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🔯 Símbolos

Ouroboros: a serpente que morde a própria cauda

O ouroboros explicado: do túmulo de Tutankhamon à Crisopeia de Cleópatra, a alquimia, Jörmungandr, o sonho de Kekulé e a leitura de Carl Jung.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A origem no Egito
  3. A Crisopeia de Cleópatra: «o Todo é Um»
  4. Gnósticos e alquimistas medievais
  5. Jörmungandr: o paralelo nórdico
  6. O sonho de Kekulé: história com reservas
  7. Carl Jung: o ouroboros como arquétipo
  8. A pescadinha de rabo na boca
  9. Mitos modernos a desfazer
  10. Continue a ler
  11. Fontes

O ouroboros é a imagem de uma serpente (ou dragão) que morde a própria cauda e forma um círculo. É um dos símbolos mais antigos e mais reconhecíveis do esoterismo ocidental.

O nome vem do grego ouroboros, de oura, «cauda», e -boros, «que come»: literalmente, «o que come a cauda».

Nesta página seguimos o símbolo desde o Egito até à alquimia e à psicologia moderna, separando o que está documentado do que é interpretação posterior.

➜ A serpente como símbolo

Ficha

Campo Informação
Nome Ouroboros (também «uroboro»)
Outros nomes Serpente que morde a cauda; em Portugal, a imagem popular da «pescadinha de rabo na boca»
Origem mais antiga conhecida Egito, séc. XIV a.C. (túmulo de Tutankhamon)
Culturas Egípcia, greco-romana, gnóstica, alquímica, nórdica
Significados Ciclo do tempo, eternidade, unidade do todo, renovação

A origem no Egito

O exemplo mais antigo conhecido está no túmulo de Tutankhamon (KV62, séc. XIV a.C.). Num dos santuários dourados que protegiam o sarcófago, um texto funerário hoje chamado Livro Enigmático do Mundo Inferior mostra uma figura rodeada por duas serpentes que seguram a cauda na boca: uma à volta da cabeça, outra à volta dos pés.

O texto trata da união do deus-Sol Rá com Osíris no mundo dos mortos. As serpentes são identificadas com Mehen, um deus-serpente que noutros textos protege Rá na sua viagem noturna.

A ideia de fundo é egípcia: o tempo cíclico, em que o fim se volta a ligar ao princípio. A imagem continuou a ser usada até à época romana, em amuletos e talismãs. No séc. IV d.C., o comentador latino Sérvio explicava-a como imagem do ano que regressa sobre si mesmo.

➜ Magia egípcia

A Crisopeia de Cleópatra: «o Todo é Um»

A imagem mais famosa do ouroboros vem da alquimia greco-egípcia. A Crisopeia de Cleópatra («fabricação do ouro») é uma folha de desenhos e símbolos atribuída a uma alquimista chamada Cleópatra (não a rainha).

O original é provavelmente de Alexandria, séc. III d.C., mas só o conhecemos por uma cópia do séc. X. O ouroboros aparece metade escuro, metade claro, e rodeia as palavras gregas hen to pan — «o Todo é Um».

Para os alquimistas, a serpente que se devora e renasce representava a matéria que se transforma sem se perder: o mesmo princípio a passar por morte e renascimento.

➜ Alquimia

➜ Hermetismo

Gnósticos e alquimistas medievais

Nos meios gnósticos da Antiguidade tardia, a serpente que morde a cauda simbolizava a eternidade e a alma do mundo. O texto gnóstico Pistis Sophia descreve um dragão dividido em doze partes que rodeia o mundo.

A alquimia medieval e moderna herdou a imagem. Aparece, por exemplo, no manuscrito do séc. XV Aurora Consurgens e numa gravura do tratado De Lapide Philosophico publicado por Lucas Jennis em 1625, onde um dragão alado que morde a cauda representa o mercúrio alquímico.

Jörmungandr: o paralelo nórdico

A mitologia nórdica tem uma imagem parecida, de origem independente. Jörmungandr, a Serpente do Mundo, filha de Loki e da gigante Angrboda, cresceu tanto que rodeia a Terra e agarra a própria cauda com os dentes.

É um bom exemplo de como culturas diferentes chegaram a imagens semelhantes. Não prova uma origem comum.

O sonho de Kekulé: história com reservas

É muitas vezes contado que o químico alemão August Kekulé descobriu a forma em anel do benzeno depois de sonhar com uma serpente a morder a cauda.

Os factos são estes:

  • Kekulé publicou a teoria do benzeno em 1865.
  • Só contou o sonho em 1890, numa cerimónia de homenagem, 25 anos depois.
  • Vários historiadores duvidam da história. Uma hipótese é que responde a uma paródia de 1886, com macacos em roda em vez de uma serpente.

O episódio é uma boa anedota, mas não é um facto seguro da história da ciência.

Carl Jung: o ouroboros como arquétipo

No séc. XX, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung estudou a fundo os livros de alquimia. Viu no ouroboros um arquétipo e a «mandala básica» da alquimia.

Para Jung, a serpente que se devora e se recria representa a integração dos opostos — incluindo aquilo a que chamava a sombra, a parte de nós que não reconhecemos. É uma interpretação psicológica moderna, não o significado original egípcio.

➜ Mandala

A pescadinha de rabo na boca

Em Portugal e em Espanha, a pescadinha servida com a cauda presa na boca deu origem a uma expressão popular: uma «pescadinha de rabo na boca» é um raciocínio circular ou um problema que volta sempre ao ponto de partida. É o ouroboros no prato e na língua do dia a dia.

Mitos modernos a desfazer

  • «É um símbolo satânico.» Não. Na maior parte da sua história foi associado ao tempo, à eternidade e à unidade.
  • «É um amuleto de proteção com poder próprio.» O ouroboros foi usado em talismãs antigos, mas o seu uso hoje é crença pessoal; não tem efeito comprovado.
  • «Todas as serpentes circulares são o mesmo símbolo.» O egípcio, o gnóstico, o alquímico e o nórdico têm contextos e sentidos diferentes.

Continue a ler

➜ O círculo como símbolo

➜ Símbolos alquímicos

➜ Todos os símbolos

Fontes

  • «Ouroboros», Wikipedia (com bibliografia) — en.wikipedia.org
  • «August Kekulé», Wikipedia (discurso de 1890 e dúvidas dos historiadores) — en.wikipedia.org
  • Alexandre Piankoff, The Shrines of Tut-Ankh-Amon, Pantheon Books, 1955
  • C. G. Jung, Mysterium Coniunctionis (Obras Completas, vol. 14)

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