O gato preto ao lado da bruxa é uma das imagens mais antigas do imaginário da bruxaria. Por trás dela está uma crença concreta: a de que cada bruxa tinha um «familiar», um espírito ao seu serviço, muitas vezes com forma de animal.
Esta crença não é universal. É sobretudo inglesa e escocesa, e deixou marcas em processos judiciais reais, onde mulheres foram condenadas à morte por causa de gatos, sapos e cães.
Esta página explica de onde vem a ideia, o que dizem os processos e o que se passou em Portugal, onde a palavra «familiar» tinha um sentido muito diferente.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Familiar, espírito familiar, imp (diabinho) |
| Tipo | Figura da demonologia e do folclore da bruxaria |
| Origem do nome | Latim familiaris, «da casa», «doméstico» |
| Tradições | Processos de bruxaria ingleses e escoceses; Nova Inglaterra; Wicca moderna |
| Formas | Gato, sapo, cão, rato, furão, ave; às vezes forma humana |
A palavra
Em latim, familiaris era o que pertencia à casa: o criado, o próximo. Um «espírito familiar» é, à letra, um espírito doméstico, que vive com a pessoa e a serve.
Nas Bíblias inglesas antigas, como a King James (1611), a expressão familiar spirit traduz a palavra hebraica 'ob, usada para os espíritos consultados pelos necromantes. A «mulher de Endor», que Saul consulta em 1 Samuel 28, é descrita como mulher «que tem um espírito familiar».
Os familiares nos processos ingleses
Chelmsford, 1566: o gato Satã
Um dos primeiros grandes processos de bruxaria em Inglaterra decorreu em Chelmsford, no Essex, em 1566.
Segundo os depoimentos, Elizabeth Francis recebera da avó um gato chamado «Satã», que alimentava com leite e gotas do seu sangue. Mais tarde deu-o a Agnes Waterhouse em troca de um bolo. Agnes terá guardado o gato num pote forrado de lã e depois transformado-o num sapo.
Agnes Waterhouse foi enforcada a 29 de julho de 1566. O caso foi publicado em panfletos que popularizaram o modelo da bruxa com o seu animal.
Matthew Hopkins e os diabinhos (1644–1647)
O caso mais famoso é o de Matthew Hopkins, o autoproclamado «caçador-geral de bruxas». Entre 1644 e 1647, ele e John Stearne levaram à forca mais pessoas acusadas de bruxaria do que todos os caçadores ingleses dos 160 anos anteriores.
Um dos seus métodos era o watching: manter a acusada acordada e vigiada durante dias, à espera de que o familiar aparecesse. Na prática, era privação de sono.
Em 1644, em Manningtree, uma mulher que não dormia havia quatro noites confessou os nomes dos seus diabinhos: Pyewacket, Elemanzer, Peck in the Crown e Grizzel Greedigut. Um relato da época dizia que eram nomes «que nenhum mortal poderia inventar». Hoje leem-se como o que eram: confissões obtidas sob tortura.
A marca da bruxa
Acreditava-se que o familiar se alimentava do sangue da bruxa através de uma pequena marca ou mamilo no corpo. Os acusados eram despidos e examinados à procura dessas marcas. Verrugas, sinais e cicatrizes serviam de prova.
Uma crença sobretudo britânica
Os familiares animais aparecem sobretudo nos processos da Grã-Bretanha e, a partir dela, da Nova Inglaterra. Em Salém, em 1692, falou-se de uma ave amarela e de gatos e cães que incitavam a fazer mal.
No continente europeu, os tratados de demonologia como o Malleus Maleficarum falam sobretudo do pacto com o diabo e do sabat, não de animais domésticos alimentados com sangue.
A historiadora Emma Wilby estudou a ligação entre os familiares das bruxas e os espíritos auxiliares dos curandeiros populares britânicos, os cunning folk.
Houve também uma lenda letrada: dizia-se que o cão negro do mago Cornélio Agrippa, chamado «Monsieur», era um demónio familiar.
E em Portugal?
O «familiar» era outra coisa
Em Portugal, a palavra «familiar» evocava sobretudo o familiar do Santo Ofício: um leigo ao serviço da Inquisição, que ajudava a prender os suspeitos. Era um cargo de prestígio, não um espírito.
O demónio em forma de animal
Nos processos portugueses de feitiçaria que consultámos, não encontrámos o modelo inglês do animal doméstico alimentado com sangue. O que aparece é o demónio que se mostra em forma de animal e com quem a acusada teria feito pacto.
Um exemplo: em 1749, Joana Antónia, uma jovem escravizada de 16 anos, natural de Angola, foi processada pela Inquisição de Lisboa. Confessou que o demónio lhe aparecia «umas em figura de homem outras em figura de cão e gato» e que lhe dera sangue do braço esquerdo. Saiu em auto da fé privado, com penitências espirituais.
O historiador José Pedro Paiva mostrou que Portugal teve processos de feitiçaria, mas não conheceu uma caça às bruxas comparável à inglesa ou à alemã.
➜ O diabo na tradição portuguesa
O familiar hoje
Desde o século XX, alguns praticantes da Wicca e de outras formas de bruxaria moderna chamam «familiar» a um animal de estimação com quem sentem uma ligação especial, ou a um espírito auxiliar invisível. É uma reinterpretação moderna, pacífica, muito longe dos processos de tortura de onde a palavra veio.
O gato preto, esse, continua a sofrer com a superstição. Não há razão nenhuma para o temer.
➜ Wicca
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➜ Dicionário do oculto: letra F
Fontes
- Wikipedia (inglês), Familiar, Agnes Waterhouse, Matthew Hopkins e Pyewacket (familiar spirit)
- Citália Restauro, «Heresia e bruxaria na Inquisição portuguesa» — processo de Joana Antónia, ANTT, PT/TT/TSO-IL/028/00348
- Priberam, familiar — «familiar do Santo Ofício»
- José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774) (Lisboa, Notícias, 1997)
- Emma Wilby, Cunning Folk and Familiar Spirits (Sussex Academic Press, 2005)