Portugal não teve grandes fogueiras de bruxas. Mas teve feiticeiras, curandeiros e adivinhos reais, com nome, terra e processo na Torre do Tombo.
Nesta página reunimos os casos mais conhecidos. Separamos com clareza pessoas documentadas (com processo ou estudo histórico) e figuras de lenda. Para cada uma indicamos a fonte.
Atenção: «bruxa» era uma acusação. Quase todas estas pessoas eram curandeiras, adivinhas ou simplesmente pobres e marginalizadas. Não sabemos o que cada uma «acreditava fazer» para além do que ficou escrito pelos seus juízes.
➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa
Pessoas documentadas
As mulheres do processo de Lisboa (1559)
O caso mais duro da história portuguesa não foi da Inquisição: foi da justiça civil. Em 1559, em Lisboa, cinco mulheres acusadas de bruxaria foram condenadas e queimadas.
A rainha D. Catarina, regente, mandou depois fazer um inquérito geral: foram presas mais 27 pessoas, das quais uma foi executada. As outras foram presas, degredadas ou açoitadas. Os nomes das mulheres não são conhecidos do grande público.
Fonte: Brian P. Levack; Yvonne Cunha Rego (ed.), Feiticeiros, profetas e visionários, 1981.
Maria Gonçalves, a «Arde-lhe-o-rabo» (Estremoz – Aveiro – Bahia, séc. XVI)
Nascida em Estremoz, casada em Aveiro, foi degredada para Pernambuco e acabou na Bahia, onde viveu cerca de dez anos. Ficou conhecida pela alcunha «Arde-lhe-o-rabo».
Na Visitação do Santo Ofício à Bahia (1591–1593), várias mulheres acusaram-na de feitiços de amor, pacto com o Diabo e de dizer que afundava navios. Ela confessou que enganava os clientes. A sentença, de 24 de janeiro de 1593, foi leve: penitências e regresso a Portugal.
Fonte: Wikipédia, «Maria Gonçalves Cajada», a partir dos registos da Primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil.
Luís de la Penha, o bruxo de Évora (1581–1626)
Nascido em 1581, filho de pai castelhano, viveu toda a vida em Évora e tinha fama de curandeiro e adivinho. Foi preso em 1617 e reconciliado em 1619. Voltou a ser preso por rituais de procura de tesouros e foi executado em Évora em 1626.
É o caso mais citado de execução por feitiçaria decidida pela Inquisição portuguesa.
Fonte: processo PT/TT/TSO-IE/021/08179-1; Francisco Bilou, Boletim do Arquivo Distrital de Évora, 2015.
Antónia Maria (Beja, 1712–1723)
Mulher de Beja, presa em 1712 e degredada para Angola. Viveu depois no Recife e voltou a ser presa. Nas confissões invocava Maria Padilha em conjuros de amor. A sua história está contada em pormenor na página sobre Maria Padilha.
➜ Maria Padilha e a Inquisição portuguesa
Luzia Pinta (Luanda – Sabará – Lisboa, séc. XVIII)
Nascida em Luanda, levada escravizada para Sabará (Minas Gerais), comprou a liberdade em 1718. Dirigia cerimónias de calundu, uma prática de cura e adivinhação de origem angolana, frequentadas por gente de várias classes.
Foi presa em 1741, enviada para Lisboa, torturada e condenada a degredo em Castro Marim, no Algarve.
Fonte: estudo do historiador Douglas Lima, noticiado no Estado de Minas, maio de 2026.
Domingos Álvares (Benim – Brasil – Lisboa, c. 1710–depois de 1749)
Curandeiro nascido na região de Mahi (atual Benim), vendido como escravo para o Brasil. Em Pernambuco e no Rio de Janeiro ganhou fama de curador. Foi preso em 1742 e julgado em Lisboa: em 1744 foi açoitado e degredado para Castro Marim. Fugiu, foi novamente preso e voltou a ser julgado em 1749. Depois disso desaparece dos documentos.
Fonte: James H. Sweet, Domingos Álvares, African Healing, and the Intellectual History of the Atlantic World, 2011.
➜ Bruxaria africana e os africanos em Portugal
Arminda de Jesus (Soalhães, 1933): vítima da crença
O último caso desta lista é ao contrário: Arminda de Jesus não era feiticeira. Era uma mulher de Soalhães (Marco de Canaveses), acusada pelos vizinhos de bruxaria e de ter «o diabo no corpo».
A 25 de fevereiro de 1933 foi espancada e queimada viva. Em 1934, o tribunal de Marco de Canaveses condenou quatro réus a prisão e degredo. O pároco local atribuiu parte do clima de superstição ao Livro de São Cipriano.
É uma lembrança dura: o perigo, na história, esteve quase sempre do lado de quem acusava.
Fonte: Museu Virtual do Tribunal da Relação do Porto, «Processo de Soalhães».
Figuras de lenda
A Lagarrona, a «Feiticeira de Évora»
A mais famosa «bruxa» portuguesa é uma personagem de lenda. Surge num livro de 1739, a História das Antiguidades de Évora: uma moura com poderes mágicos que protege o filho apaixonado por uma cristã. Mais tarde entrou no Livro de São Cipriano como «A Feiticeira de Évora». Não há prova de que tenha existido.
➜ As bruxas de Évora: a lenda da Lagarrona e a história real
Maria Padilha
María de Padilla foi uma mulher real, amante do rei Pedro I de Castela (séc. XIV). A fama de feiticeira é lenda posterior. Mesmo assim, o nome passou a ser invocado em conjuros amorosos em Portugal e no Brasil.
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Fontes
- Wikipedia: «Lisbon witch trial», «Luís de la Penha», «Maria Gonçalves Cajada»
- Francisco Bilou, «Luís de la Penha: bruxo, vidente e curandeiro na Évora de Seiscentos», 2015 — academia.edu
- James H. Sweet, Domingos Álvares, African Healing, and the Intellectual History of the Atlantic World, UNC Press, 2011 — resumo em enslaved.org
- «Professor: estudo de vítima da Inquisição…», Estado de Minas, 2026 (Luzia Pinta) — em.com.br
- Museu Virtual do Tribunal da Relação do Porto, «Processo de Soalhães» — museuvirtual.trp.pt