Roger Bacon foi um frade franciscano inglês do século XIII, professor em Oxford e Paris. Defendeu que o conhecimento da natureza devia ser posto à prova pela experiência, numa época em que quase tudo se decidia pela autoridade dos livros.
Depois da morte, ganhou fama de mago. Contava-se que construíra uma cabeça de bronze que falava. Séculos mais tarde, puseram-lhe o nome num dos livros mais misteriosos do mundo, o manuscrito Voynich.
Esta página separa o que está documentado do que é lenda.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Roger Bacon (em latim, Rogerus Baconus) |
| Nascimento | c. 1214–1220, Inglaterra (tradicionalmente, perto de Ilchester) |
| Morte | c. 1292, Oxford |
| Origem | Inglaterra |
| Ocupação | Mestre de artes, filósofo natural, frade franciscano |
| Obras principais | Opus maius, Opus minus, Opus tertium, Perspectiva |
| Conhecido por | Ciência experimental, ótica, lendas de magia |
A vida (facto)
Bacon estudou em Oxford e ensinou em Paris, nos anos 1240, onde comentou as obras de Aristóteles sobre a natureza. Foi influenciado pelo bispo Robert Grosseteste e pelo círculo de Oxford.
Por volta de 1256–1257 entrou na Ordem Franciscana. Em 1266, o papa Clemente IV pediu-lhe que lhe enviasse os seus escritos. Bacon respondeu, em 1267–1268, com a Opus maius («Obra maior»), acompanhada da Opus minus e da Opus tertium.
Nestas obras propunha uma reforma dos estudos: línguas antigas, matemática, ótica (perspectiva) e aquilo a que chamou scientia experimentalis, a ciência que confirma pela experiência. Clemente IV morreu em 1268, e com ele terminou a proteção papal.
Bacon voltou a Oxford por volta de 1280 e aí morreu, cerca de 1292.
Esteve preso?
A tradição diz que foi encarcerado pelos superiores franciscanos por «novidades suspeitas». Mas a primeira referência a essa prisão surge cerca de oitenta anos depois da morte dele. Os historiadores atuais consideram-na duvidosa ou, pelo menos, mal explicada.
Bacon e a magia
Bacon interessava-se por astrologia, alquimia e pelo Secretum secretorum, um tratado muito lido na Idade Média, que ele próprio editou. Para ele, estas matérias podiam ser ciência da natureza bem entendida.
Ao mesmo tempo, criticava a magia de invocações. A Carta sobre as obras secretas da arte e da natureza e sobre a nulidade da magia, que lhe é atribuída (a autoria de partes é discutida), diz que muitas maravilhas se fazem pela arte e pela natureza, sem demónios. Imagina barcos sem remadores, carros sem animais e máquinas voadoras.
Bacon é muitas vezes citado como o primeiro europeu a descrever a pólvora por escrito. A receita com proporções aparece, porém, naquela carta de autenticidade discutida.
➜ Alquimia
A lenda: a cabeça de bronze
Depois da morte, o estudioso transformou-se em mago de feira. A lenda mais famosa conta que Bacon e o frei Bungay passaram sete anos a construir uma cabeça de bronze capaz de falar. Queriam saber como rodear a Inglaterra de uma muralha de bronze.
Para a fazer falar, teriam precisado da ajuda de um demónio. No momento decisivo, a distração ou o cansaço estragaram tudo, e a cabeça desfez-se.
A história ficou célebre com a peça de Robert Greene, Frei Bacon e Frei Bungay (c. 1589–1590), uma das comédias de maior êxito da Inglaterra isabelina. Greene acrescentou elementos de necromancia que não estavam nos relatos anteriores.
Não há nenhum documento que ligue o verdadeiro Bacon a tal cabeça. A mesma lenda foi contada sobre outros sábios medievais: o papa Silvestre II (Gerberto), Robert Grosseteste e Alberto Magno.
O manuscrito Voynich: uma atribuição falsa
O manuscrito Voynich é um códice ilustrado, escrito numa escrita que ninguém conseguiu ler. Está hoje na Biblioteca Beinecke, da Universidade de Yale (MS 408).
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 1665–1666 | Uma carta de Johannes Marcus Marci conta que o imperador Rodolfo II teria pago 600 ducados pelo livro, julgando-o de Roger Bacon. O próprio Marci não se compromete. |
| 1912 | O livreiro Wilfrid Voynich compra o manuscrito e defende a autoria de Bacon. |
| 1921 | William Romaine Newbold diz tê-lo decifrado e fala de microscópios e galáxias descritos por Bacon. |
| 1931 | John Manly mostra que o método de Newbold permitia «ler» quase tudo. A decifração cai. |
| 2009 | A datação por radiocarbono do pergaminho, na Universidade do Arizona, dá 1404–1438. |
O pergaminho é, portanto, mais de um século posterior à morte de Bacon. A atribuição está hoje abandonada pelos historiadores.
Influência
- O título de Doctor mirabilis («Doutor Admirável») foi-lhe dado depois da morte.
- No século XIX, foi apresentado como um «cientista moderno» perseguido pela Igreja. Os historiadores atuais veem-no antes como um franciscano medieval que queria pôr as ciências ao serviço da fé.
- As lendas fizeram dele, durante séculos, uma figura dos livros de magia populares, ao lado de Alberto Magno e de Agrippa.
Curiosidades
- Bacon propôs ao papa uma reforma do calendário, porque o calendário juliano se afastava do Sol. A reforma só viria em 1582, com Gregório XIII.
- Não tem parentesco conhecido com Francis Bacon, o filósofo inglês do século XVII.
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Fontes
- Jeremiah Hackett, «Roger Bacon», Stanford Encyclopedia of Philosophy — plato.stanford.edu
- «Roger Bacon», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Brazen head», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Voynich manuscript», Wikipedia — en.wikipedia.org