Tritémio (Johannes Trithemius) foi um abade beneditino alemão, um dos homens mais eruditos da Europa por volta de 1500. Reuniu uma biblioteca enorme, escreveu história, teologia e a primeira grande obra europeia de criptografia.
Foi também, a contragosto, um dos «magos» mais famosos do Renascimento. Um livro de códigos disfarçado de livro de espíritos colou-lhe essa fama para sempre.
Curiosamente, foi também um dos autores que atacou os feiticeiros e denunciou o verdadeiro Fausto como charlatão.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Johannes Trithemius (Tritémio); nome de família Heidenberg |
| Nascimento | 1 de fevereiro de 1462, Trittenheim (junto ao rio Mosela) |
| Morte | 13 de dezembro de 1516, Würzburg |
| Origem | Sacro Império Romano-Germânico |
| Ocupação | Monge e abade beneditino, historiador, bibliógrafo |
| Obras principais | Steganographia, Polygraphia, Antipalus maleficiorum |
| Conhecido por | Criptografia e fama de mago |
A vida (facto)
O nome «Trithemius» vem da terra natal, Trittenheim. Em 1482, quando regressava da universidade, foi apanhado por uma tempestade de neve e abrigou-se na abadia beneditina de Sponheim. Ficou como monge.
No ano seguinte, com apenas 21 anos, foi eleito abade.
A biblioteca de Sponheim
Quando chegou, a biblioteca tinha cerca de cinquenta volumes. Quando saiu, tinha mais de dois mil, uma das maiores da Alemanha. Tritémio defendia a cópia à mão dos livros, que via como um exercício espiritual para os monges, e escreveu sobre isso o De laude scriptorum (1492).
Em 1494 publicou um catálogo de 962 escritores eclesiásticos, com o início das suas obras. É considerado uma das primeiras bibliografias.
A saída para Würzburg
As tensões crescentes com a comunidade levaram-no a deixar Sponheim em 1505–1506. Tornou-se abade do mosteiro de São Tiago (o «mosteiro dos Escoceses») em Würzburg, onde ficou até morrer.
O imperador Maximiliano I consultou-o sobre questões teológicas e encomendou-lhe estudos sobre a genealogia dos Habsburgos.
A obra de escrita secreta
Steganographia
Escrita por volta de 1499, parecia um livro para chamar espíritos que levariam mensagens à distância. Na verdade, as «invocações» eram textos-disfarce com mensagens cifradas. Circulou em manuscrito, foi impressa em 1606 e entrou no Índice dos Livros Proibidos.
Só em 1996–1998 os investigadores Thomas Ernst e Jim Reeds decifraram o misterioso terceiro livro.
➜ Steganographia: magia angélica ou código secreto?
Polygraphia
Escrita em 1508 e impressa em 1518, depois da morte do autor, dedicada a Maximiliano I. Aqui a criptografia aparece sem disfarce mágico: centenas de alfabetos e tabelas para cifrar mensagens.
Na Polygraphia está também a fonte mais antiga conhecida do chamado «alfabeto tebano» ou «alfabeto das bruxas», hoje muito usado na bruxaria moderna.
Por estas duas obras, Tritémio é visto como um dos fundadores da criptografia moderna. A palavra «esteganografia» vem do seu título.
Tritémio contra os feiticeiros
É um lado pouco conhecido. Em 1508 escreveu o Antipalus maleficiorum, uma obra contra os feiticeiros e as bruxas, com uma lista de livros de magia que considerava permitidos ou proibidos.
Em 1507, numa carta ao astrólogo Johannes Virdung, descreveu um tal «Georgius Sabellicus, Faustus junior», que se gabava de ser o maior dos necromantes e de poder repetir os milagres de Cristo. Tritémio chama-lhe charlatão e impostor. É um dos documentos mais antigos sobre o Fausto histórico.
Tritémio e os seus «discípulos»
Agrippa (facto)
No inverno de 1509–1510, o jovem Cornélio Agrippa esteve com Tritémio em Würzburg. A 8 de abril de 1510 dedicou-lhe a primeira versão da Filosofia Oculta. Tritémio respondeu com uma carta em que o aconselhava a guardar esses saberes para poucos.
Paracelso (duvidoso)
A tradição apresenta também Paracelso como aluno de Tritémio. Não há registo de que se tenham encontrado. O mais provável é que Paracelso o tenha conhecido através dos livros.
Um historiador pouco fiável
Tritémio escreveu crónicas da história alemã, como os Anais de Hirsau. Hoje sabe-se que inventou fontes: um historiador franco chamado Hunibaldo e um cronista chamado Meginfrido, que nunca existiram.
É uma lição útil: até os eruditos mais respeitados podiam fabricar autoridades antigas — o mesmo mecanismo que criou tantos grimórios atribuídos a Salomão ou a Pedro de Abano.
Continue a ler
➜ A Filosofia Oculta de Agrippa
Fontes
- «Johannes Trithemius», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Johannes Trithemius», Wikipedia — de.wikipedia.org
- «Polygraphia (book)», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Johann Georg Faust», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Jim Reeds, «Solved: The Ciphers in Book III of Trithemius's Steganographia», Cryptologia, 22 (4), 1998.