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🧙 Figuras do Oculto

Pedro de Abano, o médico de Pádua

Pedro de Abano (c. 1250–1316), médico e astrólogo de Pádua: o Conciliator, os processos da Inquisição, a lenda da fogueira e o falso Heptameron.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A vida (facto)
  3. As obras
  4. Os processos da Inquisição
  5. A lenda do mago
  6. O Heptameron e outros livros atribuídos
  7. Influência e memória
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Pedro de Abano foi um dos médicos mais famosos da Itália medieval. Ensinou em Pádua, escreveu uma grande obra que tentava pôr de acordo médicos e filósofos, e acreditava firmemente na astrologia.

Depois da morte, a fama de astrólogo e as acusações de heresia transformaram-no num mago lendário. O seu nome acabou na capa de um grimório que não escreveu: o Heptameron.

Esta página conta a vida documentada, a lenda e a forma como os historiadores as separam.

Ficha

Campo Informação
Nome Pedro de Abano (em italiano, Pietro d'Abano; em latim, Petrus de Abano)
Nascimento c. 1250–1257, Abano, perto de Pádua
Morte c. 1315–1316
Origem Itália (território de Pádua)
Ocupação Médico, filósofo, astrólogo, tradutor do grego
Obras principais Conciliator, Expositio Problematum, De venenis
Conhecido por Medicina astrológica e fama póstuma de mago

A vida (facto)

Pedro nasceu em Abano, a vila termal junto a Pádua (hoje Abano Terme). Na juventude esteve em Constantinopla, onde aprendeu grego. Mais tarde traduziu textos médicos gregos para latim.

Por volta de 1300 estava em Paris, onde obteve os graus em filosofia e medicina e ganhou a alcunha de «o Grande Lombardo». Em 1306 regressou a Pádua, onde ensinou medicina e se tornou um médico muito procurado.

Morreu por volta de 1315–1316.

As obras

O «Conciliador»

A obra principal é o Conciliator differentiarum quae inter philosophos et medicos versantur — «Conciliador das diferenças entre filósofos e médicos». A primeira versão ficou pronta por volta de 1303; a revista, em 1310.

São 210 questões em que os médicos e os filósofos aristotélicos discordavam. Pedro discute cada uma e procura uma solução. A astrologia tem ali um lugar importante: para ele, os astros influenciam o corpo e a doença.

O livro foi uma autoridade na medicina até ao século XVI e teve muitas edições impressas.

Outras obras

  • um comentário aos Problemas atribuídos a Aristóteles;
  • o De venenis, sobre venenos e remédios;
  • traduções de obras astrológicas de Abraão ibn Ezra.

O astrónomo Regiomontano, no século XV, elogiou-o como mestre da astrologia.

➜ História da astrologia

Os processos da Inquisição

Aqui é preciso cuidado, porque as fontes antigas e os estudos recentes não dizem o mesmo.

Data O que se sabe
1303–1304 Em Paris, foi acusado por ideias sobre a alma. É o próprio Pedro quem diz que escapou graças a uma intervenção papal.
1306 Um médico, Pedro de Reggio, denunciou-o por heresia e necromancia. Não há prova de que tenha havido processo.
1312 e seguintes Em Pádua, um inquisidor abriu um processo por heresia. O conteúdo exato da acusação não é claro.

A lenda da fogueira

A versão tradicional, repetida em muitas enciclopédias, diz que Pedro morreu na prisão, antes da sentença. Condenado depois da morte, os seus ossos deveriam ser queimados. Um amigo teria escondido o corpo, e a Inquisição teria queimado apenas uma efígie (um boneco com a sua figura).

A historiadora Iolanda Ventura, no Dizionario Biografico degli Italiani (2015), considera esta lenda sem fundamento. Mostra que os filhos continuaram na posse dos bens da família em 1318 e 1321, o que dificilmente aconteceria depois de uma condenação por heresia.

Fica, portanto, como tradição e não como facto provado.

➜ Caça às bruxas na Europa

A lenda do mago

Depois da morte, as histórias cresceram:

  • teria a pedra filosofal;
  • o dinheiro que gastava voltava sozinho à sua bolsa, com ajuda de demónios;
  • guardaria sete espíritos fechados num cristal.

Nenhuma destas histórias tem base documental. São típicas da forma como a Europa transformava sábios em feiticeiros, como aconteceu a Roger Bacon e a Alberto Magno.

➜ Roger Bacon

O Heptameron e outros livros atribuídos

No Renascimento, Tritémio e Cornélio Agrippa atribuíram-lhe obras de magia e necromancia: os Elementa magica, o Heptameron e um Elucidarium necromanticum.

O Heptameron — um manual de magia cerimonial organizado pelos sete dias da semana — só aparece impresso em Marburgo, em 1559, mais de duzentos anos depois da morte de Pedro. Os historiadores consideram a atribuição falsa.

A ironia é grande: o verdadeiro Pedro de Abano foi acusado precisamente de negar a ação de demónios e de explicar os fenómenos por causas naturais e astrais.

➜ Heptameron ou Elementos Mágicos

➜ Os anjos e planetas dos dias da semana

Influência e memória

  • Em Pádua, o grande salão do Palazzo della Ragione tem um ciclo de frescos astrológicos. A tradição diz que foi inspirado nas ideias de Pedro. Em 1420 foi ali posto um busto seu com uma inscrição que lembra a fama de astrólogo.
  • Tem estátuas em Pádua (no Prato della Valle) e em Abano Terme.
  • Através do Heptameron, o seu nome ficou para sempre ligado à magia angélica dos dias e das horas.

➜ Horas planetárias

Continue a ler

➜ Figuras do oculto

➜ Magia medieval

➜ Cornélio Agrippa

Fontes

  • Iolanda Ventura, «Pietro d'Abano», Dizionario Biografico degli Italiani, vol. 83, 2015 — treccani.it
  • «Pietro d'Abano», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Pietro d'Abano», Wikipedia — it.wikipedia.org
  • Lynn Thorndike, A History of Magic and Experimental Science, vol. II, Columbia University Press, 1923.

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