O ouroboros é a imagem de uma serpente (ou dragão) que morde a própria cauda e forma um círculo. É um dos símbolos mais antigos e mais reconhecíveis do esoterismo ocidental.
O nome vem do grego ouroboros, de oura, «cauda», e -boros, «que come»: literalmente, «o que come a cauda».
Nesta página seguimos o símbolo desde o Egito até à alquimia e à psicologia moderna, separando o que está documentado do que é interpretação posterior.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Ouroboros (também «uroboro») |
| Outros nomes | Serpente que morde a cauda; em Portugal, a imagem popular da «pescadinha de rabo na boca» |
| Origem mais antiga conhecida | Egito, séc. XIV a.C. (túmulo de Tutankhamon) |
| Culturas | Egípcia, greco-romana, gnóstica, alquímica, nórdica |
| Significados | Ciclo do tempo, eternidade, unidade do todo, renovação |
A origem no Egito
O exemplo mais antigo conhecido está no túmulo de Tutankhamon (KV62, séc. XIV a.C.). Num dos santuários dourados que protegiam o sarcófago, um texto funerário hoje chamado Livro Enigmático do Mundo Inferior mostra uma figura rodeada por duas serpentes que seguram a cauda na boca: uma à volta da cabeça, outra à volta dos pés.
O texto trata da união do deus-Sol Rá com Osíris no mundo dos mortos. As serpentes são identificadas com Mehen, um deus-serpente que noutros textos protege Rá na sua viagem noturna.
A ideia de fundo é egípcia: o tempo cíclico, em que o fim se volta a ligar ao princípio. A imagem continuou a ser usada até à época romana, em amuletos e talismãs. No séc. IV d.C., o comentador latino Sérvio explicava-a como imagem do ano que regressa sobre si mesmo.
A Crisopeia de Cleópatra: «o Todo é Um»
A imagem mais famosa do ouroboros vem da alquimia greco-egípcia. A Crisopeia de Cleópatra («fabricação do ouro») é uma folha de desenhos e símbolos atribuída a uma alquimista chamada Cleópatra (não a rainha).
O original é provavelmente de Alexandria, séc. III d.C., mas só o conhecemos por uma cópia do séc. X. O ouroboros aparece metade escuro, metade claro, e rodeia as palavras gregas hen to pan — «o Todo é Um».
Para os alquimistas, a serpente que se devora e renasce representava a matéria que se transforma sem se perder: o mesmo princípio a passar por morte e renascimento.
➜ Alquimia
Gnósticos e alquimistas medievais
Nos meios gnósticos da Antiguidade tardia, a serpente que morde a cauda simbolizava a eternidade e a alma do mundo. O texto gnóstico Pistis Sophia descreve um dragão dividido em doze partes que rodeia o mundo.
A alquimia medieval e moderna herdou a imagem. Aparece, por exemplo, no manuscrito do séc. XV Aurora Consurgens e numa gravura do tratado De Lapide Philosophico publicado por Lucas Jennis em 1625, onde um dragão alado que morde a cauda representa o mercúrio alquímico.
Jörmungandr: o paralelo nórdico
A mitologia nórdica tem uma imagem parecida, de origem independente. Jörmungandr, a Serpente do Mundo, filha de Loki e da gigante Angrboda, cresceu tanto que rodeia a Terra e agarra a própria cauda com os dentes.
É um bom exemplo de como culturas diferentes chegaram a imagens semelhantes. Não prova uma origem comum.
O sonho de Kekulé: história com reservas
É muitas vezes contado que o químico alemão August Kekulé descobriu a forma em anel do benzeno depois de sonhar com uma serpente a morder a cauda.
Os factos são estes:
- Kekulé publicou a teoria do benzeno em 1865.
- Só contou o sonho em 1890, numa cerimónia de homenagem, 25 anos depois.
- Vários historiadores duvidam da história. Uma hipótese é que responde a uma paródia de 1886, com macacos em roda em vez de uma serpente.
O episódio é uma boa anedota, mas não é um facto seguro da história da ciência.
Carl Jung: o ouroboros como arquétipo
No séc. XX, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung estudou a fundo os livros de alquimia. Viu no ouroboros um arquétipo e a «mandala básica» da alquimia.
Para Jung, a serpente que se devora e se recria representa a integração dos opostos — incluindo aquilo a que chamava a sombra, a parte de nós que não reconhecemos. É uma interpretação psicológica moderna, não o significado original egípcio.
➜ Mandala
A pescadinha de rabo na boca
Em Portugal e em Espanha, a pescadinha servida com a cauda presa na boca deu origem a uma expressão popular: uma «pescadinha de rabo na boca» é um raciocínio circular ou um problema que volta sempre ao ponto de partida. É o ouroboros no prato e na língua do dia a dia.
Mitos modernos a desfazer
- «É um símbolo satânico.» Não. Na maior parte da sua história foi associado ao tempo, à eternidade e à unidade.
- «É um amuleto de proteção com poder próprio.» O ouroboros foi usado em talismãs antigos, mas o seu uso hoje é crença pessoal; não tem efeito comprovado.
- «Todas as serpentes circulares são o mesmo símbolo.» O egípcio, o gnóstico, o alquímico e o nórdico têm contextos e sentidos diferentes.
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Fontes
- «Ouroboros», Wikipedia (com bibliografia) — en.wikipedia.org
- «August Kekulé», Wikipedia (discurso de 1890 e dúvidas dos historiadores) — en.wikipedia.org
- Alexandre Piankoff, The Shrines of Tut-Ankh-Amon, Pantheon Books, 1955
- C. G. Jung, Mysterium Coniunctionis (Obras Completas, vol. 14)