para me livrar das astucias de Lucifer, o deus dos infernos;
7.ª São os sete Sacramentos da Eucharistia, porque sem elles ninguem tem salvação;
8.ª São as oito bemaventuranças;
9.ª São os nove mezes em que a Virgem Maria trouxe no ventre seu amado Filho Jesus Christo, e por esta virtude somos livres do teu poder, Satanaz!
10.ª São os dez mandamentos da Lei de Deus, porque, quem n'elles crêr, não entra nas profundezas infernaes;
11.ª São as onze mil virgens que pedem incessantemente ao Senhor por todos nós;
12.ª São os doze apostolos que acompanharam sempre Nosso Senhor Jesus Christo até á hora da sua morte e depois na sua eterna redempção;
13.ª São os treze raios do sol que eternamente te esconjuram a ti, Satanaz!
N'esta occasião Satanaz submergiu-se, acompanhado d'um trovão e relampago enviado por Deus Nosso Senhor.
(O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro, Lisboa, Livraria Económica, [18--], 1.ª parte, pp. 98–99.)
O Livro acrescenta: «esta oração é dita toda, e sendo necessario, repete-se tres vezes». Nesta versão impressa, as palavras não são repetidas a cada número, como na tradição oral: o editor pôs só a lista final.
Na tradição oral portuguesa
A oração não nasceu do Livro. Os folcloristas recolheram-na da boca do povo em várias regiões, muitas vezes com diferenças:
- no Minho, com a figura de Custódio, recolhida por Joaquim e Fernando Pires de Lima (Tradições Populares de Entre-Douro-e-Minho, 1938);
- na Beira, com um homem chamado Cristóvão, recolhida por Jaime Lopes Dias (Etnografia da Beira, vol. III, 1929);
- em Idanha-a-Nova, onde o arquivo Memória Media gravou em 2010 uma versão cantada por uma mulher nascida em 1928, com o título «As 13 palavras ditas e tornadas».
Nas versões orais, as palavras mudam. O treze, por exemplo, é quase sempre «treze raios tem o sol», como no Livro. Mas outros números variam de terra para terra.
Era dita sobretudo em três situações:
- à cabeceira de quem estava a morrer, para que o Diabo não levasse a alma;
- em momentos de medo ou tentação;
- aprendida de cor pelas crianças, nos serões.
Estes são costumes populares, registados pelos etnógrafos. Não são práticas da Igreja.
Uma forma que existe noutras línguas
O folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo publicou uma versão em Os melhores contos populares de Portugal (1944). Em Espanha, Aurelio M. Espinosa estudou Las doce palabras retorneadas, recolhidas em Cuenca, e defendeu que o tema teria origem oriental.
No catálogo internacional de motivos de Stith Thompson (Motif-Index of Folk-Literature), este tipo de conto numérico cumulativo tem o código Z21.2.
A mesma ideia de contar de um a doze (ou treze) com símbolos religiosos aparece em cantigas de vários países da Europa. Não há prova de qual veio primeiro.
O que não se sabe (e o que é exagero)
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «Foi ensinada por São Gregório a São Cipriano» | É o que conta o Livro; é lenda |
| «Afasta o Diabo a doze léguas» | Promessa do Livro, sem fundamento |
| «Tem de ser dita sem se enganar, senão falha» | Crença popular |
| «É uma oração da Igreja» | Não faz parte da liturgia |
A oração tem valor como património da tradição oral portuguesa e como documento do que se acreditava. Ninguém pode garantir o que ela faz.
Continue a ler
➜ Os anjos no Livro de São Cipriano
➜ O Grande Livro de S. Cypriano: a Vida e o índice completo
➜ Oração da meia-noite de São Cipriano
Fontes
- O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro, Lisboa, Livraria Económica, [18--] — Biblioteca Nacional de Portugal, purl.pt/16504; digitalização no Wikimedia Commons
- Memória Media, «As 13 palavras ditas e tornadas», Idanha-a-Nova, 2010 — memoriamedia.net
- Luís da Câmara Cascudo, Os melhores contos populares de Portugal, Rio de Janeiro, Dois Mundos, 1944 — referências a Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira III (1929), e a J. e F. Pires de Lima, Tradições Populares de Entre-Douro-e-Minho (1938); texto em Consciência.org
- Aurelio M. Espinosa, estudo sobre Las doce palabras retorneadas, Revista de Filología Española, XVII.
- Stith Thompson, Motif-Index of Folk-Literature, motivo Z21.2.