Simão Mago é o primeiro mago com nome próprio na história cristã. Aparece nos Atos dos Apóstolos, na Samaria do século I, e deu à língua portuguesa a palavra simonia.
À volta desta breve passagem bíblica cresceu uma enorme lenda: duelos de prodígios com São Pedro, um voo sobre Roma e uma queda fatal. Os primeiros escritores cristãos fizeram dele ainda o «pai de todas as heresias».
Nesta ficha separamos o texto bíblico, as acusações dos Padres da Igreja e as lendas posteriores.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Simão Mago (latim Simon Magus) |
| Época | Século I d.C. |
| Origem | Samaria; Justino Mártir diz que era de Gitta |
| Ocupação | Mago, segundo os Atos dos Apóstolos |
| Obras atribuídas | A Grande Revelação (Apophasis Megale), citada por Hipólito; autoria incerta |
| Conhecido por | Tentar comprar poderes aos apóstolos; origem da palavra «simonia» |
O que diz a Bíblia (Atos 8, 9–24)
Este é o único relato do Novo Testamento sobre Simão.
- Simão praticava magia na Samaria e impressionava o povo, que dizia dele: «Este é o poder de Deus a que chamam Grande».
- Quando o diácono Filipe pregou na região, Simão acreditou e foi batizado.
- Os apóstolos Pedro e João chegaram depois e impuseram as mãos aos novos cristãos. Simão ofereceu-lhes dinheiro para ter o mesmo poder.
- Pedro respondeu com dureza: que o dinheiro perecesse com ele, por ter julgado que o dom de Deus se comprava. Simão pediu que rezassem por ele.
O texto termina aqui. Não diz que Simão fundou uma seita nem que voltou a encontrar Pedro.
A simonia
Do episódio nasceu a palavra simonia: a compra ou venda de coisas sagradas, como sacramentos ou cargos da Igreja. Foi um dos grandes problemas da Igreja medieval.
Dante, na Divina Comédia (Inferno, canto XIX), põe os simoníacos de cabeça para baixo em buracos de pedra e abre o canto com uma invocação a Simão Mago e aos seus «míseros seguidores».
O «pai das heresias»
Os Padres da Igreja acrescentaram muito à figura.
- Justino Mártir (c. 150), ele próprio samaritano, escreveu que Simão fora a Roma no tempo do imperador Cláudio e ali fora honrado como deus, com uma estátua na ilha do Tibre dedicada «a Simão, deus santo». Andava com uma mulher chamada Helena.
- Ireneu de Lião apresentou-o como o fundador das heresias gnósticas. Segundo ele, Simão dizia que Helena era o primeiro Pensamento de Deus, caído no mundo material.
Um engano famoso: em 1574, encontrou-se na ilha do Tibre uma pedra dedicada a Semo Sancus, um deus sabino. A inscrição começava por «Semoni Sanco Deo». Os historiadores pensam que Justino confundiu este deus com Simão.
Simão e o gnosticismo
Os seguidores de Simão, os simonianos, existiram durante alguns séculos. Santo Epifânio, no séc. IV, dizia que estavam quase extintos.
Hoje discute-se se o Simão histórico teve algo a ver com o gnosticismo. Muitos investigadores pensam que os Padres da Igreja lhe atribuíram doutrinas posteriores para dar às heresias um «fundador» ligado ao tempo dos apóstolos.
A lenda: o duelo com São Pedro em Roma
Os Atos de Pedro, texto apócrifo do fim do século II, contam um confronto em Roma. Simão, para provar que era deus, elevou-se no ar sobre o Fórum. Pedro rezou, Simão caiu e partiu as pernas, morrendo pouco depois.
Outras versões põem o voo diante do imperador Nero. Nos escritos atribuídos a Clemente de Roma (as Recognições), Simão é o grande adversário de Pedro em longos debates.
Nada disto está documentado historicamente. São narrativas de propaganda religiosa, que opõem o milagre verdadeiro do apóstolo à magia enganadora.
Na história da magia
Simão Mago tornou-se o modelo do mago que quer usar o sagrado para fins próprios. A imagem do mago orgulhoso, derrotado pela oração, repete-se em muitas lendas cristãs.
Uma delas é a de São Cipriano: também um mago pagão, mas que, em vez de ser derrotado, se converte, segundo a lenda de Cipriano e Justina.
Continue a ler
Fontes
- Atos dos Apóstolos 8, 9–24 (Bíblia).
- «Simon Magus», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Simão Mago», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Simon Mago», Wikipedia — it.wikipedia.org
- Dante Alighieri, Divina Comédia, Inferno, canto XIX.