Gnosticismo é o nome dado pelos estudiosos modernos a um conjunto de movimentos religiosos dos primeiros séculos da nossa era, sobretudo cristãos, que punham no centro a gnose — palavra grega que significa «conhecimento».
Não se trata de conhecimento intelectual, mas de um conhecimento direto do divino, capaz de libertar a alma. Para muitos destes grupos, o mundo material não era obra do Deus supremo, mas de um criador inferior.
Durante séculos, estes movimentos foram conhecidos quase só pelos livros dos seus adversários. Em 1945, uma descoberta no Egito mudou tudo.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Gnosticismo (do grego gnôsis, conhecimento) |
| Período | Sobretudo séculos II–III d.C. |
| Regiões | Egito, Síria, Roma e todo o Mediterrâneo |
| Grandes escolas | Setianos, valentinianos, basilidianos |
| Fontes principais | Biblioteca de Nag Hammadi (1945); escritos dos Padres da Igreja |
| Sobrevivente antigo | Mandeísmo |
As ideias centrais
Os sistemas gnósticos variam muito, mas repetem várias figuras:
| Conceito | O que é |
|---|---|
| Pleroma | A «plenitude» divina, mundo de luz |
| Éons | Seres espirituais emanados de Deus, muitas vezes em pares |
| Sophia | A «Sabedoria», o último éon, cuja falta origina o mundo inferior |
| Demiurgo | O criador do mundo material, ignorante ou imperfeito; chamado Ialdabaoth ou Saklas |
| Arcontes | Servos do demiurgo, que prendem as almas à matéria |
O mito de Sophia
Num dos mitos mais conhecidos, Sophia age sozinha, sem o seu par. Dessa ação nasce o demiurgo, que cria o mundo material julgando ser o único deus.
Nos seres humanos ficou, porém, uma centelha de luz divina. A gnose é o despertar dessa centelha e o caminho de regresso ao Pleroma.
As escolas antigas
- Setianos — ligavam a gnose a Set, filho de Adão; o seu texto principal é o Apócrifo de João.
- Valentinianos — seguidores de Valentim (séc. II), com um sistema filosófico elaborado.
- Basilidianos — seguidores de Basílides, sobretudo no Egito.
- Maniqueísmo (séc. III) — religião fundada por Mani, com um dualismo cósmico forte.
- Mandeísmo — a única religião gnóstica antiga que sobrevive até hoje, no Iraque e no Irão e na diáspora.
Os Padres da Igreja apresentaram Simão Mago como o primeiro destes «hereges». É uma construção polémica, não uma genealogia provada.
Os adversários: Ireneu e os heresiólogos
Por volta de 180 d.C., Ireneu de Lyon escreveu Contra as Heresias, uma longa refutação dos gnósticos. Outros autores cristãos seguiram-no.
Estes textos foram, até ao século XX, a principal fonte sobre o gnosticismo. O problema é evidente: eram escritos por inimigos. Os livros gnósticos foram em grande parte destruídos ou perdidos.
A descoberta de Nag Hammadi (1945)
No fim de 1945, perto da cidade de Nag Hammadi, no Alto Egito, um camponês chamado Muhammad al-Samman encontrou um jarro selado. Lá dentro estavam doze códices de papiro encadernados em couro e parte de um décimo terceiro.
Os códices contêm 52 tratados em copta, copiados nos séculos III–IV. A maioria é gnóstica, mas há também três textos herméticos e uma adaptação de um trecho da República de Platão.
Entre os mais conhecidos:
- o Evangelho de Tomé, uma coleção de ditos atribuídos a Jesus;
- o Apócrifo de João;
- o Evangelho de Filipe;
- o Evangelho da Verdade.
Os códices estão hoje no Museu Copta do Cairo. Um deles esteve no Instituto C. G. Jung, em Zurique, entre 1951 e 1975 (o «Códice Jung»). A tradução inglesa completa, dirigida por James M. Robinson, saiu em 1977.
Prisciliano: um eco na Península Ibérica
O caso de Prisciliano liga este tema ao nosso território. Foi bispo de Ávila no século IV e o seu movimento espalhou-se sobretudo na Galécia, a província que incluía o norte do atual Portugal.
Foi acusado de gnosticismo, maniqueísmo e magia (maleficium). Por volta de 385, foi julgado por um tribunal civil em Tréveris e executado — é considerado o primeiro cristão morto por outros cristãos por heresia.
O Primeiro Concílio de Braga (561) condenou ainda as suas ideias, ligando-as expressamente aos gnósticos. Se Prisciliano era de facto gnóstico continua a ser discutido pelos historiadores.
«Gnosticismo»: uma categoria discutida
Desde os anos 1990, vários estudiosos — como Michael Williams (Rethinking «Gnosticism», 1996) e Karen King (What is Gnosticism?, 2003) — questionam se faz sentido juntar grupos tão diferentes num único rótulo criado pelos modernos.
Por isso, hoje fala-se mais de textos e grupos concretos do que de «um» gnosticismo.
Gnósticos modernos
A partir do século XIX, o gnosticismo tornou-se fonte de inspiração esotérica:
- Jules Doinel fundou em Paris, em 1890, a Igreja Gnóstica, inspirada nos cátaros e em Valentim. Papus foi um dos seus bispos.
- Aleister Crowley chamou Missa Gnóstica ao rito central da OTO.
- O psicólogo C. G. Jung interessou-se pelos mitos gnósticos como imagens da psique.
Estas correntes são reinterpretações modernas, não continuações diretas das escolas antigas.
➜ Thelema
Continue a ler
➜ A Cabala
Fontes
- Gnosticism — Wikipedia
- Nag Hammadi library — Wikipedia
- Priscillian — Wikipedia e Priscilianismo — Wikipédia
- Jules Doinel — Wikipedia
- James M. Robinson (dir.), The Nag Hammadi Library in English (1977).